''Não existe ali um gasto que crie constrangimento ao ex-presidente''

Entrevista - Gilberto Carvalho: chefe de gabinete da Presidência da República; Petista considera que o vazamento foi deliberado, diz que ato é grave e nega que governo tenha feito devassa na gestão tucana

Leonencio Nossa, Brasília, O Estadao de S.Paulo

31 de março de 2008 | 00h00

Gilberto Carvalho, chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, afirma que os gastos revelados com cartões no governo passado não mostram irregularidades contra o casal Ruth e Fernando Henrique Cardoso. "Nada depõe contra a honra de dona Ruth e do ex-presidente Fernando Henrique. São gastos típicos de um Palácio, de um brasileiro de classe média alta."Nesta entrevista ao Estado, Carvalho destaca que Lula foi a primeira vítima do vazamento de dados sigilosos, que pôs na berlinda a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, e a transformou em "bola da vez" porque ela é uma alternativa de poder. Abaixo, os principais trechos da entrevista:Como o sr. vê denúncias de uso irregular de cartão corporativo? Sempre tivemos cuidado de não fazer devassa contra o governo FHC. Sempre fomos cuidadosos, mesmo porque não é do nosso estilo nem do nosso interesse vasculhar o governo anterior. Também seria pouco inteligente da nossa parte, quando o País está indo bem, ficar levantando qualquer tipo de celeuma e incidente. Precisamos trabalhar e o Brasil precisa crescer. Não é a nós que interessa isso.E a quem interessa? Compreendo que, neste momento, a oposição está em dificuldades. É possível que amanhã não esteja. Os dados econômicos são muito bons, os dados sociais também, o governo está num ritmo acelerado de trabalho e tem um projeto. A oposição não tem projeto. É natural que ela se apegue a qualquer detalhe para transformar isso numa crise.Qual a diferença entre dossiê e banco de dados? Quando surgiu a matéria do Estado falando sobre irregularidades nos gastos com cartões, e depois do episódio da Matilde e do Orlando Silva, é natural que procurássemos nos organizar para buscar respostas àquelas acusações. É natural que a ministra orientasse para que houvesse uma organização interna. Quando a CPI foi aprovada, estendemos a investigação até 1998. Precisávamos estar prontos para entregar esses dados. Organizar dados não é crime nenhum, nunca. O que é errado é vazar os dados. Quero lembrar que o primeiro vazamento não foi do governo Fernando Henrique. Foi do presidente Lula.A que o sr. se refere? A dados que o Banco do Brasil não tomou cuidado de guardar. Os dados reservados que apareceram primeiro foram nossos. Imagine se fossem deles, naquele primeiro momento. Iriam dizer que era uma conspiração, um vazamento proposital do banco. A divulgação daqueles dados no Portal (de despesas com segurança da família do presidente) foi um erro, assim como este agora. Como o sr. classifica o episódio?Grave, porque houve um deliberado vazamento. Agora, quem vazou, o fez por ato absolutamente estranho porque, olhando os dados vazados, não tem nada que constranja nem que deponha contra o presidente Fernando Henrique e dona Ruth. Não há um gasto ali que crie constrangimento. São gastos típicos de um Palácio, de um brasileiro típico de classe média alta. Não tem nada que revelasse luxo, de caviar essas coisas. Então, a pessoa que fez isso (o vazamento), o fez por um ato absolutamente reprovável e vai ter de pagar pelo que fez. E qual foi a reação do presidente? O presidente Lula, desde o primeiro momento, deu a nós a mesma ordem dada nas crises antigas: vamos trabalhar. A ordem é dar o mínimo de importância para este fato e dar as respostas que a instituição (CPI) e o Congresso demandam. A CPI vai continuar o trabalho dela e o Congresso, também. São bolhas de espuma, acontecem e depois murcham.A montagem do banco de dados foi decisão da ministra Dilma, do presidente ou do governo? Evidente que não foi do presidente. Ele nem estava sabendo porque nem precisava ficar cuidando disso. Eu posso dizer que foi uma decisão de governo, sim. E decisões de governo nem sempre são tomadas no mais alto nível. Esta foi tomada na instância que era própria: a Casa Civil.E quem é o alvo do dossiê? É claro que se trata de buscar atingir a ministra Dilma, porque ela passou a representar, na cabeça de muita gente, uma alternativa de governo. Como sempre acontece nestes casos, ela virou a bola da vez.Expor a ministra como pré-candidata à sucessão do presidente Lula não foi um erro do Planalto?O problema é que ela é coordenadora do PAC. Dizer que a ministra é candidata não favorece. A nós, mais do que a ninguém, não interessa antecipar a luta eleitoral. O sr. acha que o autor do vazamento é tucano ou um aloprado do PT? Você há de convir que eu seria absolutamente leviano se desse qualquer palpite. A comissão de sindicância está trabalhando e eu não posso avançar. O que eu pergunto é a quem interessa esse tipo de coisa. Não quero dizer que foi o PSDB ou o DEM. Apenas que a nós não interessa. Quem é:Gilberto Carvalho Considerado um dos homens fortes da Presidência, é chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva desde sua chegada ao Planalto, em 2003 No PT desde 1984, é teólogo e filósofo formado pela Universidade do ParanáParticipou ativamente da campanha presidencial de 2002, como assessor direto de Lula. Antes, integrou outras administrações petistas, entre elas a do prefeito assassinado de Santo André, Celso Daniel

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