‘Não fui ao cartório’, diz Serra sobre promessa de campanha em 2004

Após ter dito que assinou ‘papelzinho’, tucano afirma que esse debate ‘não tem importância’

Bruno Boghossian, do estadão.com.br - Texto atualizado às 23h05,

20 de março de 2012 | 21h57

SÃO PAULO - Após ter dito a uma rádio que o documento assinado por ele em 2004 para prometer que não deixaria a Prefeitura de São Paulo era um "papelzinho", o ex-governador José Serra se defendeu e negou que tenha usado a expressão de maneira pejorativa. O tucano alegou que tentava explicar aos ouvintes que sua assinatura não era necessária, pois já dera sua palavra de que pretendia completar o mandato.

"Alguém me deu um papel para assinar e eu assinei. Eu não fui a cartório", disse o tucano nesta terça-feira, 20, justificando-se. "Agora, isso não tem importância nenhuma. Eu tinha dito que não ia sair porque minha proposta era não sair." E acrescentou: "Se eu usei 'papel' ou 'papelzinho', isso não muda nada. Assinar ou não assinar não faz diferença, porque eu declarei. Está na televisão dito que eu não pretendia sair."

Em campanha para voltar ao governo municipal - no próximo domingo o tucano disputa a prévia do PSDB e, se vitorioso, será oficializado candidato do partido à Prefeitura -, Serra afirmou na noite desta terça que não há "nada de novo" em sua entrevista à rádio Capital, segunda-feira.

Reportagem desta terça do Estado reproduziu o trecho da entrevista do tucano na segunda-feira. "Houve um debate, uma entrevista, e o pessoal perguntou: 'você, se for eleito prefeito, vai sair para se candidatar a presidente?' Eu disse 'não, não vou'. Então me disseram: 'ah, então assina aqui'. Eu assinei um papelzinho. Não era nada... Eu estava dizendo a absoluta verdade", afirmou Serra à rádio.

Em setembro de 2004, quando candidato a prefeito, o tucano assinou um documento durante sabatina no jornal Folha de S. Paulo em que se comprometia a cumprir o mandato na íntegra. O documento foi registrado em cartório em seguida pelo jornal. Serra ficou no cargo menos de 15 meses e renunciou em março de 2006 para disputar o governo do Estado.

O episódio é constantemente relembrado por adversários do tucano, que apostam na possibilidade de o ex-governador repetir o enredo e, se eleito, deixar a Prefeitura para disputar a Presidência em 2014. Desde que decidiu encarar a disputa municipal, o tucano afirmou que a Presidência é um sonho "adormecido" e descartou a possibilidade de concorrer em 2014.

O ex-governador citou outros políticos que interromperam seus mandatos para disputar outros cargos, "como Marcelo Déda, Beto Richa, Tarso Genro".

Pressão. Incomodado com a recorrente abordagem sobre o episódio da renúncia, Serra afirmou que deixou a Prefeitura em 2006 por "pressão do partido" e pela "questão do governo do Estado", uma vez que o então governador Geraldo Alckmin disputaria a Presidência em 2006.

Nesta terça, Alckmin minimizou as declarações de Serra de que assinou apenas "um papelzinho". "O que ele quis dizer é que não teve um documento em cartório, mas acho que ele tem colocado claramente que quer ser prefeito, que é candidato para servir a cidade", afirmou o governador, após participar da abertura de um seminário sobre sustentabilidade nas cidades promovido pela Fundação Armando Alvares Penteado (Faap).

De acordo com o governador, o episódio de 2004 foi apenas "um momento"e não prejudica a imagem do pré-candidato.

Leia a transcrição do trecho da entrevista à rádio Capital:

PERGUNTA: Você sabe perfeitamente que você vai ser cobrado pelos seus adversários,  porque vão dizer que você  só vai até 2014 e depois vai se candidatar à presidência da República. Nas eleições passadas chegou até a ser firmado em cartório um compromisso dessa ordem, que o sr. cumpriria o mandato de quatro anos. O que acabou não acontecendo. Agora, como é que você vai se defender com os adversários, que vão fustigar exatamente este ponto?

SERRA: Eu espero que os adversários tenham algo mais a dizer. Porque se forem fazer campanha só na base de que o Serra, se for eleito, vai sair, é muito pouca coisa para nossa cidade. Mas veja: primeiro eu não assinei nada em cartório. Isso é folclore.

P: Foi bom até esclarecer isso aí, então.

S: Houve um debate, uma entrevista, e o pessoal perguntou: você, se for eleito prefeito, vai sair para se candidatar a presidente? Eu disse não, não vou. Então me disseram: ah, então assina aqui. Eu assinei um papelzinho, não era nada...  Eu estava dizendo a absoluta verdade. O que aconteceu?  Foi bem a Prefeitura, num período em que eu estive. Você imagina que, em um ano e meio nós eliminamos as escolas de lata, que eram frequentadas por 73 mil alunos, enfim, foi um período muito intenso de coisas na Prefeitura. E nas pesquisas da época eu acabei aparecendo como o candidato a presidente mais forte. Mais forte que o Lula, inclusive. Naquela época, o Lula era presidente. Mas eu não saí para ser candidato a presidente. O que o aconteceu foi que como o Alckmin ia sair e não podia disputar eleição, o pessoal achou que o Estado ficaria numa má situação com os candidatos que se apresentavam à época e eu fui muito pressionado para isso, para sair para governador, o que significava não sair de São Paulo, de toda maneira. E aí eu saí para governador, mas a população votou em mim. A população da cidade de São Paulo votou em mim. Tanto que eu ganhei em primeiro turno.

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