Reprodução
Presidente Jair Bolsonaro em discurso gravado para a abertura da 75ª Assembleia Geral das Nações Unidas. Reprodução

Na ONU, Bolsonaro diz que incêndios são usados em campanha internacional contra o governo brasileiro

No discurso na Assembleia-Geral, presidente culpa ‘índios e caboclos’ e critica o ‘fique em casa’ contra a covid-19

Jussara Soares e Matheus Lara, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2020 | 11h01
Atualizado 22 de setembro de 2020 | 22h22

O presidente Jair Bolsonaro abriu nesta terça-feira, 22, os debates da 75.ª Assembleia-Geral das Organizações das Nações Unidas (ONU) com um discurso contundente em que manteve tom de confronto e apresentou seu governo como vítima de perseguição internacional. Na tentativa de se eximir das cobranças por recordes de queimadas na Amazônia e no Pantanal, Bolsonaro distorceu dados, atribuiu a índios e caboclos a disseminação do fogo nas florestas e disse haver uma “campanha brutal de desinformação”.

Pela primeira vez, por causa da pandemia do coronavírus, as declarações dos líderes mundiais ocorreram de modo virtual. Criticado pela condução da crise do coronavírus, o presidente insistiu na narrativa contra o isolamento social, usou informações falsas sobre a pandemia e defendeu a hidroxicloroquina, medicamento sem eficácia comprovada para o tratamento da covid 19. 

No fim do discurso, o presidente fez uso do termo “cristofobia”, usado, em geral, para falar de perseguição a minorias cristãs em países de maioria islâmica. “Faço um apelo a toda a comunidade internacional pela liberdade religiosa e pelo combate à cristofobia”, disse. “O Brasil é um país cristão e conservador e tem na família sua base.”

Assista a íntegra do discurso de Bolsonaro na ONU

Bolsonaro gravou o pronunciamento na semana passada e fez vários ajustes. Críticas à atuação da ONU e o posicionamento contra o aborto, por exemplo, foram retirados. Como é tradição, o Brasil sempre abre os trabalhos na Assembleia da ONU. O discurso, de 15 minutos, foi iniciado com um lamento pelas vítima da covid-19. Em seguida, o presidente disse que “o vírus e o desemprego” precisavam ser “tratados igualmente”.

Bolsonaro acusou a imprensa de politizar a doença e espalhar pânico e criticou a quarentena recomendada por autoridades de saúde para evitar o contágio. “Sob o lema ‘fique em casa’ e ‘a economia a gente vê depois’, quase trouxeram o caos social ao País”, afirmou. Com mais de 137 mil mortos, o Brasil é o segundo país do mundo em número de óbitos, só perdendo para os Estados Unidos, e o terceiro em casos, com mais de 4,5 milhões de pessoas contaminadas. 

Para Entender

Aos 75 anos, ONU enfrenta desconfiança, ataques populistas e incertezas

Sistema das Nações Unidas completa 75 anos em meio à pandemia de covid-19 e busca fortalecer agenda global baseada na cooperação internacional e desenvolvimento sustentável

O presidente disse, ainda, que o Supremo Tribunal Federal (STF) delegou a prefeitos e governadores medidas para conter a propagação da covid-19, distorcendo o teor da decisão da Corte. Diferentemente do que mencionou Bolsonaro, porém, o STF não retirou da União a responsabilidade pelas ações de combate à pandemia, embora tenha assegurado autonomia a Estados e municípios.

Para rebater críticas na área ambiental, Bolsonaro também recorreu à condição de vítima, embora tenha evitado “fulanizar” os críticos de sua política ambiental, como fez no ano passado, quando citou França e Alemanha. Com acordos comerciais sob ameaça, como os da União Europeia e do Mercosul, afirmou que incêndios no Pantanal e na Amazônia vêm sendo usados numa “brutal campanha de desinformação”, com o objetivo de atacar o governo.

“Nosso agronegócio continua pujante e, acima de tudo, possuindo e respeitando a melhor legislação ambiental do planeta. Mesmo assim, somos vítimas de uma das mais brutais campanhas de desinformação sobre a Amazônia e o Pantanal. A Amazônia brasileira é sabidamente riquíssima. Isso explica o apoio de instituições internacionais a essa campanha escorada em interesses escusos que se unem a associações brasileiras, aproveitadoras e impatrióticas, com o objetivo de prejudicar o governo e o próprio Brasil”, argumentou.

Ao ignorar dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), indicando o aumento da devastação, o presidente alegou que o alastramento do fogo está relacionado à queima de roçadas por parte de caboclos e índios. “Nossa floresta é úmida e não permite a propagação do fogo em seu interior. Os incêndios acontecem praticamente, nos mesmos lugares, no entorno leste da Floresta, onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência, em áreas já desmatadas.”

Logo depois, disse que a extensão da Amazônia e do Pantanal dificulta o combate às queimadas e o trabalho de fiscalização como a extração ilegal de madeira. Bolsonaro alegou que a extensão das regiões Amazônia e do Pantanal dificulta o combate às queimadas e também o trabalho de fiscalização como a extração ilegal de madeira. “Lembro que a Região Amazônica é maior que toda a Europa Ocidental. Daí, a dificuldade em combater, não só os focos de incêndio, mas também, a extração ilegal de madeira e a biopirataria”, disse o presidente.

“O nosso Pantanal, com área maior que muitos países europeus, assim como a Califórnia, sofre dos mesmos problemas”, completou, citando que “as grandes queimadas são consequências inevitáveis da alta temperatura local, somada ao acúmulo de massa orgânica em decomposição”. Mesmo assim, afirmou que mantém política de “tolerância zero” com o crime ambiental.

Bolsonaro usou o discurso na ONU para fazer acenos aos EUA. Ao citar a tecnologia 5G, disse estar interessado em parcerias que “respeitem nossa soberania, prezem pela liberdade e pela proteção de dados”. O leilão do 5G no Brasil, previsto para 2021, é palco de disputa tecnológica entre EUA e China.

“Nesta linha, o Brasil está aberto para o desenvolvimento de tecnologia de ponta e inovação, a exemplo da indústria 4.0, da inteligência artificial, nanotecnologia e da tecnologia 5G, com quaisquer parceiros que respeitem nossa soberania, prezem pela liberdade e pela proteção de dados”, destacou. 

No início deste mês, em transmissão ao vivo nas redes sociais, Bolsonaro afirmou que é dele a palavra final sobre o fornecimento da tecnologia 5G no Brasil. Na ocasião, disse que não vai decidir sozinho sobre o assunto e que consultaria ministros do governo e até integrantes do governo americano sobre o tema. 

A 42 dias das eleições americanas, Bolsonaro entrou na campanha do presidente Donald Trump, que tenta um segundo mandato, ao elogiar iniciativa lançada por ele como solução para o conflito no Oriente Médio. Na outra ponta, atacou a Venezuela, ao dizer, sem apresentar provas, que o derramamento de óleo no litoral brasileiro, em 2019, foi causado pelo país vizinho.

“O Brasil saúda também o Plano de Paz e Prosperidade lançado pelo Presidente Donald Trump, com uma visão promissora para, após mais de sete décadas de esforços, retomar o caminho da tão desejada solução do conflito israelense-palestino”, disse.

Bolsonaro afirmou que  “a nova política do Brasil de aproximação simultânea a Israel e aos países  árabes converge com essas iniciativas, que finalmente acendem uma luz de esperança para aquela região”.

O brasileiro também prestou solidariedade ao povo do Líbano pelas explosões que deixaram mais de 190 mortos e 6,5 milhões de feridos. Bolsonaro disse acreditar que este “momento é propício para trabalharmos pela abertura de novos horizontes, muito mais otimistas para o futuro do Oriente Médio.”

Leia a íntegra do discurso de Jair Bolsonaro na abertura da Assembleia-Geral da ONU de 2020:

“Senhor presidente, da Assembleia Geral, Volkan Bozkir; Senhor secretário-geral da ONU, António Guterres, a quem tenho a satisfação de cumprimentar em nossa língua-mãe; Chefes de Estado, de governo e de delegação; Senhoras e senhores, É uma honra abrir esta assembleia com os representantes de nações soberanas, num momento em que o mundo necessita da verdade para superar seus desafios.

A COVID-19 ganhou o centro de todas as atenções ao longo deste ano e, em primeiro lugar, quero lamentar cada morte ocorrida.

Desde o princípio, alertei, em meu País, que tínhamos dois problemas para resolver: o vírus e o desemprego, e que ambos deveriam ser tratados simultaneamente e com a mesma responsabilidade. Por decisão judicial, todas as medidas de isolamento e restrições de liberdade foram delegadas a cada um dos 27 governadores das unidades da Federação. Ao Presidente, coube o envio de recursos e meios a todo o País.

Como aconteceu em grande parte do mundo, parcela da imprensa brasileira também politizou o vírus, disseminando o pânico entre a população. Sob o lema “fique em casa” e “a economia a gente vê depois”, quase trouxeram o caos social ao país.

Nosso governo, de forma arrojada, implementou várias medidas econômicas que evitaram o mal maior:

- Concedeu auxílio emergencial em parcelas que somam aproximadamente 1000 dólares para 65 milhões de pessoas, o maior

programa de assistência aos mais pobres no Brasil e talvez um dos maiores do mundo;

- Destinou mais de 100 bilhões de dólares para ações de saúde, socorro a pequenas e microempresas, assim como compensou a perda de arrecadação dos estados e municípios;

- Assistiu a mais de 200 mil famílias indígenas com produtos alimentícios e prevenção à COVID;

- Estimulou, ouvindo profissionais de saúde, o tratamento precoce da doença;

- Destinou 400 milhões de dólares para pesquisa, desenvolvimento e produção da vacina de Oxford no Brasil;

Não faltaram, nos hospitais, os meios para atender aos pacientes de COVID. A pandemia deixa a grande lição de que não podemos depender apenas de umas poucas nações para produção de insumos e meios essenciais para nossa sobrevivência. Somente o insumo da produção de hidroxicloriquina sofreu um reajuste de 500% no início da pandemia. Nesta linha, o Brasil está aberto para o desenvolvimento de tecnologia de ponta e inovação, a exemplo da indústria 4.0, da inteligência artificial, nanotecnologia e da tecnologia 5G, com quaisquer parceiros que respeitem nossa soberania, prezem pela liberdade e pela proteção de dados.

No Brasil, apesar da crise mundial, a produção rural não parou. O homem do campo trabalhou como nunca, produziu, como sempre, alimentos para mais de 1 bilhão de pessoas. O Brasil contribuiu para que o mundo continuasse alimentado. Nossos caminhoneiros, marítimos, portuários e aeroviários mantiveram ativo todo o fluxo logístico para distribuição interna e exportação.

Nosso agronegócio continua pujante e, acima de tudo, possuindo e respeitando a melhor legislação ambiental do planeta. Mesmo assim, somos vítimas de uma das mais brutais campanhas de desinformação sobre a Amazônia e o Pantanal. A Amazônia brasileira é sabidamente riquíssima. Isso explica o apoio de instituições internacionais a essa campanha escorada em interesses escusos que se unem a associações brasileiras, aproveitadoras e impatrióticas, com o objetivo de prejudicar o governo e o próprio Brasil. Somos líderes em conservação de florestas tropicais. Temos a matriz energética mais limpa e diversificada do mundo.

Mesmo sendo uma das 10 maiores economias do mundo, somos responsáveis por apenas 3% da emissão de carbono.

Garantimos a segurança alimentar a um sexto da população mundial, mesmo preservando 66% de nossa vegetação nativa e usando apenas 27% do nosso território para a pecuária e agricultura, números que nenhum outro país possui.

O Brasil desponta como o maior produtor mundial de alimentos. E, por isso, há tanto interesse em propagar desinformações sobre o nosso meio ambiente. Estamos abertos para o mundo naquilo que melhor temos para oferecer, nossos produtos do campo. Nunca exportamos tanto. O mundo cada vez mais depende do Brasil para se alimentar.

Nossa floresta é úmida e não permite a propagação do fogo em seu interior. Os incêndios acontecem praticamente, nos mesmos lugares, no entorno leste da Floresta, onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência, em áreas já desmatadas.

Os focos criminosos são combatidos com rigor e determinação. Mantenho minha política de tolerância zero com o crime ambiental.

Juntamente com o Congresso Nacional, buscamos a regularização fundiária, visando identificar os autores desses crimes.

Lembro que a Região Amazônica é maior que toda a Europa Ocidental.

Daí, a dificuldade em combater, não só os focos de incêndio, mas também, a extração ilegal de madeira e a biopirataria. Por isso, estamos ampliando e aperfeiçoando o emprego de tecnologias e aprimorando as operações interagências, contando, inclusive, com a participação das Forças Armadas. O nosso Pantanal, com área maior que muitos países europeus, assim como a Califórnia, sofre dos mesmos problemas. As grandes queimadas são consequências inevitáveis da alta temperatura local, somada ao acúmulo de massa orgânica em decomposição.

A nossa preocupação com o meio ambiente vai além das nossas florestas. Nosso Programa Nacional de Combate ao Lixo no Mar, um dos primeiros a serem lançados no mundo, cria uma estratégia para os nossos 8.500 Km de costa.

Nessa linha, o Brasil se esforçou na COP25 em Madri para regulamentar os artigos do Acordo de Paris que permitiriam o estabelecimento efetivo do mercado de carbono internacional. Infelizmente fomos vencidos pelo protecionismo.

Em 2019, o Brasil foi vítima de um criminoso derramamento de óleo venezuelano, vendido sem controle, acarretando severos danos ao meio ambiente e sérios prejuízos nas atividades de pesca e turismo. O Brasil considera importante respeitar a liberdade de navegação estabelecida na Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. Entretanto, as regras de proteção ambiental devem ser respeitadas e os crimes devem ser apurados com agilidade, para que agressões como a ocorrida contra o Brasil não venham a atingir outros países.

Não é só na preservação ambiental que o país se destaca. No campo humanitário e dos direitos humanos, o Brasil vem sendo referência internacional pelo compromisso e pela dedicação no apoio prestado aos refugiados venezuelanos, que chegam ao Brasil a partir da fronteira no estado de Roraima.

A Operação Acolhida, encabeçada pelo Ministério da Defesa, recebeu quase 400 mil venezuelanos deslocados devido a grave crise políticoeconômica gerada pela ditadura bolivariana. Com a participação de mais de 4 mil militares, a Força Tarefa LogísticaHumanitária busca acolher, abrigar e interiorizar as famílias que chegam à fronteira.

Como um membro fundador da ONU, o Brasil está comprometido com os princípios basilares da Carta das Nações Unidas: paz e segurança internacional, cooperação entre as nações, respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais de todos. Neste momento em que a organização completa 75 anos temos a oportunidade de renovar nosso compromisso e fidelidade a esses ideais. A paz não pode estar dissociada da segurança. A cooperação entre os povos não pode estar dissociada da liberdade. O Brasil tem os princípios da paz, cooperação e prevalência dos direitos humanos inscritos em sua própria Constituição, e tradicionalmente contribui, na prática, para a consecução desses objetivos.

O Brasil já participou de mais de 50 operações de paz e missões similares, tendo contribuído com mais de 55 mil militares, policiais e civis, com participação marcante em Suez, Angola, Timor Leste, Haiti, Líbano e Congo. O Brasil teve duas militares premiadas pela ONU na Missão da Republica Centro-Africana pelo trabalho contra violência sexual.

Seguimos comprometidos com a conclusão dos acordos comerciais firmados entre o MERCOSUL e a União Europeia e com a Associação Europeia  de Livre Comércio. Esses acordos possuem importantes cláusulas que reforçam nossos compromissos com a proteção ambiental.

Em meu governo, o Brasil, finalmente, abandona uma tradição protecionista e passa a ter na abertura comercial a ferramenta indispensável de crescimento e transformação. 

Reafirmo nosso apoio à reforma da Organização Mundial do Comércio que deve prover disciplinas adaptadas às novas realidades internacionais.

Estamos igualmente próximos do início do processo oficial de acessão do Brasil à OCDE. Por isso, já adotamos as práticas mundiais mais elevadas em todas as áreas, desde a regulação financeira até os domínios da segurança

digital e da proteção ambiental.

No meu primeiro ano de governo, concluímos a reforma da previdência e, recentemente, apresentamos ao Congresso Nacional duas novas reformas: a do sistema tributário e a administrativa. Novos marcos regulatórios em setores-chave, como o saneamento e o gás natural, também estão sendo implementados. Eles atrairão novos investimentos, estimularão a economia e gerarão renda e emprego.

O Brasil foi, em 2019, o quarto maior destino de investimentos diretos em todo o mundo. E, no primeiro semestre de 2020, apesar da pandemia, verificamos um aumento do ingresso de investimentos, em comparação com o mesmo período do ano passado. Isso comprova a confiança do mundo em nosso governo.

O Brasil tem trabalhado para, em coordenação com seus parceiros sulatlânticos, revitalizar a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul. O Brasil está preocupado e repudia o terrorismo em todo o mundo. Na América Latina, continuamos trabalhando pela preservação e promoção da ordem democrática como base de sustentação indispensável para o progresso econômico que desejamos.

A liberdade é o bem maior da humanidade. Faço um apelo a toda a comunidade internacional pela liberdade religiosa e pelo combate à cristofobia. Também quero reafirmar minha solidariedade e apoio ao povo do Líbano pelas recentes adversidades sofridas. Cremos que o momento é propício para trabalharmos pela abertura de novos horizontes, muito mais otimistas para o futuro do Oriente Médio. 

Os acordos de paz entre Israel e os Emirados Árabes Unidos, e entre Israel e o Bahrein, três países amigos do Brasil, com os quais ampliamos imensamente nossas relações durante o meu governo, constitui excelente notícia.

O Brasil saúda também o Plano de Paz e Prosperidade lançado pelo Presidente Donald Trump, com uma visão promissora para, após mais de sete décadas de esforços, retomar o caminho da tão desejada solução do conflito israelense-palestino.

A nova política do Brasil de aproximação simultânea a Israel e aos países árabes converge com essas iniciativas, que finalmente acendem uma luz de esperança para aquela região. O Brasil é um país cristão e conservador e tem na família sua base.

Deus abençoe a todos!

E o meu muito obrigado!”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Imagem Eliane Cantanhêde
Colunista
Eliane Cantanhêde
Conteúdo Exclusivo para Assinante

No reino encantado das pérolas e de ‘culpados’ irreais

Se todo esse universo tão poderoso e influente se uniu para derrubá-lo, como sugeriu Bolsonaro na ONU, como o presidente ainda não caiu?

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2020 | 13h47

Em seu discurso de abertura da Assembleia-Geral da ONU, o presidente Jair Bolsonaro tentou evitar confrontos diretos, mas citou os grandes culpados pelas gigantescas mazelas nacionais: instituições internacionais, associações brasileiras impatrióticas, caboclos e índios que queimam seus roçados e, claro, a imprensa, sempre a imprensa. No mais, demonstrou plena convicção na “confiança do mundo em nosso governo”. Há controvérsias...

Depois do aperitivo do general Augusto Heleno na véspera, ao falar sobre meio ambiente, Bolsonaro ofereceu ao mundo a sua versão sobre a avalanche de críticas internas e externas, das mais variadas origens, à condução da pandemia e ao descaso com a preservação do meio ambiente no Brasil. Para ele, somos apenas “vítimas”.

Do quê? “De uma das mais brutais campanhas de desinformação sobre a Amazônia e o Pantanal”. E por quê? Porque “a Amazônia é sabidamente riquíssima”. Resultado? “O apoio de instituições internacionais a essa campanha escorada em interesses escusos”. Com quem? “Associações brasileiras aproveitadoras e impatrióticas”. Objetivo: “Prejudicar o governo e o próprio Brasil”.

Vamos dar nome aos bois. E, desta vez, eles não são de esquerda! Essa gente tão empenhada em “prejudicar o governo”, como disse Bolsonaro na ONU, ou em “derrubar o presidente”, como garantiu Heleno ao Supremo, são governos, parlamentos e sociedades de grandes democracias aliadas, como Alemanha e França, fundos investidores internacionais, banqueiros nacionais, setores de ponta do agronegócio, ex-ministros da Fazenda, ex-presidentes do Banco Central, ambientalistas de todo o planeta, economistas e a mídia doméstica e internacional.

Para quem compra absolutamente tudo o que o presidente diz, aqui vai uma dúvida: se todo esse universo tão poderoso e influente se uniu para derrubá-lo, como Bolsonaro ainda não caiu? “That’s the question.”

Num tom de confrontação mais ameno do que na estreia na ONU, em 2019, Bolsonaro acabou evitando ataques a organismos internacionais, fazendo apenas rápida referência à reforma da OMC, aliás, liderada pelos Estados Unidos. No mais, fez um relatório – com a sua própria versão, claro –  sobre pandemia e queimadas, acusou o “óleo venezuelano” pelo desastre nas nossas praias e apoiou os processos de paz no Oriente Médio. Aproveitou o ensejo, nesta parte, para elogiar Donald Trump. Isso não poderia faltar!

Um ponto importante do discurso foi quando Bolsonaro destacou que o Acordo Mercosul-União Europeia “possui importantes cláusulas que reforçam nossos compromissos com a proteção ambiental”. Assumiu assim, explicitamente, seu compromisso, e o do Brasil, com as cláusulas ambientais. Anotem, para cobrar.

Algumas pérolas de negacionismo:

1) “Desde o início, alertei, em meu País, que tínhamos dois problemas para resolver: o vírus e o desemprego, e que ambos deveriam ser tratados simultaneamente”.

Não é verdade. Desde o início, o presidente não tratou a pandemia com seriedade, como um problema gravíssimo, que mata milhares. Negou o vírus, combateu o isolamento social, desdenhou de todas as orientações médicas e científicas.

2) “Parcela da imprensa brasileira politizou o vírus, disseminando o pânico entre a população. Sob o lema ‘fique em casa’ e ‘a economia a gente vê depois’, quase trouxeram o caos social ao País”.

Nada mais falso. Graças à mídia, a população teve informações fundamentais sobre a gravidade do vírus e sobre quais as medidas possíveis para evitar o pior. Informações que o governo se recusou deliberadamente a dar, tanto que dois ministros da Saúde se rebelaram.

3) “Nosso governo (...) estimulou, ouvindo profissionais de saúde, o tratamento precoce da doença”.

Em vez de ouvir a OMS, o Ministério da Saúde, epidemiologistas e especialistas na área, o presidente ouviu apenas amigos, aliados e interesseiros para propagandear a cloroquina – que não tem comprovação científica em nenhum lugar do mundo, nem nos EUA.

4) “Temos a matriz energética mais limpa e diversificada do mundo”, “preservamos 66% de nossa vegetação nativa e usando apenas 27% do nosso território para a pecuária e agricultura”, “(temos) a melhor legislação ambiental do planeta”.

É verdade. Graças ao que? Aos governos anteriores, à evolução do setor agropecuário e ao Congresso Nacional, que agora acusam o governo justamente de retrocessos e grave ameaça a essas conquistas.

5) “Os incêndios acontecem (...) onde o caboclo e o índio queimam seu roçado”

Ninguém melhor do que o caboclo e o índio para conhecer e proteger o ambiente, enquanto a Polícia Federal investiga em direção oposta: fazendeiros inescrupulosos.

6) “Os focos criminosos são combatidos com rigor e determinação”.

Será?

7) “Não é só na preservação ambiental que o Brasil se destaca. No campo humanitário e dos direitos humanos, o Brasil vem sendo referência internacional.”

Não é o que os especialistas e as estatísticas dizem...

8) “No primeiro semestre de 2020, apesar da pandemia, verificamos um aumento do ingresso de investimentos (...). Isso comprova a confiança do mundo no nosso governo.”

As manifestações, críticas, cobranças e perplexidade em vários continentes vão no sentido contrário.

9) “Apresentamos ao Congresso duas novas reformas: a do sistema tributário e a administrativa.”

A verdade: não tem reforma tributária, só uma proposta pontual, e a administrativa ficou trancada quase um ano na gaveta, só saiu sob pressão.

10) “O Brasil saúda o Plano de Paz e Prosperidade lançado pelo presidente Donald Trump.”

Usar o fim do discurso na ONU para badalar Trump, que disputa a reeleição daqui a alguns dias, é totalmente fora de propósito. Os democratas nos EUA que o digam.

 

Tudo o que sabemos sobre:
Assembleia Geral da ONUJair Bolsonaro

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Bolsonaro defende combate à ‘cristofobia’; analistas criticam termo e veem aceno eleitoral

Em discurso na abertura da Assembleia-Geral, presidente fez apelo pela ‘liberdade religiosa’ e encerrou sua participação dizendo que o ‘Brasil é um país cristão’

Brenda Zacharias e Fernanda Boldrin, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2020 | 15h23

Em seu discurso na abertura da 75ª Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), o presidente Jair Bolsonaro fez um apelo “pela liberdade religiosa” e pelo combate do que chamou de “cristofobia”. Para especialistas ouvidos pelo Estadão, porém, a fala do mandatário, na prática, foi na contramão do que seria um discurso pela liberdade religiosa. 

“A liberdade é o bem maior da humanidade. Faço um apelo a toda a comunidade internacional pela liberdade religiosa e pelo combate à cristofobia”, afirmou Bolsonaro durante a Assembleia-Geral da ONU. Ao fim do discurso, o presidente ainda disse que “o Brasil é um país cristão e conservador e tem na família sua base”. 

Segundo o advogado Eliennay Gomes Alves, que preside a comissão de Liberdade Religiosa da OAB no Ceará (OAB-CE), o próprio termo “cristofobia” passou a ser mais utilizado no País recentemente, na gestão Bolsonaro. 

Na avaliação de Alves, ao discursar em um fórum internacional, como o das Nações Unidas, não caberia ao presidente de uma nação defender o combate à cristofobia - entendida como a aversão ou perseguição às religiões cristãs -, mas sim à intolerância religiosa como um todo. O advogado avalia ainda que, ao dizer que o Brasil é cristão, Bolsonaro ignora o restante da nação e contribui para a exclusão de outras religiões. 

“O País é laico. As palavras dele (Bolsonaro) não condizem com a realidade da nossa nação, sobretudo porque sabemos que os casos de intolerância, em sua maioria, não se dão em face dos cristãos, mas sim com as religiões de matriz africana”, afirma o advogado. 

Professor de Filosofia Política na FAAP e doutor em ciências da religião, Luiz Bueno segue o mesmo entendimento. “Na voz de um presidente, qualquer fala que tenha alguma associação ou conotação religiosa é sempre perigosa, porque, uma vez que ele demarca um campo religioso no seu discurso, é como se ele excluísse os demais cidadãos que não estão incluídos naquela definição”, afirma. 

Bueno analisa que o trecho do discurso de Bolsonaro em que o presidente fala sobre religião consiste num aceno à sua base eleitoral. “É um discurso que, nacionalmente, se insere nesse contexto de reforçar o apoio de uma base religiosa, com um discurso que tem muito mais um efeito retórico que prático. No plano internacional, é uma tentativa de aproximação com o governo Trump, que também tem certa afinidade com essa retórica.”

Na mesma linha, Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP e responsável pelo Ciclo de Estudos Políticas Públicas à luz da Doutrina Social da Igreja, diz que a fala de Bolsonaro na ONU procura fazer um aceno às lideranças religiosas cristãs do País: “Quer ser um discurso simpático a esses formadores de opinião, que ele considera fundamentais para o apoio popular a seu governo”. 

Neto pontua que a origem deste movimento se explica em parte pela ascendência de líderes religiosos em momentos de descrédito com os políticos, como também ocorre em outros países. “Quanto mais a sociedade laica entra em crise, maior a tendência de se buscar uma orientação nas lideranças religiosas locais, que costumam acompanhar as pessoas em seus problemas pessoais, em seus momentos de aflição e angústia”, afirma. 

O depoimento de Bolsonaro foi previamente gravado e enviado à conferência, que pela primeira vez acontece de forma remota, devido às limitações impostas pela pandemia do novo coronavírus.

Para Entender

Aos 75 anos, ONU enfrenta desconfiança, ataques populistas e incertezas

Sistema das Nações Unidas completa 75 anos em meio à pandemia de covid-19 e busca fortalecer agenda global baseada na cooperação internacional e desenvolvimento sustentável

Entenda, a seguir, o que significa o termo cristofobia e a situação da prática no Brasil.

O que significa cristofobia?

A cristofobia pode ser definida como o conjunto de práticas de intolerância contra as religiões cristãs. De acordo com a Portas Abertas, entidade cristã que mapeia o contingente de cristãos perseguidos no mundo, as limitações são motivadas principalmente por:

  • governos autoritários;
  • suspeita por parte de membros da sociedade de práticas que fogem ao número majoritário de fiéis em seus países;
  • ações de grupos extremistas; e
  • dominação oficial e cultural de uma única religião.

Cristofobia no Brasil e no mundo

No Brasil, a liberdade à prática religiosa está prevista na Constituição, nos artigos 5 e 9, além da Lei Nº 7.716/89, que define os crimes resultantes de preconceito de cor, raça, etnia, religião ou procedência nacional.

“VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias” - Art. 5º da Constituição Federal

De acordo com o Relatório da Liberdade Religiosa, elaborado pela organização internacional Ajuda à Igreja que Sofre (Aid to the Church in Need) e publicado em 2018, destacam-se como países que praticam perseguição a grupos cristãos a China, a Índia, a Coreia do Norte e a Indonésia, entre outros; outros Estados, como a Rússia, Turquia e Egito, foram encontradas evidências claras de práticas discriminatórias. O Brasil, porém, não foi classificado no relatório como foco de tais práticas.

Na seção dedicada ao País, a organização destaca os relatórios elaborados pela Assessoria de Direitos Humanos e Diversidade Religiosa, do Ministério dos Direitos Humanos e publicado em 2016, e o de denúncias ao 'Disque 100'. Em ambos, porém, o grupo com o maior número de queixas de ataques foi o afro-brasileiro, representando cerca de 41,5% a 63,3% das vítimas com credo identificado registradas. Entre os ataques mais frequentes, estão agressões verbais e depredação de espaços sagrados.

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Pressionado, Bolsonaro ouviu auxiliares para modular discurso na ONU

Presidente decidiu que era momento de fazer defesa do governo e não de ataque, como ocorreu no ano passado

Jussara Soares, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2020 | 16h06

BRASÍLIA – O discurso do presidente Jair Bolsonaro nesta terça-feira, 22, na abertura dos debates da 75ª Assembleia Geral das Organizações das Nações Unidas (ONU) passou por ajustes para, na visão de seus auxiliares, ter um tom menos beligerante do que em sua estreia naquele palanque, no ano passado. Com as mudanças, as críticas à atuação da ONU, o posicionamento contra o aborto e a defesa da liberdade de expressão na internet ficaram de fora. As críticas ao socialismo também perderam espaço. Em 2019, a palavra foi citada cinco vezes, mas nenhuma neste ano.

Pressionado tanto pela política ambiental quanto pela condução da pandemia do coronavírus, Bolsonaro decidiu, junto com assessores, que era o momento de fazer um discurso de defesa do governo e não de ataque, como ocorreu no ano passado. De acordo com auxiliares, em 2019 Bolsonaro precisava se apresentar ao mundo e mostrar as convicções de sua administração. Neste ano, porém, ao se ater a questões pontuais, quis evitar que o caldo de críticas engrossasse ao falar de outros temas.

Não foi o suficiente. O discurso foi criticado por opositores e entidades ligadas aos Direitos Humanos e Meio Ambiente por negar a gravidade da pandemia e do desmatamento. Na conferência, Bolsonaro repetiu sua narrativa contra o isolamento social e citou a hidroxicloroquina, medicamento sem eficácia comprovada para o tratamento da covid. Minimizou os incêndios em áreas protegidas, atribuiu a “índios e cablocos” queimadas florestais e disse que o Brasil tem políticas de “tolerância zero” com o crime ambiental.

Um dos motivos para os ajustes foi justamente as cobranças diante de queimadas recordes nas florestas, que ameaçam acordos comerciais. Bolsonaro evitou fulanizar os críticos de sua política ambiental como fez no ano passado, quando citou França e Alemanha, mas não deixou de contra-atacar, dizendo que o Brasil é vítima “de uma das mais brutais campanhas de desinformação sobre a destruição ambiental da Amazônia e do Pantanal”.

“A Amazônia brasileira é sabidamente riquíssima. Isso explica o apoio de instituições internacionais a essa campanha escorada em interesses escusos que se unem a associações brasileiras, aproveitadoras e impatrióticas, com o objetivo de prejudicar o governo e o próprio Brasil”, disse o presidente.

No início deste mês, foi lançada uma campanha mundial chamada “Defund Bolsonaro”, que alertou para a destruição na Amazônia e cobrou países e empresas a retirar financiamento ao governo Bolsonaro como meio de evitar queimadas. Um vídeo com áudio e legenda em inglês mostra imagem das florestas em chamas e diz que incêndios na Amazônia são “atos criminosos apoiados pela administração Bolsonaro e pelos grandes negócios”. A campanha, que tem a participação de ONGs brasileiras, irritou o Palácio do Planalto.

O presidente aproveitou para defender a manutenção de acordos comerciais e disse que eles reforçam o compromisso com o meio ambiente. “Seguimos comprometidos com a conclusão dos acordos comerciais firmados entre o Mercosul e a União Europeia e com a Associação Europeia de Livre Comércio. Esses acordos possuem importantes cláusulas que reforçam nossos compromissos com a proteção ambiental”, disse. 

No fim de agosto, o vice-presidente Hamilton Mourão, coordenador do Conselho da Amazônia, afirmou que o acordo União Europeia-Mercosul “parece começar a fazer água.” Em entrevista ao Estadão, em setembro, o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), concordou com a avaliação de Mourão, atribuindo a ameaça ao que chamou de “propaganda negativa que estão fazendo da Amazônia.

Com as mudanças, foram deixadas de lado críticas mais fortes à Venezuela, Cuba, Nicarágua e ao Foro de São Paulo. O país governado por Nicolás Maduro foi citado duas vezes, lembrando as manchas de óleo no litoral brasileiro, em 2019. “O Brasil foi vítima de um criminoso derramamento de óleo venezuelano, vendido sem controle, acarretando severos danos ao meio ambiente e sérios prejuízos nas atividades de pesca e turismo”, destacou Bolsonaro.

Em outro momento, o presidente foi sucinto na menção ao regime de Maduro ao enfatizar a atuação do Brasil no campo humanitário e dos direitos humanos, citando o apoio aos refugiados venezuelanos. “A Operação Acolhida, encabeçada pelo Ministério da Defesa, recebeu quase 400 mil venezuelanos deslocados devido à grave crise político-econômica gerada pela ditadura bolivariana”, disse.

No ano passado, Bolsonaro usou a ironia sobre a situação do país vizinho. “A Venezuela, outrora um país pujante e democrático, hoje experimenta a crueldade do socialismo. O socialismo está dando certo na Venezuela! Todos estão pobres e sem liberdade!”.

Em 2019, o presidente também disse que o Brasil “esteve muito próximo ao socialismo” e que seu governo tinha a missão de “reconquistar a confiança no mundo”. Na ocasião, usou tom ainda mais duro: “O Foro de São Paulo, organização criminosa criada em 1990 por Fidel Castro, Lula e Hugo Chávez para difundir e implementar o socialismo na América Latina, ainda continua vivo e tem que ser combatido.” Embora constasse da primeira versão do discurso, o tema não apareceu neste ano.

A menção à tecnologia do 5G foi considerada no governo como o recado ideológico mais direto. O leilão do 5G no Brasil, previsto para 2021, é palco de disputa tecnológica entre Estados Unidos e China. “O Brasil está aberto para o desenvolvimento de tecnologia de ponta e inovação, a exemplo da indústria 4.0, da inteligência artificial, nanotecnologia e da tecnologia 5G, com quaisquer parceiros que respeitem nossa soberania, prezem pela liberdade e pela proteção de dados”, afirmou o presidente.

Sem citar a China, Bolsonaro disse que “a pandemia deixa a grande lição de que não podemos depender apenas de umas poucas nações para produção de insumos e meios essenciais para nossa sobrevivência.” A crise sanitária expôs a dependência mundial de itens de saúde chineses, mas Bolsonaro evitou crítica direta.

Em um texto-base para o discurso, ao qual o Estadão teve acesso, havia uma defesa contra o aborto. Neste rascunho, havia uma sugestão para que o presidente exaltasse a Parceria para as Famílias, iniciativa conservadora de Brasil, Hungria, Polônia e Estados Unidos, com o objetivo de modificar o debate sobre educação sexual e gênero em organizações internacionais. Os assuntos, porém, foram suprimidos da versão final.

No material produzido como guia para o pronunciamento na ONU, havia uma sugestão para que Bolsonaro mencionasse que “a pandemia demonstrou o papel central e primário que cabe aos Estados Unidos na solução de problemas mundiais”, mas o trecho também foi retirado.

Em discurso na ONU, Bolsonaro faz aceno a Trump

Entretanto, a 42 dias das eleições americanas, o brasileiro não deixou de fazer um aceno ao presidente Donald Trump, que tenta um segundo mandato. E elogiou a iniciativa lançada pelo líder americano como solução para o conflito entre Israel e a Palestina. “O Brasil saúda também o Plano de Paz e Prosperidade lançado pelo Presidente Donald Trump, com uma visão promissora para, após mais de sete décadas de esforços, retomar o caminho da tão desejada solução do conflito israelense-palestino”, disse Bolsonaro no vídeo exibido nesta terça-feira na Assembleia-Geral.

A perda de espaço de auxiliares ligado ao guru Olavo de Carvalho no governo também contribuiu para que temas mais ideológicos tivessem peso menor no discurso do presidente. Em 2019, o assessor de Assuntos Internacionais, Filipe Martins, teve participação maior no resultado final. Neste ano, porém, o auxiliar teve uma colaboração menor no texto construído pelos ministros Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Fernando Azevedo (Defesa), além do secretário especial de Assuntos Estratégicos, o almirante Flávio Rocha. O ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, também foi chamado a opinar.

O enxugamento do discurso ocorreu, ainda, por uma questão de tempo. Na estreia, Bolsonaro falou por 31 minutos na sede da ONU. Dessa vez, por causa da pandemia do coronavírus, enviou um vídeo de cerca de 15 minutos.

Nesta manhã, o presidente assistiu à transmissão do seu discurso pela TV Brasil, no Palácio do Planalto, acompanhado de ministros e parlamentares. Estiveram presentes os ministros Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Paulo Guedes (Economia), Fábio Faria (Comunicações) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo), além do assessor de Assuntos Internacionais, Filipe Martins. 

Os líderes do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros (PP-PR); no Senado, senador Fernando Bezerra (MDB-PE), e no Congresso, Eduardo Gomes (MDB-TO), também assistiram ao discurso, junto com Bolsonaro. Ao lado dele estiveram também o deputado Arthur Lira (PP-AL), um dos líderes do Centrão, e o senador Márcio Bittar (MDB-AC), relator do Orçamento. O grupo já estava em reunião no Planalto pouco antes do discurso de Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU.

Assista a íntegra do discurso de Bolsonaro na Assembleia-Geral da ONU em 2020

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Discurso de Bolsonaro na ONU é criticado por organizações ambientais

Membros de entidades afirmam que fala do presidente não é condizente com a realidade e arranha imagem do Brasil no exterior

Redação, O Estado de S. Paulo

22 de setembro de 2020 | 16h42

O discurso de Jair Bolsonaro nesta terça-feira, 22, na 75ª Assembleia das Nações Unidas (ONU) teve grande impacto negativo entre organizações ambientais. Durante sua fala, o presidente disse que os incêndios no Pantanal e na Amazônia vêm sendo usados em uma  "brutal campanha de desinformação" para atingir seu governo, e afirmou que as queimadas são resultado da ação de índios e caboclos. 

Mariana Mota, coordenadora de Políticas Públicas do Greenpeace Brasil, afirma que Bolsonaro agrava a difícil situação enfrentada pelo Brasil ao minimizar o drama ambiental, piorando ainda mais a imagem do Brasil no exterior. “Lamentavelmente, já estamos habituados a ouvir o presidente faltar com a verdade, desqualificar a ciência e buscar culpabilizar terceiros em vez de assumir a responsabilidade constitucional que possui”, diz. 

“Ao invés de negar a realidade, em meio à destruição recorde dos biomas brasileiros,  o governo deveria cumprir seus deveres constitucionais em prol da proteção ambiental e apresentar um plano eficiente para enfrentar os incêndios que consomem o Brasil”, completa. 

Secretário-executivo do Observatório do Clima, Marco Astrini disse que Bolsonaro está "arrasando" com a imagem internacional do Brasil, além de ser uma real ameaça para a economia brasileira pela maneira como conduz os problemas enfrentados pelo País. “Ao arrasar a imagem internacional do Brasil como está arrasando nossos biomas, Bolsonaro prova que seu patriotismo sempre foi de fachada”, disse. “O Brasil pagará durante muito tempo a conta dessa irresponsabilidade. Temos um presidente que sabota o próprio país.”

Gabriela Yamaguchi, diretora de Sociedade Engajada do WWF-Brasil, disse que o discurso de Bolsonaro foi cheio de “acusações infundadas e ilações sem base científica”, afirmando ainda que postura não é condizente com o papel de chefe de estado. “Como um roteiro de ficção, o discurso uniu palavras-chave das Nações Unidas com descrições de um Brasil que não existiu em 2020, em completo negacionismo da realidade do país e desconsiderando a urgência e seriedade dos desafios globais que o secretário-geral da ONU, Antonio Guterrez, tão bem descreveu em sua fala.”

Diretora executiva da Oxfam Brasil, Katia Maia também fez duras críticas à fala de Bolsonaro. “O governo atual se especializou em disseminar a 'pós-verdade' para eximir-se da responsabilidade pelos graves problemas que o país enfrenta. E isso em nada contribui para que tenhamos as soluções necessárias.”

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Bolsonaro faz discurso de vítima na área ambiental e cita ‘interesses escusos’

Na ONU, presidente usa o mesmo argumento que tem sido ecoado pela base militar que ocupa o Palácio do Planalto e que é alardeado pelo Ministério da Agricultura e pelo Meio Ambiente

André Borges, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2020 | 12h18

BRASÍLIA - Não foi apenas uma defesa do governo para tentar sustentar a tese de que tem atuado na proteção do meio ambiente. Em seu discurso de abertura da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), o presidente Jair Bolsonaro partiu para cima dos outros países e suas instituições, acusando-os de “interesses escusos” em prejudicar o agronegócio brasileiro.

No momento em que o Pantanal registra o maior índice de queimadas desde 1998, quando os incêndios passaram a ser medidos, e a Amazônia volta a se aproximar dos recordes alarmantes de destruição ocorridos no ano passado, Bolsonaro diz ao mundo que “somos vítimas de uma das mais brutais campanhas de desinformação sobre a Amazônia e o Pantanal”.

O argumento é o mesmo que tem sido ecoado pela base militar que ocupa o Palácio do Planalto e que é alardeado pelo Ministério da Agricultura e pelo próprio Meio Ambiente: países incomodados com a competitividade do agronegócio brasileiro - principalmente europeus - querem prejudicar ao máximo a imagem do Brasil, afetando diretamente seus negócios.

“Nosso agronegócio continua pujante e, acima de tudo, possuindo e respeitando a melhor legislação ambiental do planeta”, disse Bolsonaro, em seu vídeo gravado. “O Brasil desponta como o maior produtor mundial de alimentos. E, por isso, há tanto interesse em propagar desinformações sobre o nosso meio ambiente. A Amazônia brasileira é sabidamente riquíssima. Isso explica o apoio de instituições internacionais a essa campanha escorada em interesses escusos que se unem a associações brasileiras, aproveitadoras e impatrióticas, com o objetivo de prejudicar o governo e o próprio Brasil.”

Bolsonaro disse que “os focos criminosos são combatidos com rigor e determinação”, ao mesmo tempo em que se sabe que os programas que existiam para combater os incêndios foram eliminados por seu governo. O Ibama e o Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio), órgãos que estão na linha de frente dessas ações, estão com seus orçamentos depauperados, com sucateamento de infraestrutura e de servidores, assistindo aos recursos destinados à proteção da Amazônia serem drenados para projetos militares, por orientação do Ministério da Defesa. O próprio ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, em plena crise aguda dos incêndios florestais, foi a público dizer que teria de encerrar todas as atividades de fiscalização e proteção das áreas, porque não tinha mais recursos.

Bolsonaro disse que mantém uma “política de tolerância zero com o crime ambiental”, mas ordena a demissão de agentes do Ibama que, no exercício da lei, destroem máquinas usadas pelo crime organizado que derruba a floresta.

Há contradições flagrantes em seu discurso. Ao mesmo tempo em que diz que “os incêndios acontecem praticamente, nos mesmos lugares, no entorno leste da Floresta, onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência, em áreas já desmatadas”, afirma, sem seguida, que “a Região Amazônica é maior que toda a Europa Ocidental. Daí, a dificuldade em combater, não só os focos de incêndio, mas também, a extração ilegal de madeira e a biopirataria”.

É sabido há décadas que o desmatamento é o primeiro passo para a queimada. O criminoso ambiental entra na mata, derruba as madeiras nobres, retira esse material e derruba o resto da vegetação, para em seguida, na época de seca, essa área ser queimada. É quando ocorrem as etapas de abertura de pastagem e grilagem de terras. É assim em toda a Amazônia e isso ocorre todos os anos.

Uma nota técnica divulgada em agosto pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), órgão que estuda a região há 25 anos, mostra que a concentração de focos de incêndio na Amazônia não acontece apenas em áreas já desmatadas da região. O levantamento realizado a partir de dados oficiais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) revela que 30% do fogo registrado na Amazônia em 2019 foi incêndio florestal, ou seja, ocorreu em área protegida. Outros 34% estão relacionados a desmatamentos recentes e os demais 36% em áreas já desmatadas. É um mito, portanto, que não haja expansão da área desmatada.

O presidente diz ao mundo que "as grandes queimadas são consequências inevitáveis da alta temperatura local, somada ao acúmulo de massa orgânica em decomposição”. Se há alguma responsabilidade humana nos crimes, ele culpa o “caboclo” e os “índios”. Basta observar um mapa das terras indígenas demarcadas na Amazônia para ver que é dentro delas que a vegetação, graças a essa demarcação, segue praticamente intacta e protegida. Não por acaso, as terras indígenas são hoje os principais alvos dos madeireiros.

Ao apontar o dedo para o mundo, Bolsonaro alimenta as chances de conflitos externos, acirra os ânimos com lideranças e investidores internacionais, ao mesmo tempo em que exime de seu próprio governo a responsabilidade pelo desastre da política ambiental em vigor no Brasil de hoje.

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

‘Se a mídia está criticando, é porque o discurso foi bom’, diz Bolsonaro

A apoiadores, presidente retoma crítica à imprensa feita em fala na abertura da Assembleia-Geral das Nações Unidas

Matheus de Souza e Elisa Calmon, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2020 | 19h51

BRASÍLIA – O presidente Jair Bolsonaro manteve o tom hostil adotado no discurso feito, pela manhã, na abertura da Assembleia-Geral das Nações Unidas e retomou as críticas à imprensa em encontro com apoiadores no final da tarde desta terça-feira, 22. “Se a mídia está criticando é porque o discurso foi bom”, disse aos simpatizantes antes de entrar no Palácio da Alvorada, sua residência oficial.

No pronunciamento, sem citar os quase 140 mil mortos pela pandemia de covid-19 no País, o presidente afirmou que parcela da imprensa brasileira politizou o vírus e disseminou o pânico. “Sob o lema ‘fique em casa’ e ‘a economia a gente vê depois’, quase trouxeram o caos social ao País”, afirmou, em vídeo divulgado no evento.

Bolsonaro ouviu de um apoiador que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, “depois do seu discurso, matou a pau” no pronunciamento também feito na Assembleia-Geral das Nações Unidas. “Confirmou”, emendou Bolsonaro.

Apesar de afirmar várias vezes que não apoiará candidatos a prefeito nas eleições municipais deste ano, Bolsonaro elogiou, a uma apoiadora que citou o pleito em Manaus, o candidato Coronel Menezes (Patriota). “Tem candidato a prefeito bom em Manaus, ou não? Tem um careca lá que eu acho que é bom, não é não? Tem o Alfredo Menezes, coronel do exército.”

Menezes é coronel de reserva do Exército e assumiu, durante o governo Bolsonaro, a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa). Deixou o cargo em junho para se candidatar. Ele é um dos 11 postulantes à prefeitura de Manaus que ainda deverão passar pelo crivo da Justiça Eleitoral antes de serem oficializados como candidatos.

Assista a íntegra do discurso de Bolsonaro na Assembleia-Geral da ONU em 2020

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Senadores reagem a discurso de Bolsonaro na ONU e pedem recursos para o Pantanal

O tema provocou uma união entre ruralistas e ambientalistas em prol de medidas a favor da preservação

Daniel Weterman, O Estado de S. Paulo

22 de setembro de 2020 | 20h15

BRASÍLIA – O discurso do presidente Jair Bolsonaro na Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) foi alvo de críticas no Senado nesta terça-feira, 22. Após seis meses sem reuniões presenciais, os senadores usaram a sessão para atacar o pronunciamento do chefe do Executivo e cobrar o governo por medidas efetivas direcionadas ao Pantanal e à Amazônia.

Representantes do agronegócio manifestaram preocupação com os efeitos do discurso presencial no exterior. A necessidade de reduzir o desmatamento passou a ser alvo de pressão internacional sobre o Brasil em função da destruição da floresta. O tema provocou uma união inédita entre ruralistas e ambientalistas em prol de medidas a favor da preservação.

No discurso, Bolsonaro afirmou que os incêndios no Pantanal e na Amazônia são usados em uma “brutal campanha de desinformação” com o objetivo de atacar o governo. “Na reunião da ONU, perdeu-se uma grande oportunidade para que o presidente pudesse esclarecer as condições do Brasil”, disse a senadora Kátia Abreu (PP-TO). “Não nos atrapalhe, o senhor (Bolsonaro) não pode fazer isso. O senhor precisa levar a sério esse assunto pela gravidade que ele requer. Nós não podemos perder no pódio da agricultura mundial o primeiro lugar.”

O Senado criou uma comissão externa para acompanhar a situação do Pantanal. Além disso, há pressão para criação de uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) sobre o tema. Em meio às queimadas, Bolsonaro defendeu seu governo durante o discurso o ao dizer que o Brasil é um dos países que mais preservam suas florestas tropicais, mas desconsiderou que o país tem a maior perda desse tipo de cobertura vegetal em 2019.

Os senadores discutem elaborar um estatuto para o Pantanal com leis específicas para preservação da floresta. Além disso, querem uma revisão dos recurso do Fundo Constitucional do Centro-Oeste (FCO), que abaste projetos na região com recursos públicos. “Caso contrário, vai ter tragédia todos os anos, não só lá no Pantanal, como em grande parte da fronteira da Amazônia”, afirmou o senador Jayme Campos (DEM-MT). 

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), por outro lado, evitou comentar o discurso presidencial, mas afirmou que o Congresso está focado em dar respostas à destruição das florestas. Alcolumbre declarou que não acompanhou o pronunciamento. “Se ele fez esse discurso, eu não acompanhei. Eu sei que nós estamos fazendo e todo dia lutando para dar respostas de proteção das nossas florestas e respeitando a legislação brasileira.”

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Lula critica fala de Bolsonaro à ONU: ‘Governo ignorou a ciência e desprezou a vida’

Ex-presidente faz ‘discurso paralelo’, cita número de mortes no Brasil durante a pandemia e sugere medidas contra desmatamento

Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2020 | 19h12

Poucas horas depois de o presidente Jair Bolsonaro falar que seu governo é vítima de uma campanha nacional de desinformação na abertura da Assembleia-Geral da ONU, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez seu próprio “discurso” à entidade em um canal do YouTube.

Falando como se fosse o presidente do Brasil, Lula fez uma série de promessas típicas de palanque durante uma disputa eleitoral e afirmou que “as únicas palavras sensatas do discurso de Jair Bolsonaro na ONU foram as primeiras: o mundo precisa mesmo conhecer a verdade. Mas na boca de uma pessoa que não tem compromisso com a verdade até esta frase soa falsa”.

“O Brasil se envergonha de ter tido, ao longo desta gravíssima pandemia, um governo que ignorou a ciência e desprezou a vida, o que resultou em mais de 136 mil mortes e milhões de contaminados pela covid”, disse o ex-presidente no início de seu “discurso”.

A exemplo do que fez na Assembleia-Geral da ONU de 2003, a primeira na qual discursou, o ex-presidente destacou a necessidade de ações para o combate à fome.  “Vergonha das vergonhas: 800 milhões de crianças passam fome todos os dias, no mesmo planeta em que uns poucos privilegiados nem sabem como gastar – ou sequer como contar – suas inacreditáveis fortunas”.

Entre outras coisas, Lula prometeu decretar o “desmatamento zero” na Amazônia com proibição por três anos de queimadas e derrubada de árvores, deslocar para o combate a incêndios no Pantanal os 4 mil militares que estão na fronteira com a Venezuela, recompor o orçamento do Ministério da Saúde, manter o auxílio emergencial de R$ 600, abrir linhas de crédito nos bancos públicos para pequenas e médias empresas, retomar a reforma agrária e retomar as obras paradas. 

Muitas das promessas estão no Plano de Reconstrução e Transformação do Brasil, anunciado na véspera, parte de um movimento iniciado com a fala do ex-presidente no dia 7 de setembro na qual se colocou “à disposição” para combater o bolsonarismo.

Condenado em segunda instância nos casos do triplex do Guarujá e do sítio de Atibaia, Lula está impedido de disputar eleições pela lei da Ficha Limpa. Ele pode reaver seus direitos políticos se o Supremo Tribunal Federal (STF) acatar pedido de seus advogados para que o ex-juiz Sérgio Moro seja declarado suspeito para julgar casos envolvendo o petista.

Assista a íntegra do discurso de Bolsonaro na Assembleia-Geral da ONU em 2020

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.