Na sessão histórica, em meio a bocejos, Jucá não empolga e Collor é tietado

Apesar do cansaço, nenhum parlamentar dormiu; nas galerias, lugar reservado para as plateias, houve jornalista que caiu no sono em meio à cobertura

Ricardo Brito e Luísa Martins, O Estado de S. Paulo

12 de maio de 2016 | 20h30

BRASÍLIA - Diante de um plenário vazio, o senador Romero Jucá (PMDB-RR) anunciou na madrugada desta quinta-feira que o Brasil daqui a pouco seria “diferente”. Era 5h25 e o ainda futuro ministro do Planejamento do governo interino de Michel Temer tentava defender o ainda vice das acusações de que tenha aplicado um “golpe” com a tentativa de afastar a presidente Dilma Rousseff, de quem foi líder do governo no Senado.

“Nós não vamos deixar o navio afundar para coletar cadáveres. Nós vamos mudar a rota do navio, mudando o comando, para que esse navio possa prosperar e as pessoas possam sobreviver. É isso o que nós vamos fazer, porque a lei do mar diz isto: quando um comandante coloca em risco a tripulação e a carga, é possível que a tripulação afaste o comandante”, disse o metafórico Jucá.

O sexagésimo nono dos 71 senadores orador, mesmo com todo trânsito na nova base de Temer e na oposição do PT, não empolgou mesmo se tornando 12 horas depois um dos ministros mais importantes do novo governo. Também pudera. Foram quase 20 horas de sessão e a madrugada foi inclemente para senadores e demais presentes.

Bocejos de senadores foram frequentes no plenário, mas ninguém dormiu. Nas galerias, lugar reservado para as plateias, houve jornalista que dormiu no chão em meio à cobertura. A monotonia da sessão notívaga do afastamento de Dilma foi quebrada apenas quando o ex-presidente e senador Fernando Collor (PTC-AL), que sofreu processo de impeachment em 1992 (ele sempre diz que renunciou antes do julgamento), chegou ao plenário às 22h30. 

O ex-presidente entrou, subiu à Mesa Diretora para cumprimentar os senadores, momento em que os cliques das das máquinas fotográficas dispararam freneticamente. Collor desceu e falou com os aliados de Dilma, tendo papeado bastante com a ex-ministra da Casa Civil dela, Gleisi Hoffmann (PT-PR). Em seguida, ele fez um discurso mais autodefesa, ainda que tenha feito críticas aos “ouvidos de mercador” da presidente sem, no entanto revelar seu voto.

“Cumprimento o senador Fernando Collor pelo grande registro histórico que proporciona a esta histórica sessão”, afirmou, em tom solene, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). O ex-presidente continuou a ser assediado pelos colegas e, pouco depois, deixou o plenário – só voltou para se manifestar a favor da abertura do processo contra Dilma.

A propósito, os ainda senadores governistas fizeram os discursos mais eloquentes no plenário, valendo-se do cumprimento das palmas, ao final dos pronunciamentos, para reduzir o impacto da nova minoria. “Como pode se sustentar um Vice-Presidente golpista, interino na Presidência, sem que tenha base legal, social, política ou eleitoral?”, protestou Humberto Costa (PT-PE), nas últimas horas de líder do governo no Senado. “Há capitães do golpe: o primeiro é Eduardo Cunha, Michel Temer e o Senador Aécio, que simboliza o PSDB nesse movimento”, enumerou Lindbergh Farias (PT-RJ), o mais efusivo.

Os aliados de Dilma, entretanto, já reconheciam a derrota. Uma hora depois do início da sessão, às 10 horas de quarta-feira, o líder do PT na Casa, Paulo Rocha (PA), admitia que havia uma “maioria estabelecida”, mas não iria admitir um “rolo compressor”. Resistiram nos discursos, nas, às 6h33 de ontem, o próprio Rocha e outros senadores governistas deixaram o plenário em sinal de protesto instantes antes de Renan anunciar o votação que afastou Dilma, por 55 votos a favor e 22 contra.

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