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Na carona do grande escândalo argentino

Motorista delator que registrou propinas em 8 cadernos diz que os queimou na churrasqueira

NYT, O Estado de S.Paulo

05 Agosto 2018 | 05h00

O motorista fez inúmeras anotações. Em cadernos espiral usados comumente pelas crianças nas escolas, Oscar Centeno registrou meticulosamente as viagens que fez durante uma década transportando sacos de dinheiro para serem entregues a autoridades do governo, sacolas enviadas por empresários contemplados com grandes contratos de obras públicas.

Os oito cadernos de Centeno estão no centro de uma ampla investigação de corrupção divulgada na semana passada, com dezenas de buscas efetuadas e a prisão de 16 pessoas. A ação inquietou a elite empresarial e política de um país onde a corrupção raramente resulta em punições significativas. Alguns argentinos têm comparado o caso com a investigação da Lava Jato no Brasil. 

Mesmo que o país seja um terreno conhecido de grande escândalos, é a primeira vez que tantos empresários são presos. A maioria dos implicados até agora são aliados próximos do ex-presidente Néstor Kirchner e de sua mulher e sucessora, Cristina Kirchner. Mas alguns são do entorno do atual governo, como Javier Sánchez Caballero, ex-diretor da IECSA, companhia que pertenceu ao grupo empresarial da família do presidente Mauricio Macri.

O escândalo é um novo desafio para um Judiciário que jamais conseguiu prender pessoas poderosas acusadas de corrupção. Segundo analistas, os tribunais argentinos são submetidos à pressão política e os promotores estão impedidos de fazer o mesmo tipo de acordos de cooperação que foram cruciais para o sucesso da investigação brasileira. Segundo outros especialistas, entretanto, o caso poderá justamente provocar uma reviravolta nas investigações de crimes de colarinho branco na Argentina. 

Centeno, ex-militar, poderá ser o primeiro beneficiário grande de uma lei aprovada em 2016 que estabeleceu um mecanismo para acordos de leniência e delação. 

Embora as anotações que ele fez enquanto atuou como motorista de um membro do alto escalão do ministério do Planejamento, Roberto Baratta, tenham detalhado propinas equivalentes a US$ 53 milhões, os investigadores afirmam que o valor real pode ser próximo de US$ 160 milhões.

O “remisero”, termo que define na Argentina os taxistas independentes que trabalham em geral nos bairros menos nobres, foi solto na sexta-feira, mas é mantido sob vigilância. Em seu último depoimento, ele disse ter queimado as anotações originais na churrasqueira do fundo de casa. 

Detalhes sobre valores de propina, personagens e lugares de entrega, anotados por ele entre 2005 e 2015 nos cadernos, não vieram a público por sua vontade. Só foram conhecido s porque outro motorista, um ex-policial, Jorge Bacigalupo, foi encarregado pelo amigo de guardar as anotações no fim do ano passado. Foi Bacigalupo quem tomou a iniciativa de levar os cadernos ao jornal La Nación em 8 de janeiro. 

Depois de meses analisando os registros, o jornal enviou cópias para a Justiça. Em uma coluna no jornal, Diego Cabot, o repórter que recebeu os cadernos, mas só os publicou depois de as autoridades revelarem a investigação, disse que não quis que se precipitar, pois poderia atrapalhar a investigação. 

Amizade

Centeno e Bacigalupo conheceram-se em 1998, cinco anos antes de Centeno ir trabalhar para o governo de Néstor, em 2003. “Em agosto ou setembro do ano passado, ele me traz um caixa de diz: ‘por favor, guarda isso para mim’. Eu perguntei: ‘o que há dentro?’ . Ele me disse que eram anotações sobre seu trabalho com Baratta”, relatou Bacigalupo ao La Nación.

Segundo Bacigalupo, Centeno pediu os cadernos de volta e ele os solicitou ao diário, mas fotocópias já estavam em poder da imprensa, de onde chegariam à Justiça. A ex-mulher de Centeno, Hilda Horovitz, disse que o marido queria usar os cadernos para assegurar sua manutenção no emprego depois do fim do governo de Cristina, bem como para extorsão. 

A ex-presidente foi convocada para depor no dia 13. O juiz encarregado do caso, Claudio Bonadio, pediu permissão ao Senado para ordenar buscas em suas casas e escritórios, enquanto prepara um novo pedido para retirar a imunidade legal da ex-presidente, que é senadora. Em outro caso, os senadores rejeitaram o pedido feito por Bonadio no mesmo sentido. É improvável que a senadora perca o foro, mas há sinais de que as buscas em suas propriedades podem ser autorizadas pelos parlamentares.

Desde que Cristina deixou o governo, em dezembro de 2015, ela e membros do seu governo têm se defrontado com uma enxurrada de acusações de corrupção que ela qualifica como perseguição política para desviar o país dos problemas econômicos que enfrenta.

Se o conteúdo dos cadernos realmente revelar uma contabilidade de propinas, ficará exposto um aspecto da corrupção invisível na Argentina: os responsáveis pelo pagamento das propinas.

Desde que o escândalo veio a público, as autoridades fizeram buscas em algumas empresas importantes, incluindo a sede do Grupo Techint, maior produtor de aço da Argentina e uma das maiores empresas do país.

Carlos Wagner, que durante anos presidiu a Câmara de Construção Argentina, foi um dos poderosos líderes empresariais detidos. Gerardo Ferreyra, vice-presidente da Electroingeniería, que firmou uma joint-venture com empresas chinesas para obter contratos de obras públicas no valor de bilhões de dólares, por duas hidrelétricas na Patagônia, também foi preso. Ele e outros detidos são acusados de conspiração num esquema de propinas e subornos envolvendo contratos de obras públicas. 

O motorista Centeno não deve chegar ao fim do processo como único delator. O executivo Juan Carlos de Goycoechea, encarregado de grandes contratos com o Estado representando a empresa Isolux, já aceitou dar detalhes sobre o esquema de corrupção em troca de benefícios judiciais, segundo o jornal Clarín.

O presidente Macri, arqui-inimigo de Néstor e Cristina Kirchner, disse esperar que o caso seja um divisor de águas na luta contra a corrupção na Argentina. Cristina ignorou as denúncias. [TEXTO]/ NYT, TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTIN

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