Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

N. Scott Momaday: 'O encanto sagrado das palavras; poder é linguagem'

Nada é mais poderoso do que as palavras, que têm imensa carga de interpretações e nos permitem influenciar nossas vidas e os outros

N. Scott Momaday, Especial para o Estado

07 de novembro de 2019 | 05h00

O termo “poder” está em todos os lugares no nosso mundo. Por isso, a expressão “inflação de palavras” vem à mente. Muito do que encontramos na imprensa escrita, na televisão e na publicidade diz respeito ao conceito de poder.

Mas o que é esse conceito? O que é poder? A verdade é que a palavra tem imensa carga de interpretações. As definições são múltiplas; o dicionário lista um número incomum de significados. Certamente, o poder é o que é – aquilo que nos permite influenciar, se não mesmo determinar, o curso de nossas vidas.

E é uma palavra.

As palavras são poderosas. Como escritor, minha experiência me diz que nada é mais poderoso. A linguagem, afinal, é feita de palavras.

As palavras são símbolos conceituais; elas têm propriedades denotativas e conotativas. A palavra “poder” denota força, força física, resistência. Mas conota algo mais sutil: persuasão, sugestão, inspiração, segurança.

Considere as palavras de Marco Antônio em Júlio César de Shakespeare:

“Grita ‘Havoc!’ e deixa escapar os cães de guerra;

Que este ato sujo cheire acima da terra

Com homens carniceiros a gemer para o enterro”.

Pode ser difícil encontrar palavras mais carregadas de poder para incitar, inflamar, provocar violência e destruição. Mas há, naturalmente, outras expressões de poder em palavras.

Podem ser sobretudo pessoais. Podem alcançar nossas sensibilidades de maneiras diferentes e individuais, talvez porque têm associações diferentes para nós. A palavra “Holocausto” me assusta, porque os sobreviventes dos campos de morte nazistas me falaram de seu sofrimento. Seja como for, a palavra é intrinsecamente poderosa e perturbadora.

A palavra “filho” me encanta; a palavra “amor” me confunde; a palavra “Deus” me mistifica. Eu vivi minha vida sob o feitiço das palavras; elas empoderaram minha mente.

As palavras são sagradas. Creio que são mais sagradas para as crianças do que para a maioria de nós. Quando eu pude dar meus primeiros passos no idioma, meu pai, indígena americano, membro da tribo Kiowa, me contou histórias da tradição oral Kiowa. Elas me transportaram. Elas me fascinaram e entusiasmaram. Alimentaram minha imaginação. Alimentaram minha alma. Na verdade, nada significou mais para mim na formação da minha visão do mundo. Compreendi que a história é o motor da linguagem, e que as palavras são a medula da linguagem.

Vários anos atrás, estava em um palco com o paleoantropologista queniano Richard Leakey, em Chicago. Falávamos sobre o tema das origens, especificamente a origem dos seres humanos. O senhor Leakey sustentou que nos tornamos humanos quando nos tornamos bípedes, e seu argumento era convincente. Mas discordei: com certeza nos tornamos humanos quando adquirimos linguagem, um ponto de vista que continuo a defender.

A linguagem é o que separa a nossa espécie de todas as outras. É, como entendemos o termo, uma invenção humana, um sistema de comunicação baseado em sons e símbolos – palavras, faladas e escritas. O cientista e escritor Lewis Thomas, em seu livro The Fragile Species, especula sobre a origem da linguagem. As pessoas estavam vivendo em cavernas, ele escreveu, e um dia duas comunidades se uniram. Surgiu uma massa crítica de crianças. As crianças brincaram durante todo o dia e, no final desse dia, tínhamos uma linguagem.

Parece incrível que uma criança se aproprie da linguagem aos 2 ou 3 anos de idade, mas isso acontece no curso normal dos acontecimentos. Acontece, suspeito, porque as crianças gostam de brincar com as palavras, e não têm medo delas. Só com o tempo passam a conhecer o espectro do poder nas palavras, que podem ferir e exaltar, promover a guerra e a paz, expressar ódio e amor. Em meu tempo como professor de inglês e literatura americana, tive a sorte de dar cursos de tradição oral de nativos americanos. Há uma fórmula nessa tradição que diz: “No começo havia a palavra, e ela era falada”.

Pode ser que o poder essencial da linguagem seja concretizado pela comunicação boca a boca. A tradição oral é incrivelmente mais antiga do que a escrita, e requer que levemos as palavras mais a sério. Não se deve desperdiçar palavras. Deve-se falar com responsabilidade, escutar com atenção e lembrar-se do que se diz.

Há uma receita navajo para pacificar um inimigo. Assim diz:

Ponha os pés no chão com pólen.

Abaixe as mãos com pólen.

Abaixe a cabeça com pólen.

Então seus pés são pólen;

Suas mãos são pólen;

Seu corpo é pólen;

Sua mente é pólen;

Sua voz é pólen.

A trilha é linda.

Fique imóvel.

Isso sim é poder.

*N. Scott Momaday é autor, poeta e dramaturgo. Venceu o Prêmio Ken Burns de Tradição Americana 2019. Seu romance 'House Made of Dawn' recebeu o Prêmio Pulitzer de Ficção em 1969

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