Na Bahia, negros festejam pedindo reparação

Ao som dos tambores de 250 percussionistas dos principais blocos afros da capital baiana, milhares de negros desfilaram pelas ruas do centro no final da tarde de hoje para marcar o Dia Nacional da Consciência Negra. A palavra de ordem dos afro-descendentes foi "reparação" das injustiças cometidas contra a raça ao longo dos cinco séculos do Brasil.Dois cortejos foram organizados pelas entidades do Movimento Negro Unificado. O primeiro, denominado 18ª Marcha Zumbi dos Palmares (homenagem ao ícone da luta pela liberdade dos escravos) que lembrou João Cândido, o líder da Revolta da Chibata, ocorrida no Rio de Janeiro em 1910, saiu da Praça do Campo Grande em direção ao centro histórico. Da sede do bloco Ilê-Aiyê, no Curuzu, o segundo cortejo também seguiu para o Pelourinho num percurso de oito quilômetros. As duas passeatas se encontraram para realizar um ato conjunto.Os negros passaram por ruas, igrejas e sobrados que seus antepassados construíram com as próprias mãos nos séculos 16, 17, 18 e 19. O monumento mais reverenciado é a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, do século 18. Foi erguida graças ao dinheiro que os escravos conseguiram em pequenos "bicos", depois de realizarem as tarefas nas casas dos seus senhores.Além de contribuir financeiramente, eles trabalharam na obra nas horas de descanso, carregando pedras de uma pedreira próxima até o canteiro. Vem daí a expressão "descansar carregando pedras", muito conhecida na Bahia. "Evento como essas caminhadas dão visibilidade ao movimento negro", disse o presidente do bloco Ilê-Ayiê, Antonio Carlos Vovô.Ao contrário dos anos anteriores, o clima da marcha foi de esperança de que o novo presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, cumpra as promessas de campanha e adote medidas que diminuam as desigualdades sociais entre negros e brancos no Brasil.

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