Na formação do primeiro ministério, predomina a fórmula do 'Ctrl-C Ctrl V'

Nem nos governos militares o índice de renovação da Esplanada foi tão baixo: quase 40% dos escolhidos são os mesmos da gestão anterior

Luiz Alberto Weber / BRASÍLIA, O Estado de S. Paulo

31 Dezembro 2010 | 23h00

Apenas momentos dramáticos da história registram tamanho "Ctrl-C Ctrl-V" ministerial. Em 1945, Franklin Roosevelt morreu na vigência do mandato e Harry Truman, seu vice, assumiu a Presidência dos Estados Unidos. Para não desorganizar o país que comandava o avanço aliado na Segunda Guerra Mundial, manteve o gabinete do antecessor.

 

Mergulhada na Normandia das estatais, na Stalingrado do DAS, na Monte Castello dos cargos de segundo escalão, batalhas por territórios orçamentários que sangram os cofres públicos, Dilma Rousseff copiou-colou boa parte da Esplanada erigida pelo eixo Lula-PT-PMDB.

 

O mandato de Dilma começa hoje com 14 ministros de Lula, taxa de absorção que beira os 40%. Nem nos governos militares - quando generais se sucediam em jogo combinado - o índice de renovação foi tão baixo.

 

Figueiredo, por exemplo, manteve quatro integrantes do governo Geisel. Médici emplacou só dois colaboradores diretos de seu sucessor. Nos anos 40, o general Eurico Gaspar Dutra elegeu-se presidente e homenageou o padrinho (Getúlio Vargas) com duas nomeações.

 

Dilma montou um ministério de dublês: personagens que só carregados de maquiagem possuem os requisitos profissionais e pessoais exigidos por ela para os ocupantes dos cargos. A eleita vazou que escolheria um médico-renomado-gestor-sem-partido para a Saúde. Mas o teatro de operações exigiu dela a nomeação do petista Alexandre Padilha, o @padilhando, tuiteiro mais rápido da Esplanada.

 

Espécie de lenda urbana - o executivo de mercado bem-sucedido e imune a criptonita fisiológica - fez parte dos primeiros devaneios de Dilma. O plano era entregar a tal fantasmagoria à pasta dos Portos e Aeroportos. Mas a assombração dos irmãos Gomes encarnou nas negociações e levou a cadeira para o prefeito da interiorana Sobral, Leônidas Cristino, do PSB.

 

Preenchidas as 37 vagas, os ministros podem ser classificados entre aqueles que: a) vão continuar fiéis a Lula; b) que falam "maranhês" e são habilidosos no manuseio de verbas públicas; c) os etcéteras; d) os integrantes da cota-boquinha, que preserva no bioma de Brasília os derrotados nas urnas estaduais; e) e nove mulheres, que também se encaixam em alternativas anteriores.

 

A feição da Esplanada que quase não carrega o DNA da eleita é um produto do baixo poder de Dilma - que não se confunde com a falta de conhecimento técnico, incapacidade de agir como CEO ou chancela das urnas. Reflete sua inapetência pela barganha e escassa capacidade de persuasão dos atores políticos.

 

Em 2003, o cientista político Richard Neustadt, ex-assessor de Kennedy e autor do livro Presidential Power and the Modern Presidents, visitou Brasília para conhecer de perto o mundo de Lula. Para o professor, a fonte de poder emana da personalidade do mandatário. Lula era uma espécie de camundongo-ideal, que reagia aos estímulos como previsto: era persuasivo e dado às barganhas com o Legislativo (o mensalão não era bem o que o scholar tinha em mente).

 

Ao analisar a montagem do ministério russo, em 2008, pelo presidente Medvedev, obrigado a escalar os escolhidos de Vladimir Putin, diplomatas americanos chamaram-no de Robin. Não está longe o dia em que um cable da embaixada americana em Brasília apareça no Wikileaks com a transcrição de um desabafo de Dilma captado após a primeira crise: "Santo ministério, Lula!"

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