Na esteira da operação abafa, governo acusa PSDB de vazar dados de Palocci

Para contornar ataques a ministro, Planalto, sob a liderança de Lula e com aval de Dilma, atribui vazamento de dados da empresa a aliados de Serra na Prefeitura

Vera Rosa, de O Estado de S. Paulo

24 de maio de 2011 | 21h49

BRASÍLIA - Na tentativa de reverter o desgaste provocado pela crise política que ameaça o ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, o governo decidiu apontar o dedo para o PSDB. Em estratégia combinada com a presidente Dilma Rousseff e com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, acusou nesta terça-feira, 24, a Secretaria de Finanças de São Paulo de violar o sigilo fiscal de Palocci.

 

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"Temos informações de que dados do Imposto sobre Serviço (ISS) da empresa de Palocci vazaram na Secretaria de Finanças da Prefeitura", afirmou Carvalho ao Estado.

 

Na tática para desviar o foco da crise e transferir para o colo do PSDB o rumoroso escândalo, que tem como epicentro a evolução patrimonial de Palocci nos últimos quatro anos, o discurso do governo, agora, é o de que o faturamento de R$ 20 milhões da empresa de consultoria Projeto, do ministro da Casa Civil, só poderia ser obtido por meio de arapongagem na Prefeitura.

 

Lula adotou o mesmo tom ao almoçar, nesta terça, com senadores do PT. "Quem acusa tem de provar", disse o ex-presidente, dando a senha de como deve ser a reação petista. Mesmo sem citarem em público o nome do secretário de Finanças, Mauro Ricardo Costa, auxiliares de Dilma fazem questão de lembrar, nos bastidores do Planalto, que ele é homem da confiança do ex-governador José Serra (PSDB). Mauro Ricardo foi secretário da Fazenda quando Serra era governador.

 

Na semana passada, o presidente do PT, Rui Falcão, conversou com o prefeito Gilberto Kassab (ex-DEM) sobre a suspeita de quebra do sigilo fiscal da Projeto. Antes disso, um emissário de Palocci também telefonou para Kassab e o alertou sobre os riscos de vazamentos dos valores de tributos municipais recolhidos pela Projeto, entre 2006 e 2010. A informação daria um "cálculo aproximado" sobre o faturamento da empresa. Kassab escalou assessores para acompanhar o caso. O prefeito, que deixou o DEM para fundar o PSD, tem boa interlocução com o governo Dilma e o novo partido pode vir a integrar a base aliada.

 

Em nota, a Secretaria de Finanças informou que "todos os acessos ao ambiente da empresa Projeto no sistema da Nota Fiscal Eletrônica de Serviços, no período de 1.º de janeiro de 2010 a 17 de maio de 2011, foram realizados pela própria empresa ou por servidores, de forma motivada para realização de procedimentos demandados pelo próprio contribuinte (retificação de lançamento e pagamento de tributo)". A Prefeitura também disse lamentar que as afirmações do secretário-geral da Presidência tenham sido feitas "sem a correspondente comprovação dos fatos".

 

Mérito. Sem entrar no mérito das denúncias contra Palocci, Carvalho fez nesta terça uma analogia entre a situação atual e a da campanha do ano passado, quando amigos e parentes de Serra, então candidato do PSDB à Presidência, tiveram o sigilo fiscal violado. À época, surgiram denúncias de que arapongas contratados pela campanha de Dilma montaram dossiê contra Serra.

 

"Em 2010 houve a quebra de sigilo dos dados de familiares de Serra e o foco do noticiário foi a quebra de sigilo em si, e não o conteúdo", insistiu Carvalho. "Agora, com Palocci, a situação é inversa: é tudo para o conteúdo e nada para a quebra de sigilo." O Planalto alega que as acusações contra Palocci se resumem a "luta política" para atingir Dilma. Com base esse argumento, o governo barra iniciativas da oposição para convocá-lo a prestar esclarecimentos ao Congresso. "Nessa luta não podemos baixar a cabeça. Temos de seguir trabalhando", comentou Carvalho.

 

Coordenador da campanha de Dilma, Palocci não revela os clientes da Projeto, o que motiva dúvidas sobre tráfico de influência. Segundo a Folha de S. Paulo, dos R$ 20 milhões faturados em 2010 pela Projeto, R$ 10 milhões entraram entre novembro e dezembro. A empresa não confirmou os valores, mas informou que o maior volume de recursos ocorreu por causa da quitação de contratos quando Palocci ingressou no governo.

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