''Não é uma hecatombe só para mim, é para todos''

Governadora tucana diz que seu vice, do DEM, se uniu à oposição, liderada pelo PT, para tentar derrubá-la do cargo

Entrevista com

Christiane Samarco, O Estadao de S.Paulo

14 de junho de 2008 | 00h00

A grave crise política e ética por que passa hoje o Rio Grande do Sul tem nome e cara: chama-se Paulo Girardi Feijó. É o que diz a governadora gaúcha, Yeda Crusius (PSDB), sobre o vice do DEM que, segundo ela, se uniu aos setores mais radicais de seu partido e da oposição e conspira para destituí-la "desde o primeiro dia" de seu mandato.Feijó ganhou notoriedade nacional depois de divulgar conversas que ele próprio gravara com autoridades do governo para provar denúncias de corrupção.Em entrevista ao Estado, a governadora diz que está preparada para enfrentar a "hecatombe" que as fitas gravadas provocaram e nega temer um movimento "fora Yeda".A crise provocada pela divulgação das fitas gravadas pelo vice-governador, incriminando autoridades de seu governo, surpreendeu?As fitas gravadas no meu período não me surpreendem. O que me surpreende é a maneira como aquilo foi utilizado pelo que há de pior da radicalidade da política do Rio Grande do Sul, que é a soma do ex-PFL - o DEM - com o PT. A senhora teme que o "fora Yeda" contamine a opinião pública?Eu não temo. Respeito qualquer movimento e fiz parte de muitos deles. O que eu analiso é que se criou um conjunto de condições para movimentos como os desta semana, em que se juntam grupos organizados por entidades como a UNE e partidos políticos como o PSOL. Eles se organizam em véspera de eleição. O que há é um ambiente, um caldo nascido da preparação para as eleições municipais em um evento de CPI sem nenhuma regra e sem nenhum respeito, completamente diferente do Congresso Nacional.A senhora acha que está sendo submetida a um terceiro turno?É. Mas isso se promove graças a este ambiente pré-eleitoral. Pode-se perguntar por que isso não aconteceu antes e por que não acontece sempre. Nós viemos com um programa político e econômico de governo baseado na transparência e isso afeta o passado. Quando mostro que o déficit do governo que foi sendo acumulado por 37 anos pode ser zerado em três anos com instrumentos de política econômica e social, isso afeta muita gente. Afeta partidos que dirigiram o Estado no passado, embora não seja esse o objetivo. Isso é normal. O que ocorre de diferente é o vice que eu tenho. Ele é que faz a diferença. Quando a senhora identificou uma tentativa de golpe com participação do vice?Desde o início. O que ocorreu no meu governo, desde o primeiro dia, foi a associação dessas duas forças absolutamente retrógradas. Uma parte do PT e outra do DEM foram construindo uma teia que almejava um terceiro turno. Não eram rumores, eram relatos para os quais eu não tinha prova, mas eram relatos imediatos de reuniões, jantares.Esse comportamento do vice foi uma surpresa para a senhora?Não. Durante a campanha eleitoral eu percebi que ele era uma pessoa absolutamente contra qualquer governo e contra qualquer instrumento de Estado. Creio que ele foi até utilizado por certos segmentos empresariais em postos de comando, para falar tudo o que os outros gostariam e não tinham coragem. A mesma coisa foi feita durante meu governo. Ele foi utilizado por outros que não tinham essa radicalidade absoluta que ele tem. Se havia esse comportamento identificado desde a campanha, porque a senhora acabou aceitando-o como vice?A aceitação do vice veio no dia da nossa convenção, em 2006. Hoje posso dizer que foi ali que se preparou um pequeno golpe. O meu vice deveria ser do PPS, com o PFL do Paulo Feijó na vaga para o Senado. Mas armaram uma crise artificial e instantânea na hora de começar a convenção, espantaram o PPS e apareceu naquele dia, temporariamente, o PFL como vice.Quem inventou a candidatura Feijó, já que ele não é homem da política, mas do meio empresarial?O presidente do DEM no Estado, Onyx Lorenzoni, achou que poderia fazer aquilo, inclusive de uma maneira irresponsável.Paulo Feijó é reconhecidamente um empresário bem-sucedido e rico. Ele financiou sua campanha?Não, não financiou. Ele exigiu que houvesse um financiador exclusivo. No fim de junho de 2006, primeiro mês de campanha, perguntei quem era o financiador e onde estavam os recursos. Soube, então, que não havia financiador e não tinha entrado nada na campanha. Não pude honrar os compromissos a serem pagos em julho e, sem arrecadação, meu marqueteiro abandonou a campanha em agosto e saiu atirando publicamente.Feijó financiou a campanha de Onyx Lorenzoni?Não sei o acordo entre eles. Só sei que a defesa que o Onyx fez da presença dele na campanha foi além de qualquer racionalidade. O senhor vice aparecia para tirar uma fotografia a cada 15 dias. Eu gostaria que o vice fosse uma pessoa para compartilhar o governo, mas ele estava noutra.Como assim?Estava muito preocupado com a empresa dele - uma academia de ginástica que, me parece, ele inaugurou em setembro (a eleição foi em 1º de outubro). Pedi aos líderes empresariais do Estado que fossem testemunhas de uma conversa que eu queria ter com ele, e tive. Eu disse: "Tu és contra todas as ações de governo, contra pagar imposto, tu és contra estatais. Eu acho que tu não vais ser feliz como vice-governador. Porque tu não pede a teu partido para trocar de nome?" Ele até topou. Mas voltou ao presidente do partido e, no dia seguinte, disse que não havia sido liberado.E ficou por isso mesmo?Eu pedi ajuda de outros para convencer o PFL, disse que não podia pôr em risco o projeto de recuperar o Estado. Mas, infelizmente, não deu, e ele já tomou posse querendo a mudança do Banrisul. Pedia a cabeça do presidente do banco.Há alguma irregularidade comprovada no Banrisul? Ele alega que há problemas. Eu tinha planos para o Banrisul, que é um banco com ótimos indicadores. Eu disse ao vice: "Vou dobrar o patrimônio do banco nestes anos, se possível vou quadruplicar." Expliquei que não ia trocar nada antes da operação para ampliar o capital do banco por meio da venda de ações sem direito a voto no mercado financeiro internacional.O DEM lhe deu toda solidariedade na Executiva, mas ao mesmo tempo considerou que as denúncias de corrupção tinham fundamento. Faltou controle da governadora sobre o conjunto do governo?Desde que tomei posse eu tenho auditoria externa diária para todos os gastos e toda a arrecadação do governo. Contratamos como consultor um instituto conhecido, o INDG (Instituto de Desenvolvimento Gerencial, que trabalha no programa de racionalização das despesas do Estado). Montamos um ajuste por aumento de receita, gestão e cortes de despesa sem prejudicar os serviços públicos. E o que houve com o Detran?Quando assumi, pedi uma reorganização administrativa por lei, na Assembléia, em que eu mudava o Detran da Secretaria de Segurança Pública para a Secretaria de Administração, porque eu queria gestão no Detran, o que é transparência total. A princípio, ninguém entendeu que havia uma mudança radical e, por alguma razão, depois que se ficou sabendo houve uma operação da Polícia Federal, uma escuta telefônica sobre os contratos com a Universidade Federal de Santa Maria. Como o Detran era uma das empresas que contratavam as fundações dessa universidade, acabou gerando uma CPI do Detran.A direção da universidade está identificada com algum partido?A universidade é administrada pelo PT e o prefeito de Santa Maria foi coordenador da campanha presidencial do Lula. Mas a universidade desapareceu do cenário. A polícia é federal, a análise é federal e as fundações são federais, mas isso acabou. Virou de uma forma que o superintendente da PF fala das questões estaduais. Chama para entrevista, faz o diabo.A senhora está dizendo que a PF está colaborando para radicalizar o ambiente político?Passamos por um período bem institucional, em que eleições são esperadas e o debate vem dentro da campanha, pela busca de vitória. Infelizmente, porém, o ambiente se radicalizou exatamente pelo caráter de edição que se tem dado a parte do resulltado da investigação da PF.A PF só divulgou fitas de seu período de governo porque está subordinada a um ministro da Justiça que é do PT gaúcho e seu adversário?Eu espero que, ao final do processo, a gente possa ter uma avaliação completamente transparente, porque o que a CPI da Assembléia tem feito eu não faço. Ela apresenta trechos de conversas, pedaços de fitas gravadas que não foram auditadas. Circula que há trechos enormes de silêncio e que as duas mil horas gravadas não apareceram. A senhora acha que decisão do DEM de abrir processo disciplinar contra Feijó pode de alguma forma contê-lo?Certamente. Desde os tempos de FHC, nossos aliados preferenciais foram do PFL e depois do PMDB, mas sempre com uma base de apoio que tem lado e forma uma coalizão ampla. A crise veio com todo esse caldo gerado pela CPI e as gravações. A diferença entre o Rio Grande do Sul e o resto do Brasil agora é esse comportamento do DEM.Isso tudo tem algo de positivo para o governo? Permite, por exemplo, remontar a equipe?Acho que tem o dado positivo, sim, e a remontagem necessariamente será feita. Os movimentos "fora Yeda", na verdade, são movimentos da oposição para exilar todos os partidos do governo. Não é contra a Yeda. O primeiro cartaz está sempre lá, com a governadora, e é natural que seja assim. Mas não é uma hecatombe só para mim. É uma hecatombe para todos. E, nesse sentido, que fique muito claro quem é base, quem não é.

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