Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Na ‘Ofensiva de Páscoa’ do bolsonarismo raiz, governo vive mais confusão interna

Carlos Bolsonaro repete ataques ao vice Mourão, que assume tom apaziguador com filho do presidente, mas desqualifica o ‘ideólogo’ Olavo de Carvalho; polêmica ajuda a desviar a atenção das dificuldades que o governo enfrenta

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2019 | 14h35

Caro leitor:

A Tancredo Neves (1910-1985), presidente que jamais chegou a governar o País, é associada a frase segundo a qual na política tudo o que é desnecessário  é um erro. A ideia é que, em sua atividade, os políticos só deveriam fazer e falar o indispensável ao exercício do poder ou à luta por ele. É sob essa ótica que devemos tentar entender o sentido daquela que poderíamos chamar de “Ofensiva da Páscoa”  do “bolsonarismo raiz” que vimos nos últimos dias.

A blitzkrieg nas redes sociais abriu novo foco de tensão no governo, protagonizado pelo filho Zero Dois, vereador Carlos Bolsonaro (PSC), e pelo autoproclamado filósofo Olavo de Carvalho. Tem como alvo o loquaz vice-presidente, general da reserva Hamilton Mourão, mas também os militares que formam um dos pilares de governo do presidente Jair Bolsonaro. Pergunta-se: o confronto é necessário? Para que (e a quem) serve?

Escolado no velho PSD, que só se reunia quando a decisão já estava tomada, e apesar de ter passado pelas crises de 54 e 64 e pela oposição à ditadura, Tancredo provavelmente teria dificuldade para entender a belicosa política brasileira de hoje. Nela, um suposto filósofo, sem obra relevante nem mandato, radicado nos EUA, espinafra no YouTube as Forças Armadas brasileiras, um dos pilares do governo do presidente Jair Bolsonaro.

Com seus insultos, abriu assim a polêmica com Mourão, que envolveu Carlos e rendeu por dias. Pergunta-se: 1) por que a catilinária de Olavo foi para o perfil do presidente da República?; 2) por que, depois de apagado, o vídeo foi repostado na rede de Carlos? 3) por que Olavo depois voltou à carga?;  4) por que o vereador entrou com tanta força no caso?; e 5) Qual a relevância de Olavo - para qualquer assunto?

Os ataques de Olavo e Carluxo aos militares e a Mourão não foram os primeiros, nem parecem aleatórios. Cheiram a estratégia urdida com esmero no núcleo familiar-palaciano. O próprio Jair Bolsonaro suspeita da movimentação de Mourão, que para ele se apresenta como um presidente paralelo, segundo demonstraram as repórteres Vera Rosa e Tânia Monteiro. Atacado, o vice não recuou diante dos ataques de Olavo, a quem deu pronta resposta. Em tom irônico, lembrou o início de carreira do ideólogo do bolsonarismo - na astrologia - e recomendou que Olavo se limitasse ao mundo da previsão do futuro pelos astros. O episódio repercutiu entre os militares, como analisou Roberto Godoy na TV Estadão

Desde a campanha eleitoral, o vice se empenhou no processo de, como dizem especialistas em marketing, reposicionar sua imagem. Durante a corrida pelo Planalto, há poucos meses, os brasileiros conheceram outro Mourão. O militar então defendeu uma Constituição imposta, em molde autoritário, gerando polêmica, e o fim do décimo terceiro salário. Empossado, mudou. Agora ponderado e até bonachão, recebe os repórteres como uma antiga rede de supermercados do Rio: com água gelada e cafezinho. E com notícia, que é disso que os jornalistas gostam.

Evidentemente, a mudança surpreendeu e irritou Bolsonaro, seus filhos e seus seguidores mais apaixonados. Mourão foi quase um vice improvisado, escolhido para representar na chapa o nanico PRTB, depois que Janaína Paschoal rejeitou o convite. Com um presidente com  dificuldades para se expressar em público, o vice  falador conquistou  espaço, mas gerou mal-estar para Bolsonaro e seu entorno. Passou a ser visto como um conspirador, de olho na cadeira do chefe de Estado.

Até seu impeachment foi pedido, mas o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), mandou o requerimento para o arquivo. Os três dias seguidos de tuítes azedos  de Carlos após a Páscoa foram consequência dessa crescente hostilidade a Mourão no coração do bolsonarismo. Valeu tudo: mágoas da época do atentado contra o hoje presidente, durante a campanha; ataques a um convite recebido pelo vice; e críticas à atuação de Mourão desde a transição.

Ele teria, disse o Zero Dois, “interesse crocodilal” no fracasso do governo. Carluxo, porém, negou que estivesse atacando o vice: "São fatos", disse. Teve o apoio do mano Eduardo, em ofensiva analisada em podcast aqui. Porém, Mourão adotou, com o filho do presidente, tom conciliador. “Quando um não quer, dois não brigam”, disse Mourão.

O ambiente de bate-boca interno encobriu um pouco os problemas enfrentados pelo governo, cuja base ainda está fragmentada e confusa. Já o presidente foi errático. Desautorizou Olavo, mas não Carlos, o que levantou a suspeita de que, sim, há plano e objetivo na ação do Zero Dois. A conturbada semana, assim,  se encerrou com declarações conciliadoras do chefe de governo, - mas com a impressão de que o confronto ocorrido, do ponto de vista do Planalto, era visto como necessário

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