Isac Nóbrega/PR
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Xadrez da Política
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Na ‘regra de ouro’ da política é o presidente que tem de se adaptar à cadeira

Entre uma selfie e outra, Bolsonaro prega ‘harmonia e paz’ para governar, mas essa farda não combina com ele

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2019 | 17h46

Caro leitor,

Quem vê Jair Bolsonaro diante do Palácio da Alvorada tirando selfies com turistas e dizendo não querer confusão pode imaginar que ele, a partir de agora, vai aposentar o “gabinete do ódio” e adotar o estilo “paz e amor”. Mas essa farda não combina com Bolsonaro. Desconfiado, o presidente sempre acha que há um complô contra ele e aposta no confronto para administrar.

Há no Planalto, ainda, uma estratégia cuidadosamente montada para combater os “inimigos” em várias frentes: no Congresso, no Judiciário, no Palácio dos Bandeirantes – sede do governo de São Paulo, comandado por João Doria, potencial presidenciável – e naquilo que a rede bolsonarista chama de “extrema imprensa”.

A queda de popularidade e o plano de reeleição em 2022, porém, fazem Bolsonaro arriscar cada vez mais o contato físico com seus eleitores, para desespero do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), responsável por sua proteção. Depois que o ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot deixou o País boquiaberto ao confessar que entrou armado no Supremo Tribunal Federal (STF), com a intenção de matar o ministro Gilmar Mendes, a preocupação da equipe de segurança presidencial triplicou.

“É um susto para a gente a cada momento”, admitiu o ministro-chefe do GSI, general Augusto Heleno Ribeiro, que, na última quinta-feira, mostrou para os jornalistas como é feito o treinamento dos agentes para defender o presidente em caso de ataques. “Ele (Bolsonaro) é um camarada impetuoso, desobediente, atirado. Gosta de ir para a galera. Com ele a atividade é mais emocionante para o pessoal da segurança.”

Na simulação do GSI, até um dublê de Bolsonaro entrou em cena, vestido com um colete vermelho, e foi “salvo” de uma emboscada, sob forte tiroteio, como você pode ler aqui. Mas a cor daquele colete, associada ao PT, virou piada no Setor Militar Urbano, um centro de treinamento a céu aberto.

Heleno não concorda com as paradas diárias do presidente, diante do Alvorada, para dar entrevistas e cumprimentar turistas. Motivo: na sua avaliação, Bolsonaro é o típico “alvo compensador” e todo cuidado é pouco.

“Há muito tempo não temos um alvo tão compensador. A morte dele mudaria a política do Brasil no minuto seguinte”, argumentou o ministro.

Embora tenha protagonizado divergências recentes com Heleno no tocante à segurança do pai, que na campanha eleitoral de 2018 sofreu um atentado a faca, o vereador licenciado Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), filho zero dois do presidente, endossou a opinião do general.

Não foram poucas as vezes em que Carlos aconselhou Bolsonaro a não descer do carro quando entra ou sai do Alvorada. Carlos coordena, na prática, o núcleo de assessores que despacha ao lado do presidente, no terceiro andar do Planalto, e ficou conhecido como “gabinete do ódio” por estimular o estilo beligerante nas redes sociais.

Na outra ponta, preocupado com o impacto de tropeços verbais sobre a agenda de reformas, o ministro da Economia, Paulo Guedes – alvo de “fogo amigo” – chegou a pedir a Bolsonaro que evitasse abordar temas polêmicos, como o teto de gastos públicos, por exemplo.

“Até a equipe de comunicação já solicitou ao presidente que parasse um pouco de falar, mas ele é indomável”, afirmou o deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), um dos principais líderes evangélicos na Câmara e aliado de Bolsonaro. “Só que tem uma coisa: militar é estrategista. Ele nunca fala aquilo que quer dizer. Dá o recado nas entrelinhas.”

Nesta segunda-feira, 30, Bolsonaro novamente parou no Alvorada e, em entrevista ao Estado, disse que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – condenado da Lava Jato – tem o “direito” de permanecer encarcerado em Curitiba. “É direito dele ficar preso lá. Quer ficar, fica. (...) O cara meteu a mão e entregou a amigos dele. Para quê? Projeto de poder. Graças a Deus, não deu certo”, provocou o presidente.

Entre uma selfie e outra com turistas, Bolsonaro também pregou “harmonia e paz” para governar. Admitiu, ainda, que precisava de votos no Senado, onde a reforma da Previdência está tramitando. Com isso, indicou que, ao menos por enquanto, não dispensará o líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), que teve o gabinete vasculhado pela Polícia Federal, no último dia 19.

Ali no Alvorada, porém, Bolsonaro deu a senha para a demissão do presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), general João Carlos de Jesus Corrêa, que acabou ocorrendo na manhã desta terça-feira, 1. “É uma boa pessoa, mas é igual a você ter um excelente jogador de basquete que está jogando vôlei”, comparou. “Talvez o problema dele (...) seja a história do pato e da galinha: ele faz, mas não comparece. E, no campo político, é desgaste, pressão, tiroteio.”

O que Bolsonaro quis dizer com isso ninguém sabe. No mundo da política, no entanto, também há uma “regra de ouro” incontestável, como se fosse um mandamento. Diz ela: “É o presidente que tem de se adaptar à cadeira, e não a cadeira ao presidente”. Coisas da República.

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