Na luta pelo poder, o jogo de mãos sujas

Ataques à vida privada, boatos, falsas denúncias: o vale-tudo eleitoral tem tradições enraizadas na vida política brasileira

O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2010 | 00h01

O rosto era de uma mulher bonita e ainda na casa dos 30 anos, mas seu olhar grave e sua boca sem sorrisos denotavam mágoas guardadas por muito tempo que, naquele momento, explodiam publicamente. No fim do disputado segundo turno da campanha eleitoral de 1989, entre Fernando Collor (PRN) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o locutor do programa eleitoral de Collor anunciara que o telespectador conheceria Miriam Cordeiro, "ex-mulher do Lula e mãe da filha dele". O que veio depois foi um depoimento no qual o candidato da esquerda foi acusado de supostamente ter oferecido dinheiro a Miriam para que abortasse a criança, ser um pai relapso e até odiar negros - em uma manobra que virou exemplo clássico do jogo sujo nas campanhas brasileiras.

 

"Apoiar o Lula para mim seria trair a mim mesma", disse Miriam, no depoimento de poucos minutos, marcado por uma música de fundo dramática, típica dos programas populares, e com uma foto do candidato. "Como é que posso apoiar um homem que me ofereceu dinheiro quando soube que eu estava grávida de um filho dele, ofereceu dinheiro para mim (sic) abortar?" Mais adiante, Miriam disse que após o parto o hoje presidente só teria ido visitá-la no dia seguinte, no quarto. "Aí eu pedi que todos saíssem e quis ficar com ele sozinha um minuto. (...) Eu peguei a Lurian, entreguei no colo dele e falei: ‘Agora, você mata. Porque quando ela estava na minha barriga, eu não permiti’." Mais adiante, Miriam, em tom dramático, perguntou: "Vale a pena votar no Lula?"

 

Até hoje, os petistas atribuem a derrota de Lula ao ataque de Miriam, ordenado por Collor - agora, ironicamente, um aliado do governo petista.

 

Manobra

 

Vinte e um anos depois, a cientista política Alessandra Aldé, professora da Faculdade de Comunicação Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e especializada em estudos de mídia e política, adverte, porém, para os limites do jogo sujo nas campanhas. Segundo ela, o eleitor gosta de ter esse tipo de informação, mas repudia o candidato que a usa contra adversários. Por isso, o mais comum é que os ataques sejam feitos por meio de vazamentos para a imprensa sem identificação de autoria ou ataques pela internet, por exemplo. No caso Miriam, diz, seu sucesso teria sido limitado e possibilitado por outros elementos que envolviam a campanha em 1989.

 

"Houve uma mobilização de forças conservadoras, com uma cobertura terrorista que advertia para o comunismo, para o perigo de um governo vermelho, e Collor era apresentado como modernizante, que poderia levar o Brasil para o nível dos Tigres Asiáticos", diz. "E aí teve algumas coisas: o último debate do segundo turno na Rede Globo, em que Lula foi mal, e a edição do Jornal Nacional no dia seguinte. Miriam Cordeiro pegou na questão de valores. E havia a reação anti-Lula, que só em 2002 ele conseguiu reverter."

 

Ligação. A tentativa de influenciar uma eleição com uma ação espetacular de mídia, porém, não era novidade na história das eleições presidenciais brasileiras. Um dos episódios mais rumorosos do gênero foi o da chamada Carta Brandi, um documento que supostamente comprovaria uma ligação entre peronistas e trabalhistas brasileiros - até mesmo na preparação da luta armada pelo poder - , que agitou a disputa 34 anos antes, em 1955, mas se revelou falsa.

 

O texto, supostamente de 5 de agosto de 1953, era atribuído ao deputado argentino Antonio Jesús Brandi e dirigido a João Goulart - ministro do Trabalho na época em que foi presumivelmente escrito e candidato a vice-presidente da República pelo PTB em 1955. Segundo John W. F. Dulles afirma em Carlos Lacerda - A vida de um lutador (Nova Fronteira, p. 215-219), a carta dizia que seu suposto portador, Ignácio Pinedo, estava autorizado pelo vice-governador da província de Corrientes, Clementino Forte, ex-líder da Confederação Nacional do Trabalho, a transmitir verbalmente a Goulart recomendações de um ministro do governo (peronista) argentino sobre "brigadas de choque obreras". Também aludia a instruções delicadas para serem dadas por escrito e a "la mercadoria adquirida por S. Excia. en la Fábrica Militar de Córdoba" - uma insinuação de compra clandestina de armas. A carga deveria ser disfarçada em gêneros alimentícios e confiada a um aliado de Goulart.

 

"A história, estapafúrdia e cheia de incongruências, cheirava a provocação", afirmou, em seu livro de memórias, Valeu a pena (Nova Fronteira, p. 141), o ex-deputado udenista Mário Martins. "Fui a (Carlos) Lacerda e aconselhei-o a encarar com muitas reservas o material que tinha em mãos (...) Mas ele seguiu em frente."

 

Apesar das advertências (feitas também por outras lideranças udenistas) Lacerda tornou a carta pública, no rádio e na televisão, em 16 de setembro, pouco antes da queda de Juan Perón do governo argentino, e a publicou em seu jornal, a Tribuna da Imprensa, no dia seguinte. Investigações, porém, comprovaram que o documento fora forjado. Apontados como responsáveis pela falsificação, os argentinos Alberto Mestre Cordero e Fernando Malfussi acabaram presos. Para Martins, Lacerda não agiu por má-fé, mas porque, por ser impulsivo, não checou devidamente a história. Juscelino Kubitschek (PSD) e Goulart foram eleitos.

 

Não foi assim, porém, em 1945. Na disputa entre o general Eurico Dutra, candidato do PSD com apoio do ex-ditador Getúlio Vargas, e o brigadeiro Eduardo Gomes, da UDN, um líder do getulismo, Hugo Borghi, distorceu declarações do udenista, que foi acusado de ter dito que não queria o "voto dos marmiteiros" - os operários. A declaração "pegou", Dutra venceu. E virou festa: até uma marchinha, sucesso no carnaval de 1946, Marmiteiro, de Murilo Caldas, aludiu ao pessoal da marmita.

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