Capítulo 17

Na guerra ambiental, generais e Bolsonaro substituem o vermelho pelo verde

Presidente não compreende que a política pressupõe o conflito para se atingir o consenso

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2019 | 09h44

Caro leitor,                 

Jair Bolsonaro e uma parte dos militares brasileiros acreditam que o Brasil é alvo de uma guerra indireta patrocinada por potências estrangeiras e por uma espécie de movimento ambientalista internacional, sucessor do Movimento Comunista Internacional, o MCI do século passado. Assim também pensam os integrantes do Instituto Plínio Corrêa de Oliveira, herdeiros da antiga TFP, conforme o Estado publicou. Substitui-se o vermelho pelo verde. Em vez de fria, a guerra seria, agora, ambiental. 

Na segunda-feira, dia 5, dois dos mais respeitáveis generais da reserva - Alberto Cardoso e Eduardo Villas Bôas - expuseram essa teoria em palestra no Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal. O general Cardoso, ex-ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) do governo Fernando Henrique, foi quem primeiro afirmou que o Brasil era alvo de uma “guerra indireta” no meio ambiente.

Villas Bôas expôs depois suas ideias - republicadas no Twitter. Disse que, tão logo o Mercosul assinou tratado com a União Europeia, deu-se inicio a uma enxurrada de acusações contra o Brasil usando argumentos "ambientalista e indigenista que incluíam publicações na imprensa norte-americana". Ele prossegue: "trata-se de tentativas de criar barreiras não tarifárias contra nossos produtos".

O general acusou a Alemanha e os Estados Unidos de praticarem um novo imperialismo. "As nações não fazem mais guerras de conquista, e as grandes potências perderam a capacidade de controlar recursos naturais. Se não podem controlar, tentam, pelo menos, neutralizar a exploração desses recursos (por países como o Brasil).”

Villas Bôas - que hoje assessora o governo - criticou ainda a Noruega, principal origem do dinheiro do Fundo Amazônia (94% dos cerca de R$ 3 bilhões). Bolsonaro quer mudar a gestão do fundo, mas os nórdicos são contra. As acusações de Villas Bôas foram repetidas pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, como em uma folie à deux, exasperando os líderes do agronegócio, que veem prejuízos com a repercussão negativa desse discurso.

Por fim, a ação contra o Brasil, afirmou Villas Bôas, seria “orquestrada e instrumentalizada por meio de algumas ONGs e organismo internacionais" e estaria gerando um “déficit de soberania na Amazônia”. O meio ambiente deixa, portanto, de ser uma questão científica e entra para o terreno da ideologia ao mesmo tempo em que os dados do desmatamento se transformam em expressão do "politicamente correto", que nas teorias conspiratórias do bolsonarismo é fomentado pelo imperialismo estrangeiro.

A desconfiança de Villas Bôas é compartilha por Bolsonaro. O presidente também insinuou que a ciência está a serviço de ONGs. Diante de tal agravo, o físico Ricardo Galvão, então diretor do INPE, desafiou o presidente: "Que me chame pessoalmente e tenha coragem de me dizer cara a cara isso". Bolsonaro não o fez. Mandou um ministro - o astronauta Marcos Pontes - demiti-lo

O que Villas Bôas e o presidente identificam como "déficit de soberania" nada mais é do que o resultado da inserção do País na comunidade internacional. A reação a ela usa instrumentos do passado para pensar o mundo moderno. É que sem polarização, o bolsonarismo não funciona. Ele e seu partido fardado não compreendem que a política pressupõe o conflito para se atingir o consenso. Ao identificar o conflito como manifestação inimiga, querem negar o diálogo. Ao fazer da ciência uma adversária, querem atacar a razão.

O leitor certamente viu a reação da economista Elena Landau diante dos conflitos suscitados pelo inquilino do Planalto. Para ela, ao não se submeter ao escrutínio da ciência, da razão e da comunidade internacional, a postura do presidente "não tem nada" de conservadora. Nem de estratégia. "É obscurantismo mesmo."

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

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