'Na política vou defender o projeto de Lula e Dilma'

Presidente da Coteminas, o empresário Josué Christiano Gomes da Silva, filho do ex vice-presidente José Alencar, pretende se filiar a um partido político até o final do mês, mas garante que isso não será candidato

Eduardo Kattah, O Estado de S. Paulo

14 de setembro de 2013 | 16h00

O empresário Josué Christiano Gomes da Silva, presidente da Coteminas, pretende até o fim deste mês se filiar a um partido político, incentivado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pela presidente Dilma Rousseff. Cobiçado por PT, PMDB e outras legendas, o filho do ex-vice-presidente José Alencar - que morreu em 2011 - poderá entrar no jogo sucessório de 2014 em Minas. Vice-presidente da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) e morando há 24 anos na capital paulista, Josué faz críticas aos governos tucanos de Aécio Neves e Antonio Anastasia em Minas. Diz que o crescimento do Estado foi aquém do seu potencial nos últimos dez anos e defende a alternância de poder no Palácio Tiradentes. Seu nome é lembrado como possível vice numa chapa encabeçada pelo ministro Fernando Pimentel (PT).

O sr. já tomou a decisão de se filiar e se candidatar em 2014?

Ainda não tomei a decisão de ser candidato. E mesmo que eu venha a tomar a decisão de me filiar, isso não implica necessariamente em candidatura. De fato têm convites, muitos convites. Eu fico muito honrado com esses convites. A família toda fica muito agradecida com esses convites porque é uma homenagem também ao meu pai pelo legado que ele deixou. Se no mês de setembro eu vier a me filiar, estarei me filiando não necessariamente para vir a ser candidato. Estarei me filiando porque eu acredito na política. É uma atividade quando bem exercida extremamente nobre, tem um alcance inacreditável na vida das pessoas. E isso realiza espiritualmente. No fundo, essas passeatas que ocorreram no Brasil - eu ia aqui (diz, apontando para a sacada da sede da Coteminas, na Avenida Paulista) e ficava assistindo - não deixam de ser as pessoas reivindicando algo mais. As pessoas já tiveram, não todas, mas muitas, as suas necessidades materiais mais básicas atendidas, tanto é que não se reivindicavam empregos, salários, mas melhor qualidade de vida, melhor serviço público: transporte, educação, saúde, segurança...

Foi convidados por quais partidos?

Muitos, não vou dizer o nome porque fica indelicado. Eu tenho um critério e esse critério é claro. Por razões óbvias e até por acreditar eu estou ao lado do projeto que o presidente Lula e o papai ao lado dele iniciaram no Brasil. Isso está claro. Então meu critério básico é um partido da base. Vou entrar para defender um projeto. Eu cogitava me filiar só depois do prazo fatal (para concorrer nas eleições de 2014), depois do início de outubro. Eu falava com aqueles que vinham me fazer sondagens e eles: 'Josué, você fala que quer ser um soldado de uma causa. O soldado vai para a guerra equipado. O fato de você querer ser um soldado implica eventualmente você precisar estar à disposição para disputar a eleição'.

O que lhe motiva para ingressar formalmente na política? Recebeu apelos da presidente Dilma?

A gente tem uma amizade, uma admiração, um respeito muito grande pela presidente Dilma e pelo presidente Lula. Acho que eles se lembram do meu nome em razão do papai e a gente é muito agradecido por isso. Eles tiveram uma amizade, uma proximidade, um respeito muito grande pelo meu pai. Então nós procuramos retribuir. Agora, de novo, é um projeto de Brasil. O Brasil tem sofrido transformações positivas. Conseguimos vencer a hiperinflação, pré-condição essencial para que pudéssemos alcançar patamares melhores de condição de vida. Mas só aquilo não era suficiente. Mas foi feito aos trancos e barrancos. Mas a partir da presidência do Armínio Fraga no Banco Central o Brasil estabeleceu um tripé macroeconômico muito lúcido: metas de inflação, responsabilidade fiscal e câmbio flutuante tem uma lógica interna muito forte e que permitiu que o Brasil alcançasse de fato um patamar de estabilidade muito bom. O presidente Lula foi um craque. Ele não só manteve o tripé, mas fez mais. Por exemplo, conseguiu vencer a vulnerabilidade externa. Todo mundo fala: 'mas teve um vento a favor'. Teve. A China cresceu, a Índia cresceu, as relações de troca passaram a ser favoráveis ao Brasil, os preços da commodities subiram... Graças a Deus. Dizem que Napoleão quando escolhia seus generais ele perguntava se eles tinham sorte.... Mas ele (Lula) fez mais. Hoje o Brasil tem reservas de US$ 375 bilhões. (Mas) O mais importante talvez do período do presidente Lula, pela sensibilidade social dele, foi o resgate parcial, não digo que é total, da dívida social. Mais de 40 milhões de pessoas ascenderam ao mercado de consumo. Isso até economicamente foi importante, fortaleceu o mercado interno.

Essas manifestações nas ruas criticam a política tradicional...

Isso só estimula. Tenho certeza que todos, ou quase todos que saíram às ruas como cidadãos, na melhor definição da cidadania: o reconhecimento de que somos contribuintes e queremos melhores serviços. E estavam fazendo uma ação política. Não acho que estavam negando a política, pelo contrário, estavam fazendo uma ação política mesmo que não tivessem consciência disso. Isso enriquece, fortalece a política. Você pode imaginar um sistema político de democracia direta. Não acho que seja algo recomendável, viável. O sistema de democracia representativa vem sendo ao longo dos anos eu diria enriquecido, melhorado, aprimorado… porém, mesmo na democracia representativa há espaço para maior participação do cidadão. Veja as experiências dos orçamentos participativos. É uma experiência rica. Ela devia ser mais estimulada, adotada e não olhada como algo ultrapassado. Talvez o que a gente viu nas ruas seja justamente isso, a vontade da população de participar mais, de ter mais voz. Isso é um ato político. Então aquelas demonstrações todas só fortalecem a política e eu acredito para que para fortalecer a política é essencial que se fortaleçam os partidos políticos.

Como o sr. avalia as administrações do PSDB em Minas?

A democracia pressupõe alternância de poder. O governador (Antonio) Anastasia é um homem íntegro, um bom homem público, um bom gestor. Tem feito um governo talvez até bom, dentro do limite do possível. Mas eu acredito que Minas Gerais é um Estado que poderia estar tendo um grau de desenvolvimento maior. Minas Gerais já teve momentos de grande desenvolvimento econômico e social. Me lembro quando foi criado um tripé para promover o desenvolvimento em Minas e aquilo foi uma alavanca fortíssima. Era o Indi (Instituto de Desenvolvimento Industrial), o BDMG (Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais) e a Cemig (Companhia Energética), que ainda é uma empresa do Estado, mas que tinha como pressuposto básico criar condições através da infraestrutura, no caso elétrica, para que se pudesse atrair indústrias para o Estado. Eles trabalhavam em conjunto, de maneira muito próxima. Isso de certa maneira não funciona hoje de forma tão forte no governo de Minas. Mas a principal questão nem é essa. Uma, que não é de responsabilidade do governo de Minas: houve uma concentração de recursos muito grande no Brasil, não nos últimos 10 anos, nos últimos 20 anos ou mais. Acho que é preciso que se discuta mais até do que uma reforma tributária, uma reforma fiscal. É possível se redefinir atribuições e se redefinir distribuição de recursos. Até para que o recurso fique mais próximo do cidadão, seja aplicado mais rapidamente. Um segundo fator, até por causa desse primeiro, é que normalmente o Estado que esteve alinhado com o governo federal nesse período acabou tendo maior nível de desenvolvimento. Neste caso, Minas, infelizmente, ficou tímida. Não acho que o governo federal tenha preterido o Estado, pelo contrário, o governo federal fez muito por Minas Gerais. Mas talvez o diálogo sendo menos frequente, menos fluido, por uma barreira que não deveria existir, mas por uma barreira de achar que é de um outro campo político, acabou se perdendo um pouco o carreamento do volume de recursos para o Estado. E Minas ficou com um desenvolvimento talvez aquém do que poderia. É um Estado grande, com 853 municípios e muitas desigualdades. É preciso combater as desigualdades.

O ministro Fernando Pimentel (PT) deverá ser o candidato da base aliada ao governo do Estado em 2014...

É o nome de um mineiro ilustre, que tem feito muito pelo Brasil e por Minas, especificamente. Ele fez uma gestão à frente da prefeitura de Belo Horizonte muito vitoriosa, tanto é que saiu com um índice de aprovação altíssimo, o que demonstra a sua capacidade de ser um grande executivo. Acho que ele é um dos grandes nomes, um dos melhores quadros que Minas possui.

O sr. Aceitaria ser vice em uma chapa encabeçada por Pimentel?

Eu de fato não cogito nenhuma candidatura. Uma das coisas que faço ao conversar sobre filiação partidária é não discutir candidatura. Não quero vincular uma coisa à outra. Estou buscando uma filiação partidária para militar na política. E tem um tempo para cada coisa.

Como o sr. vê a provável candidatura do senador Aécio Neves (PSDB) à Presidência? No Estado, o projeto político do ex-governador sempre foi vendido como a esperança de Minas voltar a comandar o governo federal...

Acho que Minas não deixou o poder central. Nos últimos 10 anos nós tivemos um mineiro na Vice-Presidência da República e hoje temos uma mineira na Presidência. Minas está no poder central. Se esse é o projeto, já o conquistamos. O senador Aécio é um brilhante político, um mineiro que todos nós admiramos. Acho que esse projeto que está atualmente à frente da Presidência da República, através da presidenta Dilma e do ex-presidente Lula, precisa se consolidar e por isso um mandato renovado para a presidenta Dilma permitirá a renovação e a consolidação de um projeto, que inclusive agora passa por um momento de reconstrução dos pilares de competitividade nacional. É a minha opinião, isso não significa que o senador Aécio não tenha os seus méritos. Ele tem uma genética muito nobre, tem uma experiência política incomum, que vem do avô tanto materno quanto paterno. Isso é admirável. E é um mineiro que faz política com o coração, não com o fígado. Espero que ele venha a fazer uma campanha propositiva. Agora, a ideia de Minas voltar ao centro do poder essa já está conquistada.

O sr. falou de reconstrução dos pilares da competitividade nacional. Como avalia a economia no governo Dilma?

Estamos vivendo um momento de transição, em que já temos uma desvalorização cambial significativa. Se nós conseguirmos manter a inflação num patamar baixo, como temos conseguido... digo até que nós estamos conseguindo fazer a transição de forma vitoriosa, conseguindo mudar a relação de preços relativos com baixa inflação. É uma inflação que incomoda? Claro que é. O Banco Central tem dado demonstrações claras de que é uma inflação que incomoda e está atento a essa inflação. Mas tendo em vista a mudança de preços relativos que está ocorrendo, combinado com o choque externo de preços dos alimentos que não foi brincadeira, ela esta sendo bastante razoável. Agora, também não adianta colocar a cabeça na terra como um avestruz e desconhecer que existe hoje um clima de desânimo que é até descolado da realidade. Alguma coisa aconteceu que levou a esse estado de desânimo. Isso precisa ser revertido, porque o estado de desânimo de agentes econômicos acaba repercutindo desfavoravelmente na economia real, não adianta. Até porque hoje é absolutamente essencial que o investimento cresça. Ou seja, o consumo tem de se manter forte, mas o investimento tem de crescer muito mais rapidamente do que tem crescido. Acho que o governo entende, reconhece eventuais comunicações equivocadas que tenham levado a isso e tem trabalhado para reverter esse estado de desânimo.

O PT pagou a dívida com a Coteminas?

Pagou, 100% quitada. Ela foi parcelada e eles pagaram em dia todas as notas promissórias emitidas. Quitou tudo, está zerada aquela dívida.

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