Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

'Só tem uma escolha: adotar as medidas', diz Monica de Bolle

Economista criticou a declaração do presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes, que afirmou que prefeitos e governadores estariam impedindo a atividade econômica

Entrevista com

Monica de Bolle, economista

Paula Reverbel, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2020 | 10h00

A saúde pública e a economia estão atreladas de modo que não é possível se preocupar apenas com o aspecto financeiro do Brasil, de acordo com Monica de Bolle, economista e pesquisadora do Peterson Institute for International Economics, em Washington DC, nos EUA. “Essa visão é totalmente errada, não tem como separar a saúde pública da economia porque a economia é feita por pessoas. A epidemia afeta a economia sim, queiram as pessoas reconhecer isso ou não”, afirmou ao Estado.

A especialista argumenta que o País o estrago financeiro será maior se não forem implantadas fortes medidas sanitárias. “Se houver uma situação em que a epidemia se alastra, o sistema de saúde entra em colapso e você tem uma situação de risco de turbulência social, política e institucional – tudo isso levando a um caos e a um colapso da economia”, afirmou.

Bolle alerta ainda que muitos ainda não estão conseguindo entender a gravidade do que se passa – rol de pessoas que inclui o presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes, para quem os governadores e prefeitos estão impedindo a atividade econômica.

“A pessoa que fala uma coisa dessas não está entendendo nada, não está entendendo que centenas de milhares de pessoas podem morrer por causa de atitudes como essa. E, se isso acontecer, a gente vai ter um colapso econômico no Brasil. Não é uma escolha entre adotar as medidas ou não, só tem uma escolha: adotar as medidas”, pontuou.

Como avalia a declaração do presidente do Banco do Brasil, criticando a postura de governadores e prefeitos, que, segundo ele, estão travando a atividade econômica?

É péssima. E mostra de fato que tem gente que não está entendendo o que está acontecendo e o que é essa doença e como que ela vai chegar no Brasil. Essa doença tem essa característica de progressão geométrica, de parecer silenciosa no início mas, de repente, o número de casos explode e o número de hospitalizações também explode. Como isso ainda não aconteceu no Brasil – está prestes a acontecer – as pessoas estão sob essa falsa impressão de que há um exagero. Olhando para essas atitudes hoje com os olhos do futuro – já que morando nos Estados Unidos, onde a epidemia chegou primeiro, estou à frente do que está acontecendo no Brasil –, basta ver que Nova York e Washington DC estão em quarentena total e que o sistema de saúde entrou em colapso em pouquíssimos dias para a gente perceber a gravidade desse tipo de complacência. A pessoa que fala uma coisa dessas não está entendendo nada, não está entendendo que centenas de milhares de pessoas podem morrer por causa de atitudes como essa. E, se isso acontecer, a gente vai ter um colapso econômico no Brasil. Não é uma escolha entre adotar as medidas ou não, só tem uma escolha: adotar as medidas.

Em uma live, a sra. defendeu que nesse tipo de crise não existe a visão econômica keynesiana ou liberal. Como é a forma certa de se abordar essa crise?

Crises, todas elas, são um momento de emergência, em que a economia fica completamente fora do equilíbrio e que cabe aos governos reequilibrar as coisas, por assim dizer. Nesses momentos de crise, quando está tudo fora da normalidade, não o momento de debater linha de pensamento econômico. Só existe um tipo de linha de pensamento econômico em uma crise: reduzir ao máximo os estragos causados. Isso envolve necessariamente muito gasto do governo, muita ação governamental. No caso dessa crise em particular, os efeitos são ainda mais agudos, já que não é uma crise de cunho econômico. É causada por uma epidemia, é derivada de um problema de saúde pública. As respostas sanitárias é que causam estrago econômico e cabe ao governo, para proteger a população e a economia, tomar todas as medidas cabíveis. A gente tem que entender o contexto como o de total desequilíbrio onde o único ator capaz de restabelecer algum tipo de equilíbrio é o governo. Vai ter aumento da dívida, vai ter aumento do déficit e tudo isso é inevitável. Não há escolha, se não fizer, a economia toda para e o estrago vai ser maior.

Muitas autoridades estão tratando a questão como se fosse uma escolha entre se preocupar com a saúde pública ou se atentar para a economia. É possível tratar de maneira desvinculada?

Essa visão é totalmente errada, não tem como separar a saúde pública da economia porque a economia é feita por pessoas. Se as pessoas estão sendo afetadas pela epidemia, a economia vai ser afetada pela epidemia, não são separáveis. Esses temas estão absolutamente entrelaçados. A epidemia afeta a economia sim, queiram as pessoas reconhecer isso ou não. Afeta pelas medidas sanitárias e afetará mais ainda se as medidas sanitárias não forem adotadas. Porque assim você terá uma situação em que a epidemia se alastra, o sistema de saúde entra em colapso, você tem uma situação de risco de turbulência social, política e institucional – tudo isso levando a um caos e a um colapso da economia. Então, a escolha é: imponha as medidas sanitárias, bota o governo fazer o que tem que ser feito para segurar a economia, lida com o estrago econômico e depois reconstrói – que é o que a gente sabe fazer – ou então enfrentamos o colapso da economia e da saúde.

A sra. tem defendido que o Brasil está perdendo a janela de oportunidade para conseguir desenhar boas medidas econômicas antes que toda a atenção das autoridades vá para o colapso da saúde que está para chegar. 

Eu não tenho a menor dúvida. Comecei a alertar sobre a necessidade do governo começar a se mexer no Brasil no início de março. No início muita gente achou que era alarmismo, mas de repente se começou a ver o que estava acontecendo no resto do mundo e o consenso virou muito rapidamente na direção que tinha que virar. Essas semanas são sim super preciosas, o governo já perdeu tempo e precisa acelerar muito rápido. O que vem por aí é o tsunami da saúde pública e isso vai assoberbar o governo a tal ponto que não vai sobrar muito espaço para ficar discutindo medidas econômicas. Isso vai acontecer nas próximas duas semanas.

Com a perspectiva do que está acontecendo aí nos EUA, a sra. disse que todo exagero ao tratar dessa doença é pouco. Pode explicar?

Não tem exagero. Ninguém tem imunidade a essa doença, só as pessoas que a contraíram e sobrevieram, segundo os especialistas. É uma doença nova, muito perigosa e muito traiçoeira, que leva a um quadro de pneumonia aguda que destrói os pulmões e leva rapidamente a um quadro de agonia respiratória. É extremamente grave – pode ter um quadro mais leve sim, ela tem uma apresentação clínica muito variável, mas tem essa outra apresentação muito severa, que afeta uma proporção razoável de pessoas. Não é a maioria, mas são muitos os que acabam sendo internados por conta dela. Então ela rapidamente sobrecarrega o sistema de saúde e, quando isso acontece, tudo começa a falhar. Se alguém quebrar o pé no pico da doença, essa pessoa vai ficar sem atendimento hospitalar. Isso sem falar das várias outras doenças que as pessoas têm. Então, não só vamos ter mortes evitáveis de pessoas com covid-19 que não conseguiram atendimento, como vamos ter mortes evitáveis de pessoas com outras doenças.

A sra. fez o cálculo de como as pessoas vão ser impactadas pela MP editada pelo governo. Quem ganha três salários mínimos e tiver 70% do salário descontado, mesmo com a compensação do governo, vai perder 30% da renda. Isso pode levar a deflação e recessão, certo?

Sim, esse é um lado. Outro lado que é tão importante quanto, ou mais, é que essa situação em que eu coloquei – da pessoa que recebe três salários mínimos, vê o seu salário descontado em 70% e recebe, como compensação, 70% de seguro desemprego e tem uma queda na renda de 30% – essa pessoa que já vive com uma renda muito baixa e pode estar no limiar da sua capacidade de subsistência, principalmente se ela for chefe de família. Essa pessoa pode se ver obrigada a ir para a rua para fazer bico ou fazer qualquer outra atividade que expõe ela própria e sua família ao risco de contaminação. Então tem um problema de saúde pública entranhado a essa medida que é até mais importante que a questão macroeconômica. É uma medida que está mal desenhada para essa epidemia, já que o que é preciso é que as pessoas fiquem em casa. Se você não der as condições para as pessoas ficarem em casa, a coisa vai sair do controle muito rápido. E essa MP não leva isso em consideração.

A sra. disse que tem conversado com muitos congressistas interessados em bolar medidas melhores. Imagina que o Congresso vai devolver essa MP?

Eu espero que sim. O Congresso já estava trabalhando nisso, no sentido de assegurar que as pessoas ficassem em casa, para não ter esse risco das pessoas saírem de casa para complementar a renda. Então eu tenho essa esperança. O Congresso, de modo geral – e acho que a gente tem que parabenizar, de forma particular, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que tem sido muito atuante em diversas frentes –, eles estão entendendo muito claramente a gravidade da crise e o que tem que ser feito para proteger o Brasil e proteger as pessoas. Eu espero que do Congresso saia alguma coisa que esteja mais alinhado com a gravidade da epidemia que essa MP 936.

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