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Nada a se perdoar

Lula se arrependeria se o encontro com Maluf não tivesse sido fotografado?

João Domingos, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2017 | 03h00

É muito fácil para qualquer um dizer que não se perdoa por algo que fez cinco, dez, quinze, ou sabe-se lá quantos anos antes em sua vida. O arrependimento é próprio da natureza humana, pois, motivado por razões que o presente explicita, cutuca e fere em relação ao passado. Nada mais natural, portanto, que Lula diga que não consegue se perdoar por ter posado para uma foto com Paulo Maluf (PP-SP) em 2012, na mansão deste, tendo ainda ao lado Fernando Haddad, então candidato a prefeito de São Paulo pelo PT. Mas será um arrependimento sincero?

A fotografia, da qual Lula agora diz que se arrepende de ter permitido que fosse feita, celebrou a aliança de dois adversários históricos, aliança fundamental para a vitória de Haddad na eleição de 2012. Sem o acordo, que deu maior tempo de TV para Haddad, e fez de Maluf importante cabo eleitoral petista na periferia e entre categorias de trabalhadores que sempre estiveram a seu lado, como os taxistas, o PT teria dificuldades para vencer a eleição.

A sequência de fotos do encontro mostra um Lula sorridente, bigodudo e sem barba – resultado do tratamento de um câncer na laringe –, de terno escuro, mas sem gravata, e um Maluf também sorridente, de terno e com uma gravata vermelha, igual às que o PT celebrizou. Nas fotografias, o mais constrangido parece ser Fernando Haddad, particularmente no momento em que Maluf se esmera em lhe fazer carinhos na nuca. Haddad também estava de terno, mas sem gravata. Existem ainda outras fotos do encontro, com muito mais personagens. Um deles é Rui Falcão, na época presidente do PT. Também estava sem gravata. Mas as fotos que ficaram gravadas nas mentes de todos, e do agora arrependido ex-presidente, foram as de Lula, Haddad e Maluf.

Alianças como a que foi celebrada em 2012 entre o PT de Lula/Haddad e o PP de Paulo Maluf são comuns na política brasileira. Na Presidência da República, Lula levou o PP para seu governo logo depois do escândalo do mensalão. Deu ao partido ministérios importantes, estatais importantes, diretorias da Petrobrás importantes, uma delas a de Paulo Roberto Costa, um dos primeiros presos pela Operação Lava Jato e também um dos primeiros a abrir a boca para falar do esquema de roubalheira montado por lá.

Portanto, não há nada demais no acordo político que Lula fez com Maluf. Todo mundo faz esse tipo de acordo, mesmo que não seja ideológico ou programático, mas oportunista, baseado no toma lá, dá cá. Não precisaria dizer que não se perdoa. A política permite esse tipo de pecado.

Mas Lula quis aproveitar a notícia de que Maluf tinha sido preso para anunciar seu profundo arrependimento. Ou, como o ex-presidente disse, revelar para os jornalistas com os quais se reuniu na quarta-feira que não se perdoa por ter se deixado convencer a tirar a fotografia. E se o encontro não tivesse sido registrado por fotógrafos e testemunhado por muitas pessoas, não seria motivo de arrependimento? Parece que o não perdoar a fotografia, aqui, só foi cogitado porque alguém viu, alguém fotografou.

No mesmo encontro com jornalistas, no qual não se perdoou, e não se perdoou porque uma fotografia registrou a celebração do acordo PT/PP, Lula revelou que pretende buscar coligações que fortaleçam o PT nas próximas eleições. Não se importa se fisiológicos. Defendeu, por exemplo, alianças locais com partidos que apoiaram o impeachment de Dilma Rousseff, antes chamados de “golpistas”.

Esses acordos, se houver, serão fotografados. Também, como o celebrado com Maluf, serão testemunhos da História. Com ou sem arrependimentos.

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