Nanicos têm protagonismo nas negociações do Planalto

Para barrar impeachment na Câmara, governo escala interlocutores para conversar com deputados de siglas menores

Daniel Carvalho / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2016 | 03h00

Partidos nanicos ganharam protagonismo na última semana graças à busca por votos para barrar o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Interlocutores do Planalto têm conversado diuturnamente com integrantes de legendas pequenas e médias em busca de impedir que a oposição consiga os 342 votos necessários para a continuidade do processo de impedimento da petista.

O governo escalou deputados mais ligados ao Palácio do Planalto para conversar individualmente com seus pares. Para facilitar a abordagem, os parlamentares foram divididos estrategicamente por Estados, partidos e afinidades temáticas.

Além de siglas maiores, como PP, PR, PSD e PRB, que somam 146 votos, os interlocutores abordam representantes de PTN, PHS, PROS, PT do B, PSL e PEN, que, juntos, têm 32 deputados.

Se o atrativo para as legendas maiores são os ministérios antes entregues ao neo-oposicionista PMDB, que rompeu com o governo na terça-feira, os nanicos estão sendo atraídos com parte dos cerca de 600 cargos que o partido está deixando em todo o País.

O PTN, que saltou de quatro para 13 deputados federais graças à “janela partidária”, foi o primeiro contemplado. O nome indicado pelo vice-presidente da República, Michel Temer, para a presidência da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), foi exonerado. Assumiu a cadeira de presidente um indicado do líder do PTN na Câmara, Aluisio Mendes (MA).

Representantes do PTN dizem haver conversas tanto com interlocutores de Dilma quanto de Temer, que, discretamente, começa a desenhar um eventual futuro governo. O assédio dos dois lados incentivou uma ala do partido a tentar valorizar o passe e aumentar seu “preço”.

Na última quarta-feira, um interlocutor do governo conversava com Aluisio Mendes, em tom elevado de voz, no Salão Verde da Câmara, supostamente por cobrar mais que o comando da Funasa. “Você esteve com Berzoini. Exigiu um ministério? Disse a ele que exige um ministério?”, questionou o deputado governista, fazendo referência ao ministro Ricardo Berzoini (Secretaria de Governo). Um representante do Planalto disse que o deputado estava “enquadrando” Mendes por causa da suposta pressão por uma pasta. Mendes não quis comentar o teor da conversa e nega estar negociando cargos.

No dia seguinte, a executiva nacional do PTN divulgou nota em que diz ser favorável ao impeachment e nega qualquer negociação. “A executiva nacional não conversou com governo federal e não negociará ministérios com governo federal.”

Café. Deputados de outras siglas nanicas reclamam que há “muito papo, mas nada de concreto”. “Quase todos têm sido convidados a atravessar para o outro lado da avenida. Talvez até pudesse considerar tomar um café com alguém até por relação respeitosa, mas não tem isso nos meus planos”, afirma Alfredo Kaefer (PR), líder da bancada de dois deputados – ele e mais uma – do PSL.

Crítico do governo, Kaefer diz entender a estratégia do Executivo de buscar diálogo até mesmo com parlamentares de perfil oposicionista, como ele. “O governo está buscando voto por voto. Faz parte do jogo dele. O jogo é de vida ou morte.”

“Já estamos na fase pós-impeachment. Há diálogo com partidos em função de uma agenda”, afirma o deputado Orlando Silva (PC do B-SP), vice-líder do governo na Câmara.

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