Não ajuda o Brasil estigmatizar o MST, afirma Dirceu

O ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, disse que é um "exagero", um "despropósito", a afirmação de que colocar o boné do MST, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estaria demonstrando uma visão parcial na questão dos sem-terra, que nas últimas semanas aumentaram o número de invasões, fecharam pedágios e saquearam alimentos. "Aonde o presidente vai ele tem colocado bonés de diferentes entidades e de forças políticas. Não ajuda o Brasil estigmatizar o MST. O Brasil tem o MST que tem a sua luta, o seu mérito, a Justiça muitas vezes condena, muitas vezes ele (o movimento) é reprimido, mas é melhor que seja um movimento legalizado, atuando abertamente, do que em outras situações que encontramos em outros países, de movimentos que saem do marco da legalidade, por causa da fome, da pobreza, do desemprego", afirmou, em entrevista ao programa Bom Dia Brasil, da TV Globo. Para o ministro, a forma de resolver a invasão de terras e saques é executar a reforma agrária, não a repressão. "Não tenham dúvidas. O governo fará prevalecer a lei", disse Dirceu, acrescentando que o governo não será conivente com qualquer violência. "Sobre essa história de ligas, de milícias, o ministro da Justiça já disse que está tomando medidas em alguns Estados. Nós não podemos tolerar, também", disse Dirceu, referindo-se aos movimentos que estão sendo montados por agricultores, em resposta à ação dos sem-terra."Receber não significa concordar"O ministro-chefe da Casa Civil disse que o fato de o presidente ter recebido a visita do MST não significa que ele concorde com o movimento. "Receber não significa concordar", ressaltou Dirceu, acrescentando que se surpreendeu com a forma como determinados setores da sociedade reagiram à visita do MST ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "O presidente tem recebido todos os setores da sociedade" justificou o ministro. Para Dirceu, os saques de alimentos não são significativos, "apesar da gravidade". "Existe uma situação de fome, famílias acampadas há quatro, cinco anos. Nós estamos com cerca de 140 mil famílias acampadas no País", afirmou. "Não estou apoiando os saques e nem dizendo que o governo deve aceitá-los", acrescentou Dirceu. Segundo ele, nada justifica a violência e o governo não aceitará o desrespeito à lei. "Nós temos de evitar a violência e a repressão", disse. O ministro informou que no encontro de ontem com o presidente, os sem-terra manifestaram o desejo de ajudar o País, transformando os assentamentos em agroindústrias e combater o analfabetismo nesses núcleos rurais, com recursos do próprio MST. Dirceu disse também que o governo vai mobilizar recursos para os assentamentos, a exemplo do que já vem fazendo nas cidades, para a retomada dos metrôs, programas de saneamento e habitação. "No primeiro semestre o governo cuidou da agricultura, da agroindustria, da agricultura familiar. No segundo semestre cuidará da reforma agrária, dentro da lei", garantiu. Programas para rodovias e ferroviasO ministro-chefe da Casa Civil anunciou que o governo vai lançar programas nas áreas rodoviária e ferroviária, dentro da proposta de crescimento do País. "Já estamos realizando um plano de recapeamento, de recuperação de estradas e o governo vai, junto com a iniciativa privada, viabilizar os investimentos na infra-estrutura", disse o ministro, para quem o modelo de privatização fracassou, citando como exemplo as tarifas dolarizadas. A proposta do governo, segundo o ministro, é uma parceria público-privada. "Nós vamos reduzir o risco e viabilizar o crescimento. Agora, tudo a seu tempo", disse Dirceu, acrescentando que o governo Lula está assumindo ônus que são do governo passado, como ocorreu recentemente, na questão do aumento da taxa Selic. SuperministroJosé Dirceu, negou que seja o homem forte do governo, com superpoderes. Dirceu, que se define como um homem da conciliação, humilde e moderado ao construir alianças para eleger o presidente Lula, disse que não tem apego ao cargo e que é um homem que sabe viver na planície e no Planalto, na oposição e na situação. "Agora, como todos sabem faço o que precisa ser feito e costumo fazer bem feito, dentro de regras transparentes e democráticas", acrescentou."Se querem vender imagem que sou poderoso, segundo homem da República, isso é bom para vender jornal. Mas quem conhece o presidente Lula e o PT sabe que nós trabalhamos em equipe, o presidente Lula comanda, decide e nós nos damos muito bem. É ilusão achar que no governo existem disputas entre ministros, no núcleo dirigente, na coordenação", ressaltou o ministro. "Lutamos 13 anos para chegar à Presidência da República e não vai ser agora, que chegamos ao governo, que nós vamos nos perder com essas questões".

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