Jefferson Rudy/Agência Senado
Jefferson Rudy/Agência Senado

Na CPI, Teich tangenciou sobre responsabilidade na condução da crise; leia análise

Temperamento melancólico e condução evasiva do ex-ministro deram o tom segundo dia depoimentos

Mário Scheffer*, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2021 | 19h03

A passagem relâmpago de Nelson Teich pelo Ministério da Saúde, o seu temperamento melancólico e sua condução evasiva deram o tom do segundo dia de depoimentos da CPI da Covid.

Participante da equipe de transição de Bolsonaro em 2018, cedeu lugar a Mandetta, então cacifado pelo recém-eleito governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), e pelo atual ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Onyx Lorenzoni.

A ascensão de Teich anunciava outro tipo de coalizão: a troca do político pelo técnico, a porta aberta aos militares e sua fama de empresário bem sucedido no ramo da oncologia como credencial de bons contatos com fornecedores de testes, insumos e vacinas.

Teich compartilhou sua infelicidade, contou o quanto a falta de autonomia, a perda de liderança e, sempre ela, a cloroquina, obsessão presidencial, o atormentaram durante seus 28 dias de estágio probatório mal sucedido no cargo.

Tangenciou nas respostas sobre sua responsabilidade na condução da crise sanitária: “eu não participei disso”, sobre a decisão do governo de ampliar a produção de medicamentos inúteis; ou “me pareceu que ele poderia atuar bem” sobre a capacidade do membro de sua equipe e sucessor, Eduardo Pazuello.

O empresário-ministro tinha um plano na cabeça: “a minha estratégia era para bloqueio de transmissão combinando tudo: testagem, isolamento, rastreamento, quarentena.” E, ao que se depreende, ele tinha uma carta na manga: a articulação com empresas de diagnóstico.

Restaram duas pistas que precisam ser escrutinadas pela CPI em relação à falta de testes e vacinas. O ex-ministro afirmou que manteve, há mais de um ano, as primeiras tratativas com Moderna e Jansen. E não explicou muito bem o que motivou o fracasso do projeto de ampliação da testagem em parceria com empresários da saúde.

Ao fim, arguições sobre nebulização por cloroquina e modelos matemáticos para projeções da pandemia, dentre outras divagações, frustraram a audiência de um país que tem pressa. Enquanto transcorre a CPI, registram-se mais de 120 mortos por covid a cada hora no Brasil.

* PROFESSOR DA FACULDADE DE MEDICINA DA USP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.