Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Na Presidência, Mourão prioriza políticos e setor privado

'Mourão dá ao governo a cara de um ambiente planejado, coisa que Bolsonaro não consegue fazer; é o maior estrategista político do governo', diz analista

Matheus Lara, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2019 | 14h09
Atualizado 03 de abril de 2019 | 10h52

Enquanto a falta de interlocução de Jair Bolsonaro com parlamentares é alvo de reclamações e críticas dentro e fora do Congresso, o vice Hamilton Mourão, em 13 dias como presidente da República em exercício desde 1.º de janeiro, deu prioridade a reuniões e encontros com políticos e representantes do setor privado.

Levantamento do Estado mostra que, de 54 compromissos oficiais de Mourão na ausência de Bolsonaro, 14 foram agendas com prefeitos, deputados, senadores e governadores e nove foram com empresários e investidores.

Na Presidência, o general registrou ainda oito encontros com autoridades internacionais e oito reuniões com militares. Membros da equipe de governo foram recebidos por Mourão seis vezes. Ele também esteve com jornalistas (4), integrantes do Poder Judiciário (3) e religiosos (2). O levantamento identificou duas agendas de “despacho interno”.

A participação de Mourão em eventos com empresários e políticos já rendeu críticas de colegas do próprio governo, que veem nesse tipo de movimento a tentativa de assumir um papel de protagonista no governo e se contrapor ao próprio Bolsonaro. Entre os principais críticos dos movimentos do vice está o escritor Olavo de Carvalho, considerado guru dos bolsonaristas.

O último grande compromisso aconteceu na semana passada, quando Mourão foi o centro de dois encontros com empresários organizados pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Nesta terça-feira, enquanto Bolsonaro cumpria agenda oficial em Israel, ele esteve em uma feira do setor privado sobre defesa e segurança no Rio de Janeiro e teria uma reunião com o ministro Francisco Falcão, do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

“Minha presença aqui é para afiançar que o presidente Jair Bolsonaro quer promover reformas estratégicas para destravar a economia, para que o livre-comércio seja efetivado no Brasil”, disse ele, ao percorrer a feira de armas.

‘Tato político’

A ampla maioria das agendas de Mourão na Presidência se deu no Palácio do Planalto. Foi assim em 35 delas. Além das reuniões no gabinete, fez três visitas oficiais (entre elas, para os governadores tucanos João Doria, de São Paulo, e Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul) e compareceu a 11 eventos, como o de ontem no Rio.

Durante a ocorrida eleitoral do ano passado, Bolsonaro disse que o então candidato a vice na chapa não tinha “tato político”. No entanto, para o cientista político Kleber Carrilho, “ficou claro que isso não é verdade”. “Um general não é um néscio. Ele tem demonstrado visão estratégica. Ele dá ao governo uma cara de um ambiente planejado politicamente, coisa que Bolsonaro não consegue fazer”, afirmou Carrilho.

Mourão também protagonizou polêmicas. Na primeira ausência de Bolsonaro, ele assinou um decreto que flexibilizava a classificação de dados ultrassecretos por membros do governo. O decreto foi barrado pela Câmara, como retaliação dos deputados à suposta falta de diálogo com o governo. 

Quando Bolsonaro foi à Suíça participar do Fórum Econômico Mundial, em janeiro, Mourão defendeu mudanças na Previdência para militares – o que segundo ele, seriam “positivas para o País”. Há alguns dias, enquanto Bolsonaro estava no Chile, Mourão disse que o Congresso aprovará a reforma até agosto e defendeu diálogo entre o governo e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia – o fim de semana havia sido marcado pelas rusgas públicas entre Bolsonaro e o deputado do DEM.

Até agora, Mourão foi acionado cinco vezes para atuar como presidente em exercício - foi assim durante as viagens de Jair Bolsonaro para Davos (Suíça), Washington (EUA), Santiago (Chile) e Jerusalém (Israel), e quando o presidente foi submetido à cirurgia para reconstrução do trânsito intestinal - a terceira em decorrência da facada durante a campanha eleitoral.

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