Na cidade 'metonímia', um retrato do voto no Brasil

Desde 1994, Uberlândia (MG) é o município que melhor representa a média nacional de votações

LUCAS DE ABREU MAIA, ENVIADO ESPECIAL, e RODRIGO BURGARELLI, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2014 | 02h04

UBERLÂNDIA - Se o voto do eleitorado para presidente pudesse ser resumido pelo comportamento político de uma só cidade, ela estaria longe do Nordeste petista que elegeu Dilma Rousseff (PT). Provavelmente, pouca gente acreditaria que o município que melhor retratou o País nesta eleição fica no Sudeste, é bem mais rico que a média nacional e esbanja uma economia dinâmica que está entre as 30 maiores do País.

Quando as urnas de Uberlândia - segunda maior cidade mineira, com 650 mil habitantes - foram fechadas na noite do 1.º turno, Dilma havia recebido 41% dos votos válidos; o senador tucano e ex-governador de Minas Aécio Neves, 33%; e a ex-ministra Marina Silva (PSB), 21%. Os porcentuais são quase idênticos aos obtidos por eles no total do Brasil: 42%, 34% e 21%, respectivamente. Este ano, a cidade foi a única cujos porcentuais de voto no 1.º turno para cada candidato ficaram dentro de uma margem de 1% do total dos votos nacionais.

Desde 1994, o eleitorado uberlandense é o que melhor representa o brasileiro na média dos votos para presidente no 1.º turno, segundo análise do Estadão Dados com números do Tribunal Superior Eleitoral. Entre as cidades médias e grandes (com mais de 50 mil eleitores), Uberlândia é onde os presidenciáveis tiveram consistentemente porcentuais mais próximos à média do País desde a primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso. É, pois, a cidade metonímia do Brasil - a parte (município) pelo todo (País).

Políticos locais apontam três fatores que explicam essa posição: a localização geográfica, a ferrovia e as rodovias que passam por ali, ligando a cidade a São Paulo, Rio e Brasília, e o alto número de imigrantes - a prefeitura estima que 62% da população seja de fora.

Historicamente, a cidade recebeu imigrantes gaúchos, de São Paulo e de Goiás. "Mas nos últimos anos muita gente tem vindo do Piauí e do Maranhão, para trabalhar na construção civil", diz o prefeito Gilmar Machado, eleito em 2012 e o primeiro petista a administrar a cidade. "O mais difícil aqui é encontrar alguém que tenha nascido em Uberlândia", diz o deputado estadual Luiz Humberto (PSDB). O caráter nacional está retratado na bandeira da cidade: uma estrela de 12 pontas, cada uma direcionada a um ponto cardeal. "O progresso irradia daqui", diz o estandarte.

Brasil afora. Uberlândia é um exemplo de como a repetição do padrão de votos na eleição presidencial desde 2006 tende a criar uma área no centro-sul do País que espelha melhor o comportamento do eleitor em geral. O mapa nesta página é exemplo disso: os municípios mais escuros tiveram menor diferença no resultado local para a votação de Dilma, Aécio e Marina no 1.º turno, em relação à média nacional.

Pode-se ver uma mancha destacada no Centro-Oeste, especialmente em Goiás e Mato Grosso do Sul, o Estado com menor diferença média em pontos porcentuais no voto dos municípios para cada um dos três candidatos, em comparação com o Brasil (7 pontos). O segundo Estado no ranking é o Rio, com 7,8 pontos. Estados muito petistas e que, por isso, destoam mais da média nacional se concentram justamente no Nordeste (sete dos Estados de maior diferença média no voto municipal em relação ao nacional são dessa região).

Em Uberlândia, que está no meio dessa mancha escura, é fácil encontrar quem tenha escolhido um dos três candidatos. A recepcionista Leidiane Trombeta, 31, votou em Dilma nos dois turnos. "A propaganda do Aécio diz que a educação e a saúde melhoraram, mas minha mãe espera há três anos para ser atendida por um ortopedista". Suas colegas Cássia de Sousa, 39, e Tatiana Rosa, 32, votaram no 1.º turno em Marina e em Aécio, respectivamente. No 2.º turno Tatiana foi de Aécio e Cássia anulou. "Aécio só governa para os ricos. E a Dilma, mais quatro anos pra quê? Pra roubar mais?"

As três parecem indiferentes ao resultado do pleito. Não são exceção. Se para alguns o País saiu da eleição dividido, o quadro em Uberlândia é outro. "Aqui tem gente do País todo, mas a cidade não é dividida entre ricos e pobres, é uma só", diz o ex-prefeito Odelmo Leão.

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