Carlos Magno/Imprensa RJ
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Na saúde, crise afeta ‘vitrine’ da gestão Cabral

Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs) vivem cenário melancólico, com atrasos nos pagamentos às Organizações Sociais (OSs), situação que se traduz em menos médicos e menos remédios para a população

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2017 | 05h00

RIO - Em maio de 2007, cinco meses depois de tomar posse, o então governador Sérgio Cabral (PMDB) inaugurava no conjunto de favelas da Maré, na zona norte do Rio, o primeiro posto público de atendimento 24 horas do Estado do Rio. O objetivo declarado era superar a histórica calamidade na saúde pública fluminense, desafogando as emergências dos hospitais dos casos de pequena e média complexidade. Geridas por Organizações Sociais (OSs) privadas e com equipe terceirizada, as chamadas Unidades de Pronto Atendimento (UPA) viraram um cartão de visitas dos dois mandatos do peemedebista. Foram até “exportadas” para outros Estados e até para a Argentina. 

Uma década depois, Cabral está preso, acusado de desvio de pelo menos R$ 270 milhões de diversas áreas do governo. As UPAs vivem um cenário melancólico: a crise no Estado provocou atrasos nos pagamentos às OSs, e isso se traduziu em menos médicos e menos remédios para a população. Em alguns postos, segundo o Conselho Regional de Medicina (Cremerj), o número de profissionais foi cortado à metade. Pacientes relatam que as farmácias estão esvaziadas e que não há reposições de insumos. Há seis meses eles não recebem medicamentos para levar para casa. Médicos e enfermeiros estão sobrecarregados. O número de vigilantes também foi reduzido, deixando as equipes inseguras. 

“A UPA já foi boa. Hoje é um desespero, tem dia regular e tem dia péssimo. Você tem que dar sorte de ter médico quando precisa. Já fiquei três horas na fila, ou, pior, tive que ir a três lugares diferentes com a criança no colo”, dizia, desolada, a dona de casa Cristine Paulino, de 39 anos. Ela levou a pequena Nicole, de 3 anos, quente de febre e com pus na garganta, à UPA de Realengo, na zona oeste do Rio. “Você já chega e o médico mostra a farmácia: ‘veja, não tem remédio’. Não tinha nem dipirona. O certo seria pegar todo o dinheiro que o Cabral roubou e colocar nos hospitais e nas UPAs.”

Na UPA de Marechal Hermes, na zona norte, a gari Vanda de Paula, de 54 anos, desistiu de esperar. “Estou com muita dor no corpo e na cabeça, não consigo trabalhar, mesmo à base de analgésicos. Tenho medo de ser zika ou chikungunya. Cheguei aqui, e a moça na minha frente falou que já estava aguardando tinha três horas. Como vou ficar desse jeito? Se o governo não paga aos médicos, eles não têm como trabalhar.”

Com consultórios, enfermarias, salas para exame e para internações de até 24 horas, as UPAs tinham boa avaliação até pouco antes do início da crise no Estado. Parte da classe média, desacreditada do Sistema Único de Saúde (SUS) e acostumada a atendimentos particulares em médicos conveniados a planos, passou a frequentá-las. Os postos recebem pacientes com febre, quadros de hipertensão e de diabetes mal tratados e vítimas de infarto do miocárdio e derrame cerebral, além de acidentados. Há atendimento clínico, pediátrico e odontológico. Casos graves são estabilizados nos postos para transferência para hospitais.

Com a crise, 27 UPAs construídas e equipadas pelo Estado foram municipalizadas. A situação é mais preocupante no interior, avalia o Cremerj. Com as prefeituras também em dificuldades financeiras, algumas foram fechadas, como as de São João de Meriti e Nilópolis, na Baixada Fluminense, e a de Angra dos Reis, na Costa Verde.

“Nas nossas inspeções vemos casos de pessoas internadas há 10 dias em leitos de Centro de Terapia Intensiva (CTI) onde deveriam ficar 24 horas, porque não há vagas nos CTIs dos hospitais. Não há luz no fim do túnel a não ser que sejam retomados os repasses regulares. Ano passado, o governo deixou de destinar R$ 1,2 bilhão para a saúde”, afirmou o presidente do Cremerj, Nelson Nahon.

“Assim como as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), as UPAs foram vendidas como programa-modelo do Cabral. Foram um grande avanço realmente, mas agora o projeto está completamente destruído. Virou uma tragédia. Aí a população corre para os hospitais estaduais, outra catástrofe e que também sofrem com a crise”, avaliou o vereador Paulo Pinheiro (PSOL). Ele é médico, membro da Comissão de Saúde da Câmara e ex-diretor do Hospital Municipal Miguel Couto, maior emergência pública da zona sul.

Procurada pelo Estado, a Secretaria Estadual de Saúde não informou qual é o total da dívida do governo com as OSs. Informou que trabalha com apenas 40% do orçamento previsto para 2007 e destacou que, a despeito da crise, mantém abertas 30 UPAs. A pasta nega que falte insumos ou medicamentos para a assistência ao paciente durante sua permanência nas unidades. A secretaria ressalta que foram feitos renegociações de contratos e cortes no custeio de R$ 1,4 bilhão ao ano. O objetivo é manter em funcionamento as UPAs, hospitais e institutos de sua rede.

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