Na Junta Comercial do RJ, Dantas é o gestor do Opportunity

Ele é sócio de 2 empresas responsáveis pela gestão dos recursos de 28 dos 35 fundos administrados pelo banco

Mônica Ciarelli, da Agência Estado,

28 Julho 2008 | 19h52

Daniel Dantas não consta como controlador do Banco Opportunity nos registros do Banco Central. Mas, na Junta Comercial do Rio de Janeiro, seu nome consta como sócio de duas empresas responsáveis pela gestão dos recursos de 28 dos 35 fundos de investimentos administrados pelo banco no Brasil. O gestor é quem traça a política de investimentos de um fundo, escolhendo quais os ativos irão compor o seu portfólio.   O patrimônio total dos fundos do Opportunity soma R$ 14 bilhões, o que coloca a instituição no 14º lugar no ranking das maiores gestoras de recursos do País, segundo a Associação Nacional dos Bancos de Investimentos (Anbid). A cifra era ainda mais alta antes da Operação Satiagraha da Polícia Federal ser deflagrada. Após a prisão da cúpula do grupo, no último dia 8, os ativos dos fundos chegaram a encolher cerca de R$ 2,3 bilhões. Nem mesmo a liberação de todos os presos no dia seguinte (Dantas chegou a ser preso novamente durante 24 horas) foi capaz de estancar a sangria. Hoje, a perda ainda está em pouco menos de R$ 2 bilhões.   Dantas era, notoriamente, apontado como o dono do Opportunity. Há duas semanas, porém, o presidente do Banco, Dório Ferman, surpreendeu o mercado financeiro ao declarar ser o verdadeiro controlador da instituição, informação que foi comprovada pelos registros do Banco Central. Dantas, para surpresa do mercado, é apenas cliente e dono da marca, alugada para Ferman.   Daniel Valente Dantas, tem, pelo menos, dois registros de CPF. No expedido no Rio, constam, na Junta Comercial, mais duas gestoras de recursos e outras três empresas de "prateleira" (que não têm atividade para produção ou circulação de bens e serviços): a Albra Comercial e Exportadora, a Santa Luzia Comercial e Participações e a Multiponto Participações. As últimas duas caíram na malha fina do Banco Central por movimentar uma soma superior a R$ 15 milhões sem declarar faturamento mensal.   Mas Dantas tem outro CPF tirado na Bahia, seu estado natal. Com base neste documento, a Junta Comercial do Rio não localizou nenhuma empresa. A existência dos dois documentos em nome do executivo foi descoberta pelo Ministério Público Federal em 1998, durante as investigações que apuraram as suspeitas de improbidade administrativa na condução do leilão de privatização do Sistema Telebrás. "Não sei porque, quando vim para o Rio, tirei um outro número, que sempre usei e, na verdade, nunca mais me lembrei desse primeiro CPF", explicou Dantas em depoimento dado à época.   Endereço em local não informado   Todas as companhias sob o controle de Dantas aparecem nos registros da Junta com sede no mesmo endereço onde funciona o Banco Opportunity, no Rio de Janeiro: o 28º andar de um valorizado prédio comercial na Avenida Presidente Wilson, no centro, onde o executivo costuma chegar para trabalhar antes das 8h, sem hora para sair.   Mas o dado não bate com os registros da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). No órgão fiscalizador da indústria de fundos, uma das quatro gestoras sob o comando de Dantas aparece em um endereço bem distante dos escritórios do Opportunity. Na CVM, a sede da Opportunity Asset Management LTDA está localizada no centro de Três Rios, município do Rio de Janeiro, conhecido por conceder incentivos fiscais.   Desde 1997, a legislação local criou uma atraente alíquota, de 0,5%, de Imposto Sobre Serviços(ISS) para as chamadas empresas genéricas. Ou seja, companhias que embora prestem serviços em qualquer lugar do País mantêm seu centro operacional na cidade, distante 137 quilômetros do centro do Rio. Já a alíquota cobrada pela prefeitura do Rio de Janeiro é de 2%.   A empresa está ativa, mas, pelas informações da CVM, não tem nenhum fundo sob sua gestão ou administração atual. Tem também habilitação para representar investidores não-residentes no País. Com isso, pode lançar fundos offshore (no exterior, em geral em paraísos fiscais). Nas três gestoras de recursos, o nome que aparece na CVM como responsável é o da irmã de Dantas, Verônica.   Procurado, o Opportunity informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que "a principal atividade do Banco Opportunity está relacionada com a administração de fundos de investimento". Estes fundos, segundo o comunicado da empresa, são administrados pelo Banco Opportunity, "do qual Dório Ferman detém 99% das ações, tem o comando e a gerência, e presta serviços de tesouraria, controladoria, custódia e processamento de cotas".   O caso   Daniel Dantas é classificado, no comunicado do banco, como "o controlador da empresa que atua como gestora de alguns fundos de investimentos administrados pelo Banco Opportunity". O executivo foi apontado pela Polícia Federal na Operação Satiagraha como "capo" de "organização criminosa" que movimentou US$ 1,9 bilhão em paraísos fiscais, segundo relatório final do delegado Protógenes Queiroz. Para ele, Dantas foi o mentor de todas as estratégias, investimentos e aporte de recursos feitos pelo grupo Opportunity.   O relatório aponta 13 indiciados na Operação Satiagraha - além do executivo, a PF enquadrou Verônica, sua irmã, a quem atribui graduação de "subchefe central da organização", e diretores e gerentes do Opportunity Fund, fundo offshore do grupo. Eles são acusados de gestão fraudulenta e formação de quadrilha.   Além de Dantas e Verônica, são eles: o atual sócio do Opportunity, Carlos Rodenburg; o presidente do banco, Dorio Ferman; a diretora jurídica, Danielle Silbergleid Ninnio; a diretora de relações com investidores, Maria Amália Delfim de Melo Coutrim; o diretor de operações, Eduardo Penido Monteiro; o presidente do Conselho de Administração, Arthur Joaquim de Carvalho; e os executivos do banco Itamar Benigno Filho e Norberto Aguiar Tomaz.   Os outros seriam, Paulo Moisés apontado como responsável pela parte contábil do grupo Opportunity; Rodrigo Andrade, que seria utilizado como laranja para ser sócio de empresas do Opportunity; e Humberto Braz, ex-diretor da Brasil Telecom, que já denunciado por corrupção ativa, pela tentativa de suborno a um delegado da PF supostamente a mando de Dantas.

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