'Não Olhe para Cima': para cientistas, ‘cometa’ do filme se compara ao negacionismo na pandemia

Produção motivou comparações nas redes sociais com personagens da cena política brasileira; cientistas políticos, infectologistas e bióloga dizem o que representa o ‘cometa do negacionismo brasileiro’

Redação - O Estado de S.Paulo

O filme Não Olhe para Cima, do diretor americano Adam McKay, traz ao espectador a sensação de já tê-lo assistido antes. Na trama, uma doutoranda em astronomia descobre que um cometa irá colidir com a Terra em seis meses. Ao tentarem alertar para a iminente destruição do planeta, os cientistas esbarram no descaso da presidente dos Estados Unidos, interpretada por Meryl Streep, e da própria mídia. A produção tinha o objetivo de resgatar o desafio do aquecimento global, mas a pandemia que assola o mundo desde 2020 apresentou outra possibilidade de interpretação.

Nas redes, há quem tenha achado que o filme é quase um documentário por se adequar à realidade de seus países. Para resolver o problema, os personagens precisam lidar com divisionismo político e influência de instituições privadas nas políticas de governo. O Estadão ouviu seis pesquisadores para saber qual a interpretação deles sobre o que o cometa representa no contexto brasileiro. Na opinião dos especialistas, “não olhar para cima” é uma alegoria ao negacionismo - não importa quão evidente esteja o risco, parte da população não consegue vê-lo, ou prefere negá-lo, dizem. 

Para a bióloga Natália Pasternak, a comparação do cometa com o cenário brasileiro, seja pela perspectiva do problema existencial do aquecimento global ou da própria pandemia, é inevitável. “Tivemos o negacionismo com a questão amazônica antes mesmo da própria pandemia. Mas ele foi agravado. Se o filme fosse brasileiro, de repente o título poderia ser ‘é só uma gripezinha’”, disse.  

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Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence interpretam cientistas tentando alertar o mundo para um desastre em 'Não Olhe para Cima'. Foto: Niko Tavernise/Netflix

O cientista político Carlos Melo entende que o “cometa” se localiza na anticiência. “Há uma desconfiança muito grande e o especialista não tem potência (no Brasil). O negacionismo é tão arcaico, tão precário, que não consegue ser um projeto de poder”, explicou. “Se fosse um projeto, esses governos teriam tido performances melhores, eficientes, e não tiveram.”

Um dos entrevistados na CPI da Covid, o infectologista Pedro Hallal defende que o Brasil vive a mesma situação que a do filme: um “check list de erros”. “Muitas pessoas sentiram o efeito do negacionismo na pele. Viram que a doença tira a vida de famílias que passam fome e famílias com fartura.”

O doutor em Ciência Política Rafael Cortez vê que o combate ao negacionismo usa ferramentas que não são só técnicas, mas também de interesse político. “A gente viu grupos de interesse sendo formados no grupo privado e buscando infiltrar nesses espaços do poder público”, diz, em referência à negociação pela compra dos imunizantes pelo governo federal. 

Já o infectologista Júlio Croda arremata pontuando que, se um gestor apoia o negacionismo, é comum que uma parte da sociedade o siga. “Parece que perdemos a oportunidade de proteger o futuro e transformar esse futuro num cenário melhor.”

O cientista político Rodrigo Prando concorda. O especialista reforça que negar a realidade e se alimentar da desinformação é coloca a vida das pessoas em risco. Mas, mais do que isso, “tem um impacto na própria confiança na democracia e nas instituições.”

Veja as respostas dos especialistas abaixo: 

Carlos Melo, cientista político e professor do Insper.

É possível comparar a iminência da destruição da Terra pelo cometa apresentado no filme com o contexto brasileiro?

A  pandemia foi um cometa que se chocou com a terra. De certa forma, o filme acaba estabelecendo um diálogo com o impacto que ela trouxe no mundo a partir de como reagiram os governos: alguns muito bem, outros muito mal. No Brasil, o cometa se localiza na anticiência. Há uma desconfiança muito grande e o especialista não tem potência. Ele é tratado como desprezo, como se todos soubessem a mesma coisa. O negacionismo é tão arcaico, tão precário, que não consegue ser um projeto de poder. Projeto é definição de futuro. Se não tem projeto, você tem disputa de poder, mas não consegue dar respostas lá na frente. Se fosse um projeto, esses governos teriam tido performances melhores, eficientes, e não tiveram. Como falta conhecimento, tudo se resume a clichês. Por exemplo, o clichê do algoritmo, como o CEO da big tech, representa no filme.  É uma crença na desinformação. São governos que chegaram ao poder em um momento de muito ressentimento e raiva de grande parte da sociedade, que estava perdida com tantas transformações.

Quais os riscos deste negacionismo na vida das pessoas? 

Se você adotasse para o Brasil a mesma postura de países que não negaram a pandemia, você teria tido um terço das mortes que nós tivemos. É claro que a pandemia, ou um cometa, você não pode colocar o surgimento na conta de nenhum governo, são contingências. Mas a tentativa de minimização de danos é obrigação de um governo. E no filme você vê que isso não houve, todo mundo morreu. Assim como nos países que negaram a vacina, houve uma potencialização dos danos.

É possível parar o cometa?

A humanidade desenvolveu a ciência, que começa na invenção da roda, do fogo e que chega nessa complexidade toda que nós temos. A humanidade tem reagido, dando respostas científicas, por exemplo, as vacinas. O mundo desenvolveu as vacinas em menos de um ano. E do ponto de vista eleitoral alguns países já vem dando respostas também. É o caso dos Estados Unidos. Quem saiu vitorioso no final das contas foi o lado da sociedade que acredita na ciência, nessa ideia de humanidade, de progresso de futuro, e não essa visão medieval, obscura, do outro lado. Acho que a partir desse terrível processo da pandemia, a humanidade vem se tocando, vem se apercebendo desses danos e de alguma forma  tenta se organizar e sair. É necessário acreditar na ciência, na política e nessa ideia de humanidade.

Pedro Hallal, epidemiologista professor da Universidade Federal de Pelotas

É possível comparar a iminência da destruição da Terra pelo cometa apresentado no filme com o contexto brasileiro?

Eu acho que existem dois candidatos a cometa no caso do Brasil. Tem um que se encaixa melhor na história: a covid-19, porque todos nós sabíamos que ela estava vindo desde que recebemos as primeiras informações. A primeira atitude do governo federal foi negar que a doença existia. Não podemos esquecer disso. Depois, negaram a gravidade dela, como se dissessem que o cometa não é grande o bastante ou que, se ele existe, é muito pequeno ou vai cair no mar. Foi a mesma coisa com a história da gripezinha. Também tem a questão da vacina em si. A vacina estava para chegar e o que se dizia? Que a vacina é experimental, que vem da China, que se ela te transformar em jacaré o problema é seu. 

Quais os riscos deste negacionismo na vida das pessoas? 

Muitas pessoas sentiram o efeito do negacionismo na pele. Viram que a doença tira a vida de famílias que passam fome e famílias com fartura. Tirando esses grupos minoritários que são negacionistas extremos, as pessoas têm percebido muito bem esses riscos e que tudo aquilo para que os especialistas alertaram se confirmou. O que estamos vivendo hoje é a mesma coisa do filme. Desde o começo, as ações no Brasil são erradas, é um check list de erros. Não se investiu em testagem e rastreamento. O uso de máscaras ocorreu muito mais por decisão individual, de certas comunidades e de alguns estados isolados do que por parte do governo federal. O que estamos vivendo hoje é a mesma coisa do filme. 

É possível parar o cometa?

É possível. Acho que a pandemia ajudou a formar um consenso entre os políticos sobre a importância da pesquisa científica. É difícil encontrar pontos que unam o Lula ao Moro. Mas a defesa na vacinação e do uso de máscaras, por exemplo, é uma delas. Vejo que todos os outros nomes da política, como Alckmin, Doria e Eduardo Leite concordam com esses pontos. Isso é importante para superarmos os desafios. Acredito que os próximos anos serão anos de mais incentivo à ciência. Talvez essa seja uma visão romântica minha, mas hoje vejo mais políticos falando comigo para buscar informações. Um ponto em que avançamos na pandemia, mas ainda precisamos melhorar, é a exposição e comunicação científica clara com o restante da sociedade. (Nós, cientistas,) Estávamos acostumados a falar só com nós mesmos. E quando íamos falar com a população, falávamos de um jeito que só nós entendíamos. Vamos precisar trabalhar nisso. 

Rafael Cortez, doutor em Ciência Política e professor do IPD

É possível comparar a iminência da destruição da Terra pelo cometa apresentado no filme com o contexto brasileiro?

Entendo o negacionismo em uma dupla: a negação de um fenômeno, e da percepção de que é um problema. O caso brasileiro é um desafio em particular visto que Bolsonaro colocou uma agenda de fazer questionamentos ao mainstream. Essa agenda faz com que ele tenha dificuldade, seja de perceber (a pandemia) como um problema seja a de encontrar ferramenta para combater. Esse ambiente de construção da política pública está muito associado com representação política. Pesquisas já mostram uma desconfiança do eleitor, mas me parece que isso está exacerbado no atual cenário, em parte pelo volume muito relevante de produção de material. Isso gera um custo muito elevado de adquirir informação, e o eleitor não consegue fazer esse acompanhamento. 

Quais os riscos deste negacionismo na vida das pessoas?

A identificação do problema de um movimento percebido é fundamental. Utilizar determinadas ferramentas para combatê-lo não é um problema só técnico, é um problema de interesses. É o caso das vacinas. A escolha de quando comprar não é só técnica, ela gera uma distribuição de preferências, se forma grupo de interesses. Há pessoas que vão ganhar e vão perder, em torno de qual vacina o governo deveria comprar, quantidade. Todos os imunizantes têm evidentemente uma base técnica, mas o olhar técnico nunca vai resolver o problema de qual decisão vai ser tomada. A ferramenta que vai ser usada é um objeto de disputa política. De nada adianta uma diversidade de ferramentas para atacar um problema se não for percebida como tal. A analogia “não olhe para cima” é uma forma de não ter uma informação de algo. 

É possível parar o cometa?

Todos estes pontos funcionam dentro de uma comunidade política, determinados eventos como o meteoro do filme e a pandemia em um mundo real, dado que ela também tem esse caráter global, dado que a cepa circula, não é um problema doméstico. A coordenação existente e a demanda de políticas coordenadas é exacerbada. Se a gente não tem essa percepção de que é um problema, a sociedade não se movimenta e é eventualmente capturada por grupos de interesses. O que a CPI da pandemia mostrou é que o processo de compra de vacinas era objeto de interesse a ponto de integrantes do governo negociarem com grupos privados, que não tinham nem a propriedade da venda. A gente viu grupos de interesse sendo formados no grupo privado e buscando infiltrar nesses espaços do poder público.

Natália Pasternak, doutora em microbiologia e presidente do Instituto Questão de Ciência

É possível comparar a iminência da destruição da Terra pelo cometa apresentado no filme com o contexto brasileiro?

Apesar de sabermos que o filme foi pensado para o aquecimento global e a incapacidade do mundo de lidar com o problema, ainda veio depois a pandemia. Esse contexto fez com que o cometa também pudesse ser o coronavírus e dá para traçar esse paralelo na pandemia, em que teve gente a dizer que o vírus não existe, que foi fabricado, que é só uma gripezinha. Se o filme fosse brasileiro, de repente, o título poderia ser “é só uma gripezinha”. O que vemos no filme é um fenômeno de negação da ciência. Ela se tornou muito evidente durante a pandemia, não que existisse antes. Temos o negacionismo climático. Já tivemos problemas de negacionismo ambiental no Brasil com a questão amazônica antes da pandemia, mas o negacionismo foi agravado por ela. O paralelo com o filme é inevitável porque, durante os últimos dois anos, cientistas ficaram gritando que a pandemia era real, que era grave, que iria matar muita gente se medidas sanitárias não fossem implementadas, que não existiam curas milagrosas. Tudo isso gera uma conexão muito grande com os cientistas do filme que falam da iminência da chegada do cometa.

Quais os riscos deste negacionismo na vida das pessoas? 

Quando você nega um fato negativo, um fato histórico, você não toma atitudes necessárias para lidar com aquele fato. Se eu nego o aquecimento global, eu não vou agir para conter o aquecimento global. Se eu sou um gestor público, não vou tomar medidas para combater o aquecimento global, porque ele nem existe. Como neguei, então nem preciso agir, nem como gestor, nem como cidadão. Não preciso mudar os hábitos de vida, tomar atitudes para reduzir o consumo de combustíveis fósseis porque o problema nem existe. Isso vale para aquecimento global, vacina, pandemia, qualquer coisa que necessite de ações públicas ou privadas para lidar com o problema.

É possível parar o cometa?

É possível, no caso da pandemia. E a gente está fazendo isso, globalmente, aos poucos, com o desenvolvimento de vacinas e medicamentos. Nesses dois anos de pandemia, o desenvolvimento científico avançou muito e ele se reflete principalmente nas vacinas, desenvolvidas e aprovadas, que vão parar o cometa. A ciência pode parar o cometa, mas ela precisa ser ouvida. O filme mostra quando a ciência não está sendo ouvida. No filme, eles fazem uma tentativa real de desviar o cometa e ter menos estrago. A tentativa é abortada por causa da interferência do guru da big tech, que vê nele uma possibilidade de lucrar. Você deixa de tomar ações necessárias para conter o cometa. E na pandemia, eu acho que apesar do negacionismo, se pensarmos de uma maneira global, a ciência foi ouvida. De uma maneira global, a ciência deu sua resposta.

Rodrigo Prando, cientista político da Universidade Presbiteriana Mackenzie

Acha que é possível comparar o cometa do filme, e a forma com que as pessoas lidam com sua chegada, com algum fenômeno no Brasil nos últimos tempos?  

O filme traz elementos universais: o embate entre ciência e senso comum. A perspectiva científica sendo confrontada pela ignorância de um lado e convicções do outro. Uma parte das pessoas negam as evidências científicas, porque desconhecem ou ignoram o procedimento para se chegar em uma conclusão. Por um lado, pessoas que não acreditam num cometa, num vírus, na eficácia da vacina porque desconhecem ou ignoram como a ciência é produzida, mas tem outro contingente que nega a realidade por convicção. Max Weber chama isso de Ética da Convicção. Significa que você pode usar todos os argumentos possíveis ou racionais com alguém que está convicto da sua ideia que ele não vai mudar de posição. Nesse caso, negar a vacina não é questão de ser ignorante. Ele está no campo da convicção de que ele está certo e o mundo errado.

Quais os riscos deste negacionismo na vida das pessoas? 

Primeiro há um impacto imediato e pessoal, que é colocar a sua vida, ou das pessoas próximas em risco, que é mais pessoal, concreto e cotidiano. Para além disso, o negacionismo tem um impacto na própria confiança na democracia e nas instituições. Quando você desacredita na ciência e nos cientistas, você está colocando um descrédito no próprio conhecimento que é o elemento motor na construção da sociedade e da humanidade. O que diferencia a dúvida do cientista da dúvida do senso comum? É que o cientista procura evidências para corroborar ou não determinada informação. Ao passo que a maioria das pessoas tem certezas e se contentam com elas sem colocarem dúvidas os pressupostos. 

É possível parar o cometa?

Você tem que ter educação formal, que privilegie o conhecimento científico, mas você tem que ter também uma educação digital, para preparar as pessoas para a cidadania digital.Você tem que conjugar um só tema como educação formal, baseada na leitura, ao senso crítico.

Júlio Croda, infectologista e professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul 

É possível comparar a iminência da destruição da Terra pelo cometa apresentado no filme com o contexto brasileiro?

Com certeza. Existe uma dificuldade de encarar uma realidade mais difícil, mais complicada, em que a gente não tem a resposta para tudo. Foi assim com a pandemia. As pessoas tentaram relativizar, encontrar uma maneira de justificar o injustificável. A ciência mostrou o que era preciso ser feito. A todo momento, se teve uma tentativa de fugir dessa realidade, como foi com o kit covid, apresentado como uma solução milagrosa para a pandemia, se eu tomasse, tudo estaria resolvido; a imunidade de rebanho causada pela própria doença, por aí vai. Apesar de toda a tentativa de comunicação, o próprio governo federal, por diversos momentos, adotou uma postura negacionista, de negar evidências que são claras. Isso gera frustração para quem é da academia.  Não queriam encarar a realidade que é mais dura. O final do filme, olhado a partir da nossa tragédia, mostra que é claro que a sociedade não conseguiu lidar direito com a pandemia. Não conseguimos lidar com um tema que foi discutido durante seis meses. Voltávamos sistematicamente aos erros do passado, quando defendem o kit covid, quando não se apoia a vacinação de crianças. Há uma negação sistemática da ciência para manter o fluxo natural das nossas vidas.

Quais os riscos deste negacionismo na vida das pessoas? 

O risco é causar mais sofrimento. Os números vão provar. A ciência dá a direção. Mas a ciência não muda  as atitudes das pessoas e as do gestor. Os números provam que a ciência estava certa.  O resultado é que lá na frente o saldo da pandemia infelizmente reforça e leva um pouco de frustração porque a ciência apontava a direção e mesmo assim, a sociedade como um todo ignorou. Se tem um gestor que apoia o negacionismo, é comum ter uma parte da sociedade que também apoia. Parece que perdemos a oportunidade de proteger o futuro e transformar esse futuro num cenário melhor. 

É possível parar o cometa?

Do ponto de vista da pandemia, a única forma de parar o cometa é a vacinação. É possível parar. Se viu que com a vacina, a sociedade, apesar dos gestores desacreditarem, avançou. No início, a gente tinha os estudos. Muitos desconfiaram dos estudos. Fato é que se não fosse a vacina, a gente não teria os melhores indicadores da pandemia desde seu início em março, abril de 2020. Sim, é possível superar o cometa. A gente não fez isso no passado. Mas a gente tem outra oportunidade para isso. /COLABORARAM LEVY TELES, GUSTAVO QUEIROZ E GUSTAVO CÔRTES

 

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'Não Olhe para Cima': para cientistas, ‘cometa’ do filme se compara ao negacionismo na pandemia

Produção motivou comparações nas redes sociais com personagens da cena política brasileira; cientistas políticos, infectologistas e bióloga dizem o que representa o ‘cometa do negacionismo brasileiro’

Redação - O Estado de S.Paulo

O filme Não Olhe para Cima, do diretor americano Adam McKay, traz ao espectador a sensação de já tê-lo assistido antes. Na trama, uma doutoranda em astronomia descobre que um cometa irá colidir com a Terra em seis meses. Ao tentarem alertar para a iminente destruição do planeta, os cientistas esbarram no descaso da presidente dos Estados Unidos, interpretada por Meryl Streep, e da própria mídia. A produção tinha o objetivo de resgatar o desafio do aquecimento global, mas a pandemia que assola o mundo desde 2020 apresentou outra possibilidade de interpretação.

Nas redes, há quem tenha achado que o filme é quase um documentário por se adequar à realidade de seus países. Para resolver o problema, os personagens precisam lidar com divisionismo político e influência de instituições privadas nas políticas de governo. O Estadão ouviu seis pesquisadores para saber qual a interpretação deles sobre o que o cometa representa no contexto brasileiro. Na opinião dos especialistas, “não olhar para cima” é uma alegoria ao negacionismo - não importa quão evidente esteja o risco, parte da população não consegue vê-lo, ou prefere negá-lo, dizem. 

Para a bióloga Natália Pasternak, a comparação do cometa com o cenário brasileiro, seja pela perspectiva do problema existencial do aquecimento global ou da própria pandemia, é inevitável. “Tivemos o negacionismo com a questão amazônica antes mesmo da própria pandemia. Mas ele foi agravado. Se o filme fosse brasileiro, de repente o título poderia ser ‘é só uma gripezinha’”, disse.  

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Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence interpretam cientistas tentando alertar o mundo para um desastre em 'Não Olhe para Cima'. Foto: Niko Tavernise/Netflix

O cientista político Carlos Melo entende que o “cometa” se localiza na anticiência. “Há uma desconfiança muito grande e o especialista não tem potência (no Brasil). O negacionismo é tão arcaico, tão precário, que não consegue ser um projeto de poder”, explicou. “Se fosse um projeto, esses governos teriam tido performances melhores, eficientes, e não tiveram.”

Um dos entrevistados na CPI da Covid, o infectologista Pedro Hallal defende que o Brasil vive a mesma situação que a do filme: um “check list de erros”. “Muitas pessoas sentiram o efeito do negacionismo na pele. Viram que a doença tira a vida de famílias que passam fome e famílias com fartura.”

O doutor em Ciência Política Rafael Cortez vê que o combate ao negacionismo usa ferramentas que não são só técnicas, mas também de interesse político. “A gente viu grupos de interesse sendo formados no grupo privado e buscando infiltrar nesses espaços do poder público”, diz, em referência à negociação pela compra dos imunizantes pelo governo federal. 

Já o infectologista Júlio Croda arremata pontuando que, se um gestor apoia o negacionismo, é comum que uma parte da sociedade o siga. “Parece que perdemos a oportunidade de proteger o futuro e transformar esse futuro num cenário melhor.”

O cientista político Rodrigo Prando concorda. O especialista reforça que negar a realidade e se alimentar da desinformação é coloca a vida das pessoas em risco. Mas, mais do que isso, “tem um impacto na própria confiança na democracia e nas instituições.”

Veja as respostas dos especialistas abaixo: 

Carlos Melo, cientista político e professor do Insper.

É possível comparar a iminência da destruição da Terra pelo cometa apresentado no filme com o contexto brasileiro?

A  pandemia foi um cometa que se chocou com a terra. De certa forma, o filme acaba estabelecendo um diálogo com o impacto que ela trouxe no mundo a partir de como reagiram os governos: alguns muito bem, outros muito mal. No Brasil, o cometa se localiza na anticiência. Há uma desconfiança muito grande e o especialista não tem potência. Ele é tratado como desprezo, como se todos soubessem a mesma coisa. O negacionismo é tão arcaico, tão precário, que não consegue ser um projeto de poder. Projeto é definição de futuro. Se não tem projeto, você tem disputa de poder, mas não consegue dar respostas lá na frente. Se fosse um projeto, esses governos teriam tido performances melhores, eficientes, e não tiveram. Como falta conhecimento, tudo se resume a clichês. Por exemplo, o clichê do algoritmo, como o CEO da big tech, representa no filme.  É uma crença na desinformação. São governos que chegaram ao poder em um momento de muito ressentimento e raiva de grande parte da sociedade, que estava perdida com tantas transformações.

Quais os riscos deste negacionismo na vida das pessoas? 

Se você adotasse para o Brasil a mesma postura de países que não negaram a pandemia, você teria tido um terço das mortes que nós tivemos. É claro que a pandemia, ou um cometa, você não pode colocar o surgimento na conta de nenhum governo, são contingências. Mas a tentativa de minimização de danos é obrigação de um governo. E no filme você vê que isso não houve, todo mundo morreu. Assim como nos países que negaram a vacina, houve uma potencialização dos danos.

É possível parar o cometa?

A humanidade desenvolveu a ciência, que começa na invenção da roda, do fogo e que chega nessa complexidade toda que nós temos. A humanidade tem reagido, dando respostas científicas, por exemplo, as vacinas. O mundo desenvolveu as vacinas em menos de um ano. E do ponto de vista eleitoral alguns países já vem dando respostas também. É o caso dos Estados Unidos. Quem saiu vitorioso no final das contas foi o lado da sociedade que acredita na ciência, nessa ideia de humanidade, de progresso de futuro, e não essa visão medieval, obscura, do outro lado. Acho que a partir desse terrível processo da pandemia, a humanidade vem se tocando, vem se apercebendo desses danos e de alguma forma  tenta se organizar e sair. É necessário acreditar na ciência, na política e nessa ideia de humanidade.

Pedro Hallal, epidemiologista professor da Universidade Federal de Pelotas

É possível comparar a iminência da destruição da Terra pelo cometa apresentado no filme com o contexto brasileiro?

Eu acho que existem dois candidatos a cometa no caso do Brasil. Tem um que se encaixa melhor na história: a covid-19, porque todos nós sabíamos que ela estava vindo desde que recebemos as primeiras informações. A primeira atitude do governo federal foi negar que a doença existia. Não podemos esquecer disso. Depois, negaram a gravidade dela, como se dissessem que o cometa não é grande o bastante ou que, se ele existe, é muito pequeno ou vai cair no mar. Foi a mesma coisa com a história da gripezinha. Também tem a questão da vacina em si. A vacina estava para chegar e o que se dizia? Que a vacina é experimental, que vem da China, que se ela te transformar em jacaré o problema é seu. 

Quais os riscos deste negacionismo na vida das pessoas? 

Muitas pessoas sentiram o efeito do negacionismo na pele. Viram que a doença tira a vida de famílias que passam fome e famílias com fartura. Tirando esses grupos minoritários que são negacionistas extremos, as pessoas têm percebido muito bem esses riscos e que tudo aquilo para que os especialistas alertaram se confirmou. O que estamos vivendo hoje é a mesma coisa do filme. Desde o começo, as ações no Brasil são erradas, é um check list de erros. Não se investiu em testagem e rastreamento. O uso de máscaras ocorreu muito mais por decisão individual, de certas comunidades e de alguns estados isolados do que por parte do governo federal. O que estamos vivendo hoje é a mesma coisa do filme. 

É possível parar o cometa?

É possível. Acho que a pandemia ajudou a formar um consenso entre os políticos sobre a importância da pesquisa científica. É difícil encontrar pontos que unam o Lula ao Moro. Mas a defesa na vacinação e do uso de máscaras, por exemplo, é uma delas. Vejo que todos os outros nomes da política, como Alckmin, Doria e Eduardo Leite concordam com esses pontos. Isso é importante para superarmos os desafios. Acredito que os próximos anos serão anos de mais incentivo à ciência. Talvez essa seja uma visão romântica minha, mas hoje vejo mais políticos falando comigo para buscar informações. Um ponto em que avançamos na pandemia, mas ainda precisamos melhorar, é a exposição e comunicação científica clara com o restante da sociedade. (Nós, cientistas,) Estávamos acostumados a falar só com nós mesmos. E quando íamos falar com a população, falávamos de um jeito que só nós entendíamos. Vamos precisar trabalhar nisso. 

Rafael Cortez, doutor em Ciência Política e professor do IPD

É possível comparar a iminência da destruição da Terra pelo cometa apresentado no filme com o contexto brasileiro?

Entendo o negacionismo em uma dupla: a negação de um fenômeno, e da percepção de que é um problema. O caso brasileiro é um desafio em particular visto que Bolsonaro colocou uma agenda de fazer questionamentos ao mainstream. Essa agenda faz com que ele tenha dificuldade, seja de perceber (a pandemia) como um problema seja a de encontrar ferramenta para combater. Esse ambiente de construção da política pública está muito associado com representação política. Pesquisas já mostram uma desconfiança do eleitor, mas me parece que isso está exacerbado no atual cenário, em parte pelo volume muito relevante de produção de material. Isso gera um custo muito elevado de adquirir informação, e o eleitor não consegue fazer esse acompanhamento. 

Quais os riscos deste negacionismo na vida das pessoas?

A identificação do problema de um movimento percebido é fundamental. Utilizar determinadas ferramentas para combatê-lo não é um problema só técnico, é um problema de interesses. É o caso das vacinas. A escolha de quando comprar não é só técnica, ela gera uma distribuição de preferências, se forma grupo de interesses. Há pessoas que vão ganhar e vão perder, em torno de qual vacina o governo deveria comprar, quantidade. Todos os imunizantes têm evidentemente uma base técnica, mas o olhar técnico nunca vai resolver o problema de qual decisão vai ser tomada. A ferramenta que vai ser usada é um objeto de disputa política. De nada adianta uma diversidade de ferramentas para atacar um problema se não for percebida como tal. A analogia “não olhe para cima” é uma forma de não ter uma informação de algo. 

É possível parar o cometa?

Todos estes pontos funcionam dentro de uma comunidade política, determinados eventos como o meteoro do filme e a pandemia em um mundo real, dado que ela também tem esse caráter global, dado que a cepa circula, não é um problema doméstico. A coordenação existente e a demanda de políticas coordenadas é exacerbada. Se a gente não tem essa percepção de que é um problema, a sociedade não se movimenta e é eventualmente capturada por grupos de interesses. O que a CPI da pandemia mostrou é que o processo de compra de vacinas era objeto de interesse a ponto de integrantes do governo negociarem com grupos privados, que não tinham nem a propriedade da venda. A gente viu grupos de interesse sendo formados no grupo privado e buscando infiltrar nesses espaços do poder público.

Natália Pasternak, doutora em microbiologia e presidente do Instituto Questão de Ciência

É possível comparar a iminência da destruição da Terra pelo cometa apresentado no filme com o contexto brasileiro?

Apesar de sabermos que o filme foi pensado para o aquecimento global e a incapacidade do mundo de lidar com o problema, ainda veio depois a pandemia. Esse contexto fez com que o cometa também pudesse ser o coronavírus e dá para traçar esse paralelo na pandemia, em que teve gente a dizer que o vírus não existe, que foi fabricado, que é só uma gripezinha. Se o filme fosse brasileiro, de repente, o título poderia ser “é só uma gripezinha”. O que vemos no filme é um fenômeno de negação da ciência. Ela se tornou muito evidente durante a pandemia, não que existisse antes. Temos o negacionismo climático. Já tivemos problemas de negacionismo ambiental no Brasil com a questão amazônica antes da pandemia, mas o negacionismo foi agravado por ela. O paralelo com o filme é inevitável porque, durante os últimos dois anos, cientistas ficaram gritando que a pandemia era real, que era grave, que iria matar muita gente se medidas sanitárias não fossem implementadas, que não existiam curas milagrosas. Tudo isso gera uma conexão muito grande com os cientistas do filme que falam da iminência da chegada do cometa.

Quais os riscos deste negacionismo na vida das pessoas? 

Quando você nega um fato negativo, um fato histórico, você não toma atitudes necessárias para lidar com aquele fato. Se eu nego o aquecimento global, eu não vou agir para conter o aquecimento global. Se eu sou um gestor público, não vou tomar medidas para combater o aquecimento global, porque ele nem existe. Como neguei, então nem preciso agir, nem como gestor, nem como cidadão. Não preciso mudar os hábitos de vida, tomar atitudes para reduzir o consumo de combustíveis fósseis porque o problema nem existe. Isso vale para aquecimento global, vacina, pandemia, qualquer coisa que necessite de ações públicas ou privadas para lidar com o problema.

É possível parar o cometa?

É possível, no caso da pandemia. E a gente está fazendo isso, globalmente, aos poucos, com o desenvolvimento de vacinas e medicamentos. Nesses dois anos de pandemia, o desenvolvimento científico avançou muito e ele se reflete principalmente nas vacinas, desenvolvidas e aprovadas, que vão parar o cometa. A ciência pode parar o cometa, mas ela precisa ser ouvida. O filme mostra quando a ciência não está sendo ouvida. No filme, eles fazem uma tentativa real de desviar o cometa e ter menos estrago. A tentativa é abortada por causa da interferência do guru da big tech, que vê nele uma possibilidade de lucrar. Você deixa de tomar ações necessárias para conter o cometa. E na pandemia, eu acho que apesar do negacionismo, se pensarmos de uma maneira global, a ciência foi ouvida. De uma maneira global, a ciência deu sua resposta.

Rodrigo Prando, cientista político da Universidade Presbiteriana Mackenzie

Acha que é possível comparar o cometa do filme, e a forma com que as pessoas lidam com sua chegada, com algum fenômeno no Brasil nos últimos tempos?  

O filme traz elementos universais: o embate entre ciência e senso comum. A perspectiva científica sendo confrontada pela ignorância de um lado e convicções do outro. Uma parte das pessoas negam as evidências científicas, porque desconhecem ou ignoram o procedimento para se chegar em uma conclusão. Por um lado, pessoas que não acreditam num cometa, num vírus, na eficácia da vacina porque desconhecem ou ignoram como a ciência é produzida, mas tem outro contingente que nega a realidade por convicção. Max Weber chama isso de Ética da Convicção. Significa que você pode usar todos os argumentos possíveis ou racionais com alguém que está convicto da sua ideia que ele não vai mudar de posição. Nesse caso, negar a vacina não é questão de ser ignorante. Ele está no campo da convicção de que ele está certo e o mundo errado.

Quais os riscos deste negacionismo na vida das pessoas? 

Primeiro há um impacto imediato e pessoal, que é colocar a sua vida, ou das pessoas próximas em risco, que é mais pessoal, concreto e cotidiano. Para além disso, o negacionismo tem um impacto na própria confiança na democracia e nas instituições. Quando você desacredita na ciência e nos cientistas, você está colocando um descrédito no próprio conhecimento que é o elemento motor na construção da sociedade e da humanidade. O que diferencia a dúvida do cientista da dúvida do senso comum? É que o cientista procura evidências para corroborar ou não determinada informação. Ao passo que a maioria das pessoas tem certezas e se contentam com elas sem colocarem dúvidas os pressupostos. 

É possível parar o cometa?

Você tem que ter educação formal, que privilegie o conhecimento científico, mas você tem que ter também uma educação digital, para preparar as pessoas para a cidadania digital.Você tem que conjugar um só tema como educação formal, baseada na leitura, ao senso crítico.

Júlio Croda, infectologista e professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul 

É possível comparar a iminência da destruição da Terra pelo cometa apresentado no filme com o contexto brasileiro?

Com certeza. Existe uma dificuldade de encarar uma realidade mais difícil, mais complicada, em que a gente não tem a resposta para tudo. Foi assim com a pandemia. As pessoas tentaram relativizar, encontrar uma maneira de justificar o injustificável. A ciência mostrou o que era preciso ser feito. A todo momento, se teve uma tentativa de fugir dessa realidade, como foi com o kit covid, apresentado como uma solução milagrosa para a pandemia, se eu tomasse, tudo estaria resolvido; a imunidade de rebanho causada pela própria doença, por aí vai. Apesar de toda a tentativa de comunicação, o próprio governo federal, por diversos momentos, adotou uma postura negacionista, de negar evidências que são claras. Isso gera frustração para quem é da academia.  Não queriam encarar a realidade que é mais dura. O final do filme, olhado a partir da nossa tragédia, mostra que é claro que a sociedade não conseguiu lidar direito com a pandemia. Não conseguimos lidar com um tema que foi discutido durante seis meses. Voltávamos sistematicamente aos erros do passado, quando defendem o kit covid, quando não se apoia a vacinação de crianças. Há uma negação sistemática da ciência para manter o fluxo natural das nossas vidas.

Quais os riscos deste negacionismo na vida das pessoas? 

O risco é causar mais sofrimento. Os números vão provar. A ciência dá a direção. Mas a ciência não muda  as atitudes das pessoas e as do gestor. Os números provam que a ciência estava certa.  O resultado é que lá na frente o saldo da pandemia infelizmente reforça e leva um pouco de frustração porque a ciência apontava a direção e mesmo assim, a sociedade como um todo ignorou. Se tem um gestor que apoia o negacionismo, é comum ter uma parte da sociedade que também apoia. Parece que perdemos a oportunidade de proteger o futuro e transformar esse futuro num cenário melhor. 

É possível parar o cometa?

Do ponto de vista da pandemia, a única forma de parar o cometa é a vacinação. É possível parar. Se viu que com a vacina, a sociedade, apesar dos gestores desacreditarem, avançou. No início, a gente tinha os estudos. Muitos desconfiaram dos estudos. Fato é que se não fosse a vacina, a gente não teria os melhores indicadores da pandemia desde seu início em março, abril de 2020. Sim, é possível superar o cometa. A gente não fez isso no passado. Mas a gente tem outra oportunidade para isso. /COLABORARAM LEVY TELES, GUSTAVO QUEIROZ E GUSTAVO CÔRTES

 

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