Na balbúrdia do governo, ministro-astronauta se oferece para cuidar de universidades e Weintraub ri

Na véspera da nomeação de Decotelli, que acabou anulada, Marcos Pontes disse duas vezes que estava com a ‘asa mais leve’ para ter sob sua alçada o ensino superior

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2020 | 14h46

Caro leitor,

Um novo movimento de bastidor, longe dos holofotes, está em curso na Esplanada. Mesmo antes de Carlos Decotelli se tornar o ministro que foi sem nunca ter sido, obrigado a apresentar carta de demissão sem nem mesmo tomar posse, o titular da Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes, se ofereceu para assumir o “ensino superior”. Na véspera da nomeação de Decotelli, anulada pelo presidente Jair Bolsonaro cinco dias depois, Pontes disse duas vezes que estava com a “asa mais leve” para ter  sob sua alçada as universidades federais.

A “indireta” do ministro-astronauta passou despercebida diante da sucessão de crises diárias que batem à porta do governo Bolsonaro. O fato, porém, é que Pontes – enfraquecido após perder Comunicações – busca agora apoio político para sobreviver na Esplanada sem virar um pato manco.

“Com a saída do Ministério das Comunicações daqui, essa separação (...), eu fiquei com asa mais leve. Então, voltou à tona esse assunto (transferência das universidades para o comando de Ciência e Tecnologia) e eu falei assim: ‘Agora eu topo’, disse Pontes em uma live com o senador Chico Rodrigues (DEM-RR), na noite do último dia 24. “Acho interessante essa junção da parte do ensino superior, trazer as universidades, institutos federais, o alinhamento de tudo isso com a ciência, com a pesquisa. Acho que tem um casamento muito interessante agora”, completou o ministro.

A afirmação de Pontes foi feita uma semana depois de Fábio Faria assumir o Ministério das Comunicações, que, desde a gestão de Michel Temer, estava sob as “asas” da Ciência e Tecnologia. A pasta foi recriada com novo perfil para abrigar o então deputado do PSD, genro do apresentador Sílvio Santos, e transformar a  comunicação de Bolsonaro em agenda positiva – uma tarefa difícil em um governo que não consegue sair das cordas.

Desidratado, Pontes também deu o seu recado justamente na véspera de Bolsonaro anunciar, nas redes sociais, a nomeação de Decotelli, que saiu do governo antes mesmo de sentar na cadeira do MEC, após ter o currículo posto em xeque por universidades estrangeiras e pela Fundação Getúltio Vargas.

Não foi, porém, a única insinuação de Pontes na direção do Palácio do Planalto. Naquele mesmo dia 24 de junho, nove horas antes da live, o ministro da Ciência e Tecnologia já havia dito a mesma coisa para uma plateia composta por deputados que assistiam à sua exposição na Comissão Externa de Ações contra o Coronavírus.

Ao abordar as estratégias e testes clínicos para a vacina de combate à doença, Pontes avisou que não seria mais contra a junção do ensino superior ao ministério dirigido por ele. Lembrou, mais uma vez, que durante a transição do governo, em 2018, havia a ideia de tirar as universidades do MEC para incluí-las no guarda-chuva da Ciência e Tecnologia.

“Na época, fui contra porque seria muita coisa no Ministério (...). Mas eu confesso que, agora, seria até um momento muito interessante, já que as Comunicações não estão mais lá”, disse o ministro-astronauta.

Embora a escolha de Fábio Faria tenha sido atribuída à cota pessoal de Bolsonaro, não se pode negar que a indicação dele para Comunicações atendeu a interesses do Centrão. Na prática, o bloco de partidos que dá as cartas do poder na Câmara tem hoje na Esplanada um ministro para chamar de seu. Com isso, Pontes ficou ainda mais fragilizado e, embora tenha sido tenente-coronel da Força Aérea Brasileira (FAB), não conta nem mesmo com o apoio da ala militar do governo.

Na balbúrdia em que se transformou o Ministério da Educação – termo usado por Abraham Weintraub quando ameaçou cortar recursos de universidades, no ano passado –, a disputa pelo controle do ensino superior voltou à cena. Nada indica, porém, que Pontes será atendido. Weintraub, o ex, deve estar dando risada.

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

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