Na Bahia, ACM era homenageado enquanto estava vivo

Todas as principais cidades baianas têm pelo menos uma via ou espaço público com o nome do senador

Tiago Décimo, Estadão

20 de julho de 2007 | 19h58

O pedreiro Antonio Carlos Santos da Paixão, de 63 anos, orgulha-se de morar na Rua Antonio Carlos Magalhães, em Salvador (BA), ainda que ela esteja localizada no bairro periférico de Sussuarana. "Foi a gente mesmo que escolheu o nome da rua, lá quando ela foi feita, uns 30 anos atrás", afirma, orgulhoso. "O 'cabeça branca' (apelido de ACM entre os baianos), além de ser meu xará, fez muita coisa por aqui."   Veja também: Morre o senador Antonio Carlos Magalhães Trajetória de ACM Fotos dos preparativos do velório na Bahia No vídeo mais acessado no YouTube, ACM defende ditadura Veja mais vídeos do senador baiano Frases do senador Site oficial do senador Galeria de Fotos  ACM visita o Estado de S. Paulo    Já a dentista Ana Luíza Ribeiro, de 33 anos, não gosta muito de ter seu consultório instalado na Avenida Antonio Carlos Magalhães, no bairro de classe média alta do Itaigara, também na capital baiana. Paulista e simpatizante política dos adversários de ACM no Estado, ela afirma que, por muito tempo, ouviu gracinhas dos amigos do Estado natal por causa do nome da avenida. "Nem mesmo eu entendo por que o nome da avenida era esse quando ele estava vivo."   Fato é que poucos sinais são tão claros sobre a popularidade e o poder que Antonio Carlos Magalhães tinha na Bahia do que a quantidade de homenagens prestadas a ele, ainda em vida, em avenidas, ruas e praças por todo o Estado. Todas as principais cidades baianas têm pelo menos uma via ou um espaço público urbano com o nome do senador, desde a década de 70 - em 1970, ACM foi eleito, pela Câmara Municipal de Salvador, o "prefeito do século" da capital baiana e assumiu seu primeiro mandato como governador.   Para os aliados, as homenagens são uma forma de mostrar o carinho da população pelo líder. Para os adversários, trata-se do símbolo de uma era em que os chamados carlistas dominavam a política estadual - e as homenagens serviriam apenas para demonstrar obediência ao cacique político e, talvez, conseguir benefícios com isso.   O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em visita a Salvador na semana passada, onde anunciou obras de saneamento básico previstas pelo Programa de Aceleração de Crescimento (PAC) na Bahia, chegou a ironizar a situação. "Obras de saneamento não são muito populares por aqui", disse. "Não dá para colocar nome de parentes ou amigos nelas".   Uma das principais reclamações da oposição ao bloco de apoio ao senador foi a mudança, em 1998, do nome do Aeroporto Internacional de Salvador, que se chamava 2 de Julho - principal data cívica do Estado - e passou a ser Luís Eduardo Magalhães, nome do filho de ACM, vitimado naquele ano.   Em Salvador, a Avenida Antonio Carlos Magalhães é uma das mais importantes vias de distribuição da região do Iguatemi, área da capital baiana que concentra o comércio de classe média e as empresas do setor financeiro. Tem 6,4 quilômetros de extensão e 10,50 metros de largura em cada pista e passa, ainda, pela Estação Rodoviária de Salvador.   Em cidades importantes do Estado, como Porto Seguro, Pojuca, e Canavieiras, Antonio Carlos Magalhães é o nome da praça onde está a prefeitura. Em outras, como Feira de Santana - a segunda maior do Estado -, Ilhéus e Itabuna, é o nome da principal ou uma das principais avenidas.   A quantidade de homenagens a ACM ainda em vida na Bahia acaba chamando a atenção. Na coletânea de crônicas Folclore Político, de Sebastião Nery, por exemplo, conta-se o caso - supostamente real - de um então estudante de Direito paulista que ia passar o carnaval em Salvador. Seu pai, então, dá um cartão com o nome de um amigo (o próprio ACM) e seu telefone, dizendo que, caso houvesse problemas, o estudante poderia procurá-lo.   Na volta da viagem, o estudante avisa ao pai que seu amigo havia morrido. O pai desmente a informação. O filho, então, argumenta: "Eu vi lá. A cidade está toda cheia de homenagens a ele. É Avenida Antonio Carlos Magalhães, Praça Antonio Carlos Magalhães, Rua Antonio Carlos Magalhães. Esses nomes não são dados a gente que morre?"

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