Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Mundo novo

Os números do emprego hoje não têm nada a ver com os números da indústria; fenômeno vai continuar depois da pandemia

J.R.Guzzo, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2021 | 15h24

Até algum tempo atrás, o encerramento de atividades de uma fábrica, principalmente quando ligada a um grande nome da indústria, era considerado um desastre. Muita gente boa, inclusive, já usou a perspectiva de parar as máquinas como pressão para conseguir dos governos alguma coisa que estava querendo – e os governos, também muitas vezes, aceitaram, em nome da “preservação de empregos”. Não mais. A Mercedes-Benz, uma das mais antigas, importantes e bem reputadas empresas da indústria automobilística brasileira, acaba de fechar uma fábrica no interior de São Paulo, onde produzia carros “premium” – e praticamente não houve ruído algum.

É uma má notícia, sem dúvida, pois nenhum país cresce, cria renda e gera oportunidades fechando fábricas. Mas não é mais o que era – porque as fábricas, a indústria automotiva e a economia brasileira não são mais o que eram. A questão, aí, é o emprego. A Mercedes, ao fechar essa operação – sua produção de caminhões e de ônibus continua em ritmo normal – suprimiu 370 postos de trabalho. E isso simplesmente não é nada, no mercado de trabalho atual.

Os empregos, hoje em dia, estão em outros lugares – e seus números não têm nada a ver com os números da indústria. Só na Grande São Paulo, só no ano de 2020 e só no setor de entregas a domicílio, foram criados possivelmente 50.000 novas vagas – mais de 100 vezes o que se perdeu na fábrica fechada da Mercedes. Estima-se que haja 280.000 motoboys trabalhando atualmente na região; no Brasil todo, segundo cálculos do Dieese, são 950.000. É oito vezes mais que o número total de empregos nas montadoras brasileiras, calculado no momento em 120.000.

A covid, sobretudo por conta da explosão na entrega de refeições a domicílio, responde por uma parte destas cifras – mas só por uma parte. O fenômeno, segundo todos os técnicos na área, vai continuar depois da pandemia. É um mundo novo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.