‘Não farei oposição pela oposição’, afirma Marina Silva

Ex-senadora diz que os seus 20 milhões de votos devem ser vistos como um ‘legado’, algo a ser ‘apropriado por todos’

Roldão Arruda,

12 de fevereiro de 2011 | 16h53

Afastada há doze dias do Senado, Marina Silva já definiu suas próximas tarefas. No plano político, a tarefa imediata será o debate sobre a reorganização interna de seu partido, o PV. Pessoalmente prepara-se para ganhar a vida dando aulas e palestras, uma vez que se recusa a ganhar salário do partido. Na entrevista abaixo, ela fala sobre o governo Dilma Rousseff, partidos e o risco de, após o sucesso eleitoral do ano passado, cair no esquecimento político.

 

 

A senhora saiu da eleição com quase 20 milhões de votos. Como acha que vai manter essa herança, agora que ficou sem tribuna no Senado e cargo no governo? Outros candidatos que ficaram em terceiro lugar, como Heloísa Helena e Ciro Gomes, acabaram relegados a planos secundários. Não teme a maldição do terceiro lugar?

 

Em política, a pior maldição é querer aprisionar o sucesso. Quem tenta fazer isso se torna prisioneiro dele e não consegue mais fazer as coisas com abertura criativa e espírito de novidade. A ação política é sempre um processo vivo, único. Se tentar aprisionar o sucesso, que já é passado, aí sim, vai viver a maldição. Vamos viver o daqui para a frente como um momento novo. Eu me vejo como alguém que deu uma contribuição: estou dizendo para o PV, o PT, o PSDB e outros partidos, assim como para o governo e o movimento socioambiental, que os 20 milhões de votos dados a uma candidatura identificada com a questão da sustentabilidade têm de ser vistos como um legado, algo que pode ser apropriado por todos (diferentemente da herança, que pressupõe um espólio).

 

 

O que fazer com esse legado?

 

É preciso trabalhar para transformá-lo em mobilização social, em sustentabilidade política, para as transformações que o Brasil precisa. Isso é algo a ser feito pelo PV e, espero, também pelos demais partidos.

 

 

Essa não é a bandeira do PV?

 

 

Transformar a bandeira da sustentabilidade em bandeira de um só partido é a senha para torná-la inviável. Se alguém tentar aprisionar esse desafio de forma exclusivista é porque não leu adequadamente o que está acontecendo no mundo, com o grande desafio das mudanças climáticas. Acho que podemos estabelecer pontos programáticos entre os partidos.

 

 

A senhora já disse que sua campanha foi carregada por forças vivas da sociedade. Acha que os partidos estão preparados para dialogar com essas forças?

 

 

Os partidos precisam se atualizar. E não estou falando apenas da estrutura formal. Falo principalmente da superestrutura, da necessidade de discutir política, propostas, projetos. A maioria dos partidos, e o PT não é diferente, adotou modelos convencionais e hoje discute o poder pelo poder. O debate em torno de ideias e propostas, que deveria alavancar o processo, como o motor de popa do barco, vai se tornando cada vez mais secundário. O que fica na popa é a disputa pelo poder. A discussão programática para esses partidos é apenas a cenoura que está na frente, na proa.

 

O PV passa por um processo de debate sobre reestruturação e democratização interna.

 

O grande desafio do PV é se atualizar e fazer jus ao que experimentamos na campanha, com a mobilização da sociedade por uma nova forma de fazer política. E não há forma nova que não seja radicalmente democrática. O movimento por democratização acontece porque política é como o vinho novo, que não pode estar em odre velho.

 

 

A senhora fará parte do bloco de oposição ao governo?

 

As pessoas estão cansadas da ideia de oposição por oposição e situação por situação. Querem ver oposição àquilo que devemos nos opor, como a corrupção, mau uso do dinheiro público, exclusivismos, falta de democracia. Mas também querem apoio às boas políticas para a saúde, educação, segurança, meio ambiente, assim como o aprofundamento da democracia - por meio de uma reforma política. Não se alcança convergência em tudo, mas é possível encontros a partir de princípios éticos e valores duradouros.

 

 

Como avalia o início do governo Dilma?

 

 

É cedo para avaliações. A presidenta, como ela gosta de ser chamada, está no começo. Boa parte das ações já estava em curso e parte da equipe veio do governo anterior: algumas peças do xadrez trocaram de lugar, mas são as mesmas. Temos que dar um tempo para ela firmar seu estilo, botar sua equipe em campo. Sinceramente, estou torcendo para que dê certo. Não vou olhar com miopia para o que foi dito na eleição.

 

 

Como viu a prioridade que ela deu à erradicação da pobreza?

 

É um grande desafio e espero que seja levado a cabo. Eu acho que o grande esforço deve ser para fazer a transição do Bolsa Família para o que eu chamo de programas sociais de terceira geração, com inclusão produtiva, bem suportada por programas de educação.

 

A senhora já cobrou mais iniciativa no debate sobre o projeto de lei de mudança do Código Florestal apresentado pelo deputado Aldo Rebelo (PC do B).

 

O projeto é um retrocesso inominável. Gostaria que governo fizesse um debate semelhante ao que fizemos am relação à lei de gestão de florestas públicas, envolvendo empresas, ONGs, comunidade científica, setores do governo. No final, o projeto de lei enviado ao Congresso enfrentou pouca resistência.

 

 

Como ignorar a campanha do agronegócio, capitaneado pela senadora Kátia Abreu (DEM), a favor do projeto?

 

Existem agronegócios e agronegócios. Tem um pessoal fazendo um movimento interessante, fora da velha agenda reativa dos que querem debelar conquistas da Constituição de 1988. Durante a campanha conversei com o Marcos Jank, da União da Indústria da Cana-de-açúcar, e senti abertura para um diálogo propositivo. É preciso abrir espaço para essas novas lideranças.

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