Evelson de Freitas/Estadão
Os líderes Chequer (centro), do Vem Pra Rua, posa com Renan Santos e Kim Kataguiri, do MBL Evelson de Freitas/Estadão

Multidão na rua e barulho na janela

Movimentos anti-Dilma se organizam em grupos de WhatsApp e negam ter grandes financiadores

Valmar Hupsel Filho,Clarissa Thomé, O Estado de S. Paulo

21 de março de 2015 | 17h00

Parado em frente a um restaurante da zona sul em que costuma se encontrar com colegas de movimento, Rogério Chequer desliza o dedo sobre o telefone celular e mostra uma lista de grupos de WhatsApp que rola tela acima. “Aqui ó: este é o Vem Pra Rua”, afirma. 

Em outro ponto de São Paulo, no centro, Renan Santos abre as portas de uma sala de dois ambientes onde se veem mesas de trabalho bagunçadas e rodeadas de instrumentos musicais. “Este aqui é o ‘aparelho’ do Movimento Brasil Livre”, diz, usando a expressão com a qual militantes de esquerda se referiam a seus esconderijos na ditadura. 

Os líderes dos dois principais movimentos organizadores dos protestos anti-Dilma, que no espectro ideológico estão no que se pode chamar de direita liberal, dizem que se valem de estrutura mínima para organizar atos como o de domingo passado, que os elevou ao patamar de maior pedra no sapato da presidente Dilma Rousseff fora do Congresso.

Com a adesão do partido Solidariedade e da Força Sindical, de grupos periféricos como o Revoltados On Line e Movimento Endireita Brasil, e até de organizações de ideologias mais radicais como o SOS Forças Armadas, o Intervenção Já e Quero Me Defender, que pedem a intervenção militar, eles organizaram, no domingo da semana passada, a maior manifestação popular do País desde as “Diretas-Já”. 

“Nosso escritório é no WhatsApp”, diz Renan, de 30 anos, num discurso muito parecido ao de Chequer, de 46 anos, também empresário. Ele explica que a sala usada pelo Movimento Brasil Livre, no sétimo andar de um edifício comercial localizado na Avenida Brigadeiro Luís Antonio é, na verdade, a sede da empresa em que ele, o irmão e amigos produzem videoclipes e campanhas pela internet para sobreviver. O custo com o aplicativo de trocas de mensagens instantâneas em telefones celulares é zero. 

A despeito das especulações de que são financiados por partidos políticos de oposição, pelos bilionários irmãos Kock, pelo empresário Jorge Paulo Lemann - o homem mais rico do Brasil, segundo a revista Forbes - e até pela CIA, os líderes do Movimento Brasil Livre, ou MBL, e doVem Pra Rua, ou VPR, juram que vivem apenas de doações de simpatizantes - e nenhum desses simpatizantes está na lista acima. “Estamos até agora esperando nosso milionário. Se sem grana já estamos fazendo esse barulho, imagine com dinheiro”, ironiza Renan. 

Ele conta que o grupo recebe doações via PayPal - sistema de pagamento online. “São pequenas doações, de R$ 50, R$ 30 e até de R$ 2. A maior delas foi de R$ 1 mil, salvo engano de uma mulher de Campina Grande”, relata. De gozação, o grupo passou a confeccionar e distribuir entre os doadores uma carteirinha com os dizeres “eu sou agente da CIA”. 

Desde a semana passada o MBL passou a usar do artifício de vender camisetas e adesivos pela internet para arrecadar dinheiro. O investimento foi de R$ 11 mil para a confecção das peças e, até a sexta-feira, o retorno foi em torno de R$ 8 mil, segundo Renan. Camisetas são vendidas a R$ 40 e os kits com adesivos, a R$ 25. 

O dinheiro é depositado nas contas pessoais dos organizadores porque o MBL não existe formalmente. “Sabemos que em algum momento teremos que existir formalmente, mas nosso medo é se perder na burocracia, e perder a agilidade e leveza que temos hoje”, diz Renan. Ele explica que o que entra é usado para cobrir os custos de divulgação das atividades na internet e as manifestações de rua. “Temos dificuldade de captar recursos porque somos muito jovens e não temos relação com empresários. Nosso coordenador de Belo Horizonte, por exemplo, tem 17 anos.” 

No protesto de domingo passado, integrantes do Vem Pra Rua, como a fisioterapeuta Verena Shcultze, de 47 anos, estavam vendendo por R$ 25 camisas amarelas com a marca do grupo. A estampa em preto era uma mão sem o dedo mindinho, numa alusão de gosto duvidoso ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e a palavra “Basta!”. “Mandei confeccionar as camisas e estou vendendo a preço de custo”, diz ela, que afirmou não ter votado na última eleição porque estava trabalhando na Suíça. 

Chequer afirma que o grupo não vende camisas. Prefere dizer que são doações cujo valor mínimo é de R$ 25. “A gente sugere doações de R$ 25, se alguém quiser dar R$ 50, ok. Sabe quanto a gente arrecadou vendendo... arrecadando doações com as camisetas? R$ 20 mil.” 

O valor arrecadado cobriu parte dos custos da manifestação. O aluguel do trio elétrico usado pelo grupo, diz, custou R$ 9 mil. “O segredo é que tem muita gente trabalhando para isso. Você se surpreenderia com a quantidade de gente envolvida. Sabe quanto que a gente gasta com essas pessoas? Zero. As únicas pessoas remuneradas no ato eram poucos seguranças - e nem todos, porque alguns deles estavam trabalhando voluntariamente - e o pessoal da mesa de som. Só.” 

Diferente do MBL, que possibilita a doação de qualquer interessado, o VPR recebe doações, mas somente dos seus membros. “Temos um grupo de WhatsApp com 90 membros. Se arrecadarmos R$ 200, R$ 300 de cada um, quanto não arrecadaríamos?”, diz Chequer. O núcleo duro do grupo, que não tem sequer uma sede física, é formado por pessoas bem empregadas em grandes empresas e profissionais liberais, cujas identidades Chequer prefere preservar mesmo diante da insistência da reportagem. 

Profissionalismo. Em documento interno da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, revelado na terça-feira passada pelo portal estadao.com.br, o governo federal elogiou o “profissionalismo” da ação online dos grupos que organizaram os atos de domingo passado. O texto também acusa os grupos de usar robôs especializados em replicar mensagens de forma mais rápida e eficiente que a capacidade humana, para “bombar” suas publicações nas redes sociais. “A partir do final de janeiro, as páginas mais radicais contra o governo passaram a trabalhar com invejável profissionalismo, com uso de robôs e redes de WhatsApp”, diz o texto. 

Segundo o documento, com o uso desse artifício o Vem Pra Rua conseguiu engajamento de 4 milhões de pessoas nos últimos três meses enquanto as páginas de Dilma e do PT foram compartilhadas por 3 milhões de internautas. “Não usamos robôs. Conseguimos esse alcance sem uso de qualquer mecanismo. A força e a capilaridade da causa foram suficientes para alcançar o número de pessoas que alcançamos”, afirma Chequer. Só pelo Facebook, o grupo estima ter alcançado 12 milhões de pessoas na semana passada. 

Para Renan, o uso de robôs pode ser bom para marcas e candidatos a cargos eletivos, mas seria uma estratégia ineficiente para movimentos de rua como o MBL ou o VPR. “Se queremos que pessoas estejam presentes em eventos de rua por que iremos usar perfis vazios?”, argumenta. Segundo ele, a força dos movimentos está na rede de colaboradores que replicam as mensagens de forma direta. Mensagens que chamam multidões e fazem barulho, como nos panelaços ouvidos em várias capitais durante pronunciamentos de Dilma na TV, todos convocados e espalhados via celular e redes sociais. 

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No Rio, a 'nova direita' ainda não se entende

RIO - Em comum, eles se identificam como a “nova direita”, querem a saída da presidente Dilma Rousseff e têm aversão a partidos políticos - o PT, principalmente. As lideranças que estiveram à frente das passeatas de 15 de março no Rio dizem não ter recebido nenhum tipo de apoio formal para as manifestações: cotizaram-se para financiar carros de som e faixas. Têm origens diferentes e divergem ao menos num ponto específico: a intervenção militar. </p>

O Estado de S. Paulo

21 de março de 2015 | 15h02

O publicitário Hermes Gomes, de 33 anos, é um dos fundadores do movimento União Contra a Corrupção (UCC). Filho de comerciante e dona de casa, por dez anos militou no PSB, participou do movimento estudantil universitário e chegou a ser candidato a deputado estadual em 2010 - teve 97 votos. “Conheci a esquerda por dentro. Quando entendi o jogo político e o jogo da esquerda, me desiludi”, conta. Daí, aproximou-se “da ala conservadora da direita”, diz ele. Nas redes sociais, Gomes encontrou quem compartilhasse das mesmas ideias. A UCC foi assim criada, e partiu para as ruas após a reação violenta da polícia paulista contra manifestantes em junho de 2013. “Ficamos nas ruas até que os arruaceiros tomaram conta das manifestações. A infiltração da esquerda tirou o povo de bem das ruas”, afirma. Ele diz que é contra a intervenção militar. 

“Se o MST, a CUT, bancados pela esquerda, ficarem insatisfeitos com a pressão que o povo está fazendo e se juntarem aos black blocs para gerar a violência ou se armar, só aí poderia justificar uma intervenção militar”, destaca o publicitário. 

O empresário Rodrigo Fonseca, de 25 anos, que se apresenta como Rodrigo Brasil, administra no Rio o grupo Revoltados On Line, perfil com 740 mil curtidas no Facebook. Morador da Baixada Fluminense, região pobre vizinha à capital fluminense, é casado e pai de dois filhos. 

Estudou em escola pública e não cursou faculdade. Na manifestação em frente à Candelária este mês, que reuniu apenas 39 pessoas, estava entre os que jogaram garrafas de água no sociólogo Ricardo Sant’Anna Reis, que chamara o grupo de “golpista”. “Não defendo o golpe ou intervenção militar. A Constituição diz: ‘Todo poder emana do povo’. Não precisamos de militares para que as coisas sejam resolvidas.”

Já o corretor de imóveis Luiz Eduardo Oliveira, de 46 anos, do Olhar Brasileiro e Resistência RJ, defende a intervenção militar. “Sou um cara conservador, mas não sou alienado.”

No dia 28, quer reeditar a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, nome do maior protesto contra o presidente João Goulart, realizado em 1964, às vésperas do golpe militar que o depôs.

Filho de empregada doméstica, não conheceu o pai. A mãe morreu quando ele tinha 5 anos, em aborto malfeito. “Por isso sou contra o aborto.” Foi criado por parentes e sofreu maus-tratos, que lhe deixaram 28 cicatrizes na cabeça. Morou na rua. Aos 19 anos, ingressou como praça da Aeronáutica. “Ali aprendi a ser homem”, diz, emocionado. Está no quinto casamento. Não tem filhos. 

Por telefone, o corretor de imóveis mudou o local da entrevista meia hora antes do encontro. “Estou sendo monitorado pelo serviço reservado da esquerda.” 

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