'Não interessa ao PSDB que se aposentem figuras com Serra, Tasso e FHC', diz Reis Lobo

Presidente municipal do PSDB de São Paulo vê 'papel fundamental' para Serra na oposição, rechaça a ideia de 'refundação' do partido ancorada em novas lideranças

André Mascarenhas, Estadão.com.br

21 de novembro de 2010 | 15h23

O candidato derrotado da oposição à Presidência, José Serra, deve continuar a influir decisivamente nos rumos do PSDB, e a renovação propagada por lideranças que emergiram mais fortes das urnas dependerá menos da reacomodação destes quadros na hierarquia partidária do que se imagina. A tese é do presidente municipal do PSDB de São Paulo, José Henrique Reis Lobo, que vê "um papel fundamental" para Serra na oposição, rechaça a ideia de "refundação" do partido ancorada em novas lideranças e relativiza a ideia de que Aécio Neves é o candidato natural para 2014.

 

"Francamente, eu não entendi bem, até agora, o que quer dizer 'refundação' do PSDB, porque ninguém ainda explicou devidamente", afirmou Lobo. Com bom trânsito entre serristas e alckmistas, Lobo é daquelas figuras dos bastidores que raramente dão entrevistas. Em entrevista por e-mail ao estadão.com.br, ele deixa claro que os planos de Aécio, de figurar como candidato de consenso da oposição à Presidência em 2014, encontrarão forte resistência em São Paulo. "Se a expressão for apenas um eufemismo usado pelos que querem a renovação das lideranças do partido, pessoalmente tenho outra opinião", escreveu.

 

"Não acho que interesse ao PSDB e nem mesmo ao Brasil que se aposentem figuras com a experiência e a competência, por exemplo, dos ex-governadores José Serra e Tasso Jereissati e do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso", continuou. A referência aos três caciques que detiveram a hegemonia do tucanato nos últimos anos é uma resposta a setores que, logo após a confirmação da derrota de Serra, argumentaram que o triunvirato passaria para a reserva, dando lugar a Aécio e aos governadores eleitos de São Paulo, Geraldo Alckmin, e Paraná, Beto Richa.

 

Ainda assim, Lobo procurou ressaltar a importância da convivência entre as velhas lideranças e os novos quadros do partido, e citou, além de Aécio, Alckmin e Richa, os nomes dos governadores eleitos Antonio Anastásia e Marconi Perilo e do senador eleito Aloysio Nunes Ferreira. "A refundação do partido se dará não pela substituição das atuais lideranças, mas pela definição do tipo de oposição que pretendemos fazer ao governo que vai se instalar", disse.

 

Embora não desminta os rumores de que Serra poderá se candidatar à prefeitura da capital em 2012 - "credenciais lhe falta" -, Lobo vê para o tucano um destino diferente. "Serra é um nome de expressão nacional. Poucos homens públicos no Brasil têm a bagagem intelectual e moral que ele ostenta", escreveu, num sinal de que o ex-governador alçará, em breve, voos mais altos. "Esse contexto vai impor um papel fundamental a José Serra, que extrapolará o de candidato a prefeito de São Paulo."

 

Erros. Coordenador administrativo da campanha de Serra, Lobo também fez um balanço do pleito. Para ele, a derrota do tucano se deveu muito mais à utilização da máquina federal em prol de Dilma Rousseff do que aos erros do PSDB. "A vitória da situação tem que ser relativizada, porque mostra que, apesar de tudo, quase a metade da população prefere o Brasil sob outra condução", acrescentou.

 

A seguir, a íntegra da entrevista:

 

Durante a campanha o PSDB acreditava, até o fim, que ganhariam as eleições, ou houve um momento em que ficou claro que elas estavam perdidas?

 

Quem disputa uma eleição nunca acha, de todo, que vai perdê-la. No nosso caso, cerca de dez dias antes do segundo turno, nossa avaliação era de que a situação estava muito complicada. Afinal, as pessoas encarregadas de fazer a leitura das pesquisas diziam que a vitória seria possível desde que ganhássemos a eleição em São Paulo com uma diferença de três milhões e meio a quatro milhões de votos, empatássemos em Minas Gerais e perdêssemos no Rio de Janeiro por, no máximo, quinhentos mil votos. A constatação que fazíamos, no entanto, era de que não tínhamos fôlego para isso. Mesmo assim, em nenhum momento desanimamos, porque, baseados em experiências anteriores, sabíamos que, numa campanha, quando menos se espera surge um fato novo, capaz de mudar radicalmente a sorte das eleições.

 

Passadas as eleições, que avaliação o partido faz da campanha e dos erros que levaram à derrota?

 

As análises, até agora, têm sido individuais. Eu, particularmente, acho que não houve erros que pudessem ser considerados fatais. Claro que houve equívocos, como em toda a empreitada humana, mas, a meu ver, nenhum deles pode ser considerado como determinante da derrota. Perdemos porque as circunstâncias não nos ajudaram. Apesar das virtudes do candidato da oposição, não foi fácil competir, como sabíamos desde o início, com a outra candidatura, que tinha o apoio ostensivo do Presidente da República, no auge da sua popularidade. Mesmo assim, se considerarmos esse e outros fatores, como a falácia a que tem sido submetido o povo brasileiro ao longo dos últimos oito anos, a vitória da situação tem que ser relativizada, porque mostra que, apesar de tudo, quase a metade da população prefere o Brasil sob outra condução.

 

Após a derrota de Serra, o ex-governador de Minas, Aécio Neves, sugeriu que o PSDB precisará passar por uma "refundação". Qual será o papel reservado ao partido nos próximos quatro anos?

 

Francamente, eu não entendi bem, até agora, o que quer dizer "refundação" do PSDB porque ninguém ainda explicou devidamente. Se a expressão for apenas um eufemismo usado pelos que querem a renovação das lideranças do partido, pessoalmente tenho outra opinião, porque não acho que interesse ao PSDB e nem mesmo ao Brasil que se aposentem figuras com a experiência e a competência, por exemplo, dos ex-governadores José Serra e Tasso Jereissati e do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Esses são, a meu ver, líderes insubstituíveis, que, no entanto, podem e devem conviver com lideranças que emergem das urnas, como os governadores Geraldo Alckmin, Antonio Anastásia, Beto Richa, Marconi Perilo e os senadores eleitos Aécio Neves e Aloysio Nunes Ferreira. Para mim, é o conjunto dessas e de outras lideranças que darão a cara do PSDB nos próximos quatro anos e a "refundação" do partido se dará não pela substituição das atuais lideranças, mas pela definição do tipo de oposição que pretendemos fazer ao governo que vai se instalar.

 

Qual é o futuro de Serra dentro do partido e quais são seus horizontes políticos? Ele seria um bom candidato a prefeito de São Paulo em 2012?

 

Credenciais para ser candidato não lhe falta, evidentemente. Entretanto, com a ressalva de que é absolutamente prematuro tratar das eleições de 2012, tenho a impressão, nesse momento, de que é outro o papel que lhe está reservado na vida pública nos próximos anos. Serra é um nome de expressão nacional. Poucos homens públicos no Brasil têm a bagagem intelectual e moral que ele ostenta, ao lado da experiência acumulada na sua trajetória de político e de administrador. A oposição, que a candidatura de Serra representou, vai ter que estar vigilante. Para cumprirmos o papel que a sociedade nos atribuiu, penso que vamos ter também que estar atuantes, confrontando sempre os projetos e as políticas do futuro governo com os que temos para o País e com os quais nos apresentamos para a nação brasileira. Se for isso mesmo, esse contexto vai impor um papel fundamental a José Serra, que extrapolará o de candidato a Prefeito de São Paulo.

 

Com a vitória de Alckmin, como está relação entre as alas serristas e alckmistas dentro do PSDB após as eleições? Como elas se comportarão com vistas à construção da candidatura a prefeito da capital em 2012?

 

Nada faz supor, a meu ver, que haja no horizonte qualquer sinal de estranhamento entre os que, dentro do partido, são mais chegados a Serra e os que são mais próximos de Alckmin. Eu diria que os interesses são convergentes e que a eleição passada serviu para aproximar ainda mais os dois, pela conduta absolutamente irrepreensível de cada um com relação a candidatura do outro. O pressuposto é que uma candidatura se constrói em nome do interesse da sociedade, que o partido político acha que pode representar. E dentro do partido há nomes, que no seu devido tempo serão analisados, com base em diversos critérios, para que se saiba qual está melhor habilitado para se apresentar como candidato.

 

Caso Gilberto Kassab deixe mesmo o DEM para ingressar no PMDB ou outro partido político, o que muda na relação do PSDB com o prefeito?

 

É muito difícil falar sobre hipóteses e, no caso, são duas as que estão colocadas. A primeira é a do prefeito sair do DEM e ingressar em outro partido político. A segunda é a do que acontecerá com relação aos tucanos se isso se confirmar. Para falar a verdade, se o fato ocorrer, as variáveis seriam tantas e teriam ainda que ser combinadas com tantas outras que nem o matemático Oswald de Souza seria capaz, nessa altura, de responder a essa questão. No momento, o que importa é deixar claro que o DEM e suas principais lideranças nacionais, entre as quais o prefeito Gilberto Kassab, foram parceiros do PSDB na última campanha e revelaram uma lealdade exemplar às candidaturas de Geraldo Alckmin e de José Serra. Figuras como Jorge Borhausen, Rodrigo Maia, Guilherme Afif Domingos e Índio da Costa, entre tantos outros, foram expoentes das campanhas do PSDB. Eu acompanhei tudo isso muito de perto e acho importante que se faça esse reconhecimento.

O nome do Sr. tem sido cotado para o cargo de Secretário de Cultura no governo de Geraldo Alckmin. Houve algum convite nesse sentido?

 

Não vejo o governador eleito desde as eleições. Acho que a sociedade vai estar de olho no governo dele desde o primeiro dia. E o PSDB mais ainda, porque sabe que ele terá que fazer uma gestão no mínimo excelente para que o partido chegue forte nas eleições de 2012 e de 2014, minimizando um certo sentimento de exaustão que pode estar presente naqueles pleitos. Meus votos são de que ele seja feliz na montagem da equipe que vai ajudá-lo a governar.

 

A eleição de Dilma Rousseff à Presidência da República deixa claro que o eleitor brasileiro está pronto para votar em mulheres para os cargos mais importantes. Como o Sr. vê a ascensão feminina na política e como o PSDB pretende contribuir para dar mais espaço às mulheres na administração pública?

 

A ascensão das mulheres na política brasileira tem se dado progressivamente, como, de resto,em todo o mundo ocidental, e é um fato extremamente auspicioso, fruto de uma história de luta para que não haja discriminação, sob qualquer aspecto, em função de gênero. No Brasil, os governos do PSDB têm dado uma contribuição extremamente importante para isso, bastando considerar, por exemplo, que, em São Paulo, na gestão do Governador José Serra, quatro das mais importantes Secretarias de Estado foram a elas conferidas, cabendo, a propósito, destacar o trabalho de Maria Helena Guimarães, na Educação, Linamara Batistella, na Pasta dos Portadores de Deficiências, Dilma Pena, na área de Saneamento e Energia, e Rita Passos, na Assistência Social, sem contar o formidável desempenho de Rosemarie Corrêa à frente do Coselho da Condição Feminina, vinculado à Secretaria de Relações Institucionais, que tive a honra de exercer. Antes delas, Rose Neubauer e Guiomar Namo de Mello já eram expoentes, entre outras, do Governo Mário Covas. Na campanha de Serra, a Senadora Marisa Serrano teve papel de relevo, participando da coordenação política e sendo a responsável pela agenda de compromissos do candidato. Nos Estados sob o comando do partido, com certeza elas continuarão sendo chamadas para o exercício de funções relevantes, haja vista a permanência no Governo de São Paulo da Dra. Linamara Batistella, primeiro nome anunciado por Geraldo Alckmin para compor o seu Secretariado.

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