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Nadica de nada

Para cumprir sua determinação de nomear para a Secretaria de Governo alguém “não metido com nada de nada”, como disse ao Estado na sexta-feira, o presidente Michel Temer terá de pinçar um ser bastante estranho: um político, mas que nunca disputou eleição

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

27 de novembro de 2016 | 05h00

Para cumprir sua determinação de nomear para a Secretaria de Governo alguém “não metido com nada de nada”, como disse ao Estado na sexta-feira, o presidente Michel Temer terá de pinçar um ser bastante estranho: um político, mas que nunca disputou eleição.

Campanhas são caríssimas e o candidato que não era muito rico ou não tivesse roubado antes, fora das eleições, obrigatoriamente buscou financiamento de pessoas físicas, organizações e empresas – como a Odebrecht. Ou seja, logo, logo, terá o nome nas quase 80 delações premiadas da maior empreiteira do País e será respingado, ou encharcado, pelos vazamentos que ocorrerão aos borbotões e virarão manchetes.

É por isso que, ao especificar que busca alguém “não metido com nada de nada”, Temer quis dizer alguém que não teve doação da Odebrecht, nem legal, nem ilegal, nem em caixa 1, nem em caixa 2, nem lícita, nem ilícita, e não ter jamais passado perto de um lava jato. De preferência, nem tenha carro!

Aí, entra outro problema para substituir Geddel Vieira Lima na Secretaria de Governo: pelo óbvio, se o sujeito (ou sujeita) nunca disputou eleição, ele nunca teve mandato de vereador, prefeito, deputado, senador, governador... Então, como será um hábil negociador com o Congresso? Com que talento, armas e conhecimento irá tourear Suas Excelências?

Criado o impasse, Temer e a base aliada se contorcem em intensos debates sobre nomes, perfis, partidos, pesos e medidas. Fulano? Esse é ótimo, muito eficiente, mas com certeza está no “Departamento de Operações Estruturadas” da Odebrecht. Cicrano? Esse é acima de qualquer suspeita, nunca disputou nada, mas não sabe onde fica o cafezinho, jamais trocou duas frases com Renan ou o líder do PP na Câmara.

Sacudindo a memória, vem a referência de Henrique Hargreaves, que foi chefe da Casa Civil e articulador político de Itamar Franco. Concursado da Câmara, sabia tudo de regimento, circulava em todos os partidos, conhecia cada cantinho do Congresso e tinha feito um excelente estágio na assessoria parlamentar do governo Sarney.

Hargreaves, portanto, estava “metido com tudo de tudo”, no bom sentido, acabou enfrentando denúncias em negociações do Orçamento e criou uma “jurisprudência” nem sempre cumprida (não é mesmo Temer e Geddel?). Ao pipocarem as denúncias, Hargreaves se afastou logo do cargo. Inocentado por uma CPI, voltou.

Bem, mas não se fazem mais Hargreaves como antigamente e, na época, não havia Lava Jato, Janot, Moro, PF e Receita tal como hoje. Tudo era muito mais fácil... para os políticos. Agora, Temer tem de abusar da Abin e rezar muito para escolher um articulador político. Que, além de tudo, tem de ser de absoluta confiança, dividir segredos, saber as manhas, falar mal dos outros, mas sem estar lá só por ser amigo.

Dilma, antipolítica, encastelou-se com quem pensava exatamente como ela, pôs para correr até os lulistas e extinguiu o contraditório. Temer, político por excelência, trouxe os amigões do peito no PMDB e isso complica bastante as decisões pragmáticas – como demissões.

Logo, o sucessor de Geddel é (se já escolhido a esta altura) ou será (se ainda não) um ser especialíssimo: ou uma transmutação da genética política ou um robô de última geração. O que não significa que cabe a ele salvar o governo, muito menos a Pátria.

Fidel. Por 22 anos, de 13/5/1964 a 25/6/1986, os passaportes brasileiros continham uma bizarra inscrição: “Não é válido para Cuba”. Mas Fidel e Che foram mitos de gerações e esse lado romântico e heroico dos grandes inimigos dos EUA não resiste à ojeriza a ditaduras e aos novos tempos de Maduro, de um lado, e Trump, de outro. Obama e Francisco trouxeram Cuba de volta ao mundo, mas sem romantismo. 

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