Na Região Sul, o tipo mais perigoso do HIV

A epidemia de aids está se tornando mais perigosa na Região Sul do País. É o que revela um estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), realizado em 2001. A pesquisa, que levantou informações de infectados em oito Estados brasileiros, mostra que o subtipo C do HIV - a forma do vírus considerada mais perigosa por conseguir se adaptar mais facilmente do que as outras - já é maioria no Rio Grande do Sul (67%) e atinge grande parte dos contaminados no Paraná (32%). Foram analisadas amostras de sangue de 366 pessoas recém-infectadas com o vírus, que moram no Rio, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Bahia, Pará, Ceará e Mato Grosso do Sul. Nos Estados das Regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste, a grande maioria (mais de 70%) dos vírus analisados ainda é do tipo B, a forma predominante na Europa e nos Estados Unidos e a primeira a se disseminar no mundo, nos anos 80. Mas, no Sul, o subtipo C, que é majoritário nos países africanos e na Índia, está em crescimento. "Estamos em uma fase da epidemia em que as linhagens do vírus começam a competir pela sobrevivência e observamos no estudo que o C está se expandindo com mais velocidade, provando que é de fato o mais adaptável de todos", explica Ricardo Diaz, chefe do laboratório de retrovirologia da Unifesp e coordenador da pesquisa. Segundo Diaz, é muito provável que o subtipo C se espalhe mais rápido do que os outros. "Apesar de isso ainda não estar completamente provado, há indícios em estudos in vitro revelando que o C consegue infectar heterossexuais com mais facilidade do que o B", completa. Apesar de Rio e São Paulo continuarem tendo uma epidemia semelhante à do mundo ocidental (com maioria B), a pesquisa indica que outras formas do HIV estão crescendo nesses Estados. São Paulo já tem 3,2% de infectados com o tipo C e o Rio, 5,7%. Essa forma ainda é inexistente no Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Mas há outras tendências, como o crescimento do subtipo F no Mato Grosso do Sul (24% do total). O estudo da Unifesp vai ajudar os pesquisadores a produzir vacinas eficazes, já que ajuda a identificar a forma exata que circula pelo País. E só com esse conhecimento detalhado do HIV será possível desenvolver formas de imunizar a população. O levantamento prova também que não é possível que substâncias candidatas a vacina sejam testadas apenas em um país ou continente. "Fica claro que, para desenvolver uma vacina, são necessários testes locais do produto, aliados ao conhecimento detalhado do vírus", afirma Diaz. Resistência - A pesquisa mostrou ao menos uma boa notícia. Das 366 pessoas estudadas no trabalho, apenas 23 (menos de 7%) tinham vírus resistentes ao coquetel de remédios antiaids. Mas, segundo Diaz, como as pessoas estudadas contraíram o vírus recentemente e muitas vivem em locais onde o tratamento ainda não é muito disseminado (Norte e Nordeste, por exemplo), os 7% podem não refletir a realidade.

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