Na hora do ajuste, Lula negociou mais que Dilma

Ex-presidente teve maior número de encontros com empresários e movimentos sociais em 2003; sucessora se voltou para o governo

RICARDO GALHARDO E LILIAN VENTURINI, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2015 | 03h38

A exemplo destes primeiros cinco meses do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi obrigado a tomar medidas impopulares para recolocar a economia nos eixos no início de seu primeiro mandato, em 2003. Uma comparação entre as agendas de janeiro a maio de Lula em 2003 e Dilma em 2015 mostra que ao contrário da atual presidente, seu antecessor tinha uma disposição muito maior para dialogar com políticos e os mais diversos setores da sociedade.

Entre janeiro e maio de 2003, Lula participou de 48 encontros com movimentos sociais e entidades da sociedade organizada, quase o triplo de Dilma, que realizou apenas 19 dessas atividades. No mesmo período, Lula recebeu 27 prefeitos e governadores, e Dilma só 11. A comparação também mostra maior disposição de Lula para receber empresários. Foram 41 encontros entre janeiro e maio de 2003 contra 22 de Dilma em seu segundo mandato.

Segundo ex-ministros de Lula, esses encontros e conversas foram fundamentais para compensar o mal-estar causado pelas medidas impopulares, apesar de toda boa vontade em relação ao governo recém-empossado.

Diante de ameaças de uma inflação acima de dois dígitos em 2003, Lula aumentou a taxa Selic de 25% para 26,5% e o superávit primário de 4% para 4,3%, e cortou R$ 25 bilhões do orçamento. O resultado foi um PIB de -0,2% e inflação de 9,3% (IPCA). As medidas eram contestadas pelas alas radicais do PT e até pelo vice-presidente, o empresário José Alencar, que morreu em 2011.

Um ex-ministro de Lula observou que há 12 anos a preocupação era explicar para "os diversos setores quais os motivos do ajuste" e que as medidas tomadas eram fundamentais para garantir um ciclo de desenvolvimento nos anos seguintes.

Maratona. Além de receber pessoalmente os principais atores da política e da sociedade e criar o Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o Conselhão, Lula escalou alguns de seus principais ministros para uma maratona de diálogo. A ideia era que as conversas tivessem "efeitos práticos", ouvindo de representante de setores sugestões de cortes e outras medidas, recordou um ex-auxiliar direto do ex-presidente.

Dilma faz exatamente o oposto no início do 2º mandato. A comparação das agendas mostra que sua atenção está mais voltada para dentro do governo. Foram 133 reuniões com ministros este ano contra 122 nos cinco primeiros meses de Lula.

O foco na admi nistração gera resultados políticos negativos. Ao incluir artigos que restringiam direitos trabalhistas no ajuste fiscal sem consultar as centrais sindicais, a presidente provocou a irritação de aliados históricos do PT.

"As MPs (do ajuste fiscal) foram um equívoco. Agora o governo atende, recebe. O que precisa é resolver as demandas", reclama o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas.

O descontentamento dos movimentos sociais da base petista com os métodos de Dilma é apontado como a causa do afastamento entre ela e o PT. Em manifesto divulgado na sexta-feira, a executiva estadual do PT de São Paulo escancara esse afastamento e sugere que o partido pressione a presidente a melhorar a relação com a base. Na terça-feira, em encontro com sindicalistas, Lula também afirmou que Dilma precisa melhorar a relação com os movimentos.

Segundo dirigentes petistas, a opção de Dilma por fazer um início de governo voltado para o mercado sem o contraponto de ações que contentem os movimentos sociais colocou PT e Planalto em rota de colisão.

A expectativa é que a relação do partido com o governo seja o principal tema do 5º Congresso Nacional do PT, instância decisória máxima da sigla, em junho.

Sem comparação. Segundo o ministro da Comunicação Social, Edinho Silva, a diferença de agendas reflete os momentos distintos em que cada governo precisou fazer seus ajustes.

"Lula chegou e construiu uma agenda que buscava pactuar com a sociedade para consolidar o eleitorado que o elegeu e sua base social. Dilma está no segundo mandato, portanto assume com outros desafios. É uma agenda muito mais interna", disse ele.

A Secretaria-Geral da Presidência, responsável pela relação com movimentos sociais, informou que o ministro Miguel Rossetto já fez mais de 60 reuniões com entidades neste ano e que ainda em 2015 serão realizadas 15 conferências nacionais temáticas semelhantes às que eram feitas por Lula.

 

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