Multidão agride jornalistas insuflada por madeireiros no PA

Uma equipe de televisão da Rede Record, de São Paulo, foi agredida juntamente com ativistas do Greenpeace, neste domingo à tarde, no aeroporto da cidade de Porto de Moz, nosudoeste do Pará. Os jornalistas haviam gravado imagens para um programa especial sobre a vida das comunidades ribeirinhas no Rio Jaraucu, que enfrentam a invasão de madeireiros em suas terras. Instigada pelo prefeito de Porto de Moz, Gerson Campos (PSDB) - dono de duas serrarias - uma multidão cercou o grupo noaeroporto para impedir que as imagens fossem levadas para São Paulo. O prefeito nega a agressão e acusa o Greenpeace de insuflar os ribeirinhos contra as autoridades do município. Os jornalistas e os ativistas do Greenpeace foram retirados do local em uma kombi da Polícia Militar, mas o veículo foi cercado, o grupo, agredido e a Record teve todas as suas fitas de vídeo destruídas. "Esta é uma terra sem lei. É vergonhoso que a ausência do Estado permita que representantes do poder público, como o prefeito de Porto de Moz, se comportem como algozes da população que deveriamproteger". disse Paulo Adário, coordenador da campanha Amazônia, do Greenpeace. Segundo Adário, as comunidades da região estão sujeitas à força e à intimidação por lutar contra a destruição de suas terras, um dos últimos remanescentes florestais azoavelmente intocados nesta parte da Amazônia. "O pior é que jornalistas que aqui vêm para mostrar a luta desigual das comunidades são agredidos e expulsos. Sem imprensa livre, só vai sobrar aqui a violência, a impunidade e a destruição", resumiu o ambientalista. PoliciaSeis policiais militares escoltaram o grupo até o porto da cidade, de onde eles foram devolvidos ao barco do Greenpeace. A organização ambientalista estava na região a convite de dezenas de comunidades locais que bloquearam o rio Jaraucu desde o dia 19, em protesto contra a exploração criminosa de madeira em suas terras. Os comunitários pretendem criar uma reserva extrativista - a "Verde para Sempre" - como forma de garantir o desenvolvimento sustentável da região. O protesto foi encerrado por falta de segurança às comunidades locais. No segundo dia do protesto, uma balsa contendo 113 toras de madeira ilegal foi retida pelo bloqueio do rio determinado pelos moradores da área. A carga era transportada por André Campos, irmão do prefeito de Porto de Moz. Greenpeace salva vidasDepois de tensa negociação, o madeireiro concordou com a exigência dos comunitários e parou a balsa às margens do rio bloqueado. De madrugada, ele soltou as amarras da balsa eavançou em direção aos pequenos barcos que fechavam o rio de lado a lado. Um inflável do Greenpeace conseguiu reter a balsa por tempo suficiente para que cinco barcos de ribeirinhos que participavam do bloqueio saíssem da frente. Com facas de cozinha, mulheres cortaram as cordas que prendiam seus barcos ao cabo de aço que fechava o rio.Oitenta e seis pessoas - a maioria crianças, mulheres e idosos ? que estavam nos barcos escaparam de ser seriamente feridas ou mortas. FeridosIrritados com a ruptura do acordo pelo madeireiro, os ribeirinhos ocuparam a balsa e o barco que a empurrava rio abaixo. A tripulação da balsa reagiu violentamente e umabriga entre madeireiros e comunitários resultou em três feridos leves.O Greenpeace divulgou nota lamentando a violência. "Se não fosse o Greenpeace, a gente teria morrido. Quando a gente começou a gritar por socorro, o Greenpeace colocou seus próprios equipamentos contra aquela imensa balsa cheia de toras para salvar nossas vidas", disse Letrizia Duarte, da comunidade São Sebastião de Jussara. Um pequeno contingente da Polícia Militar de Altamira (PA) foi ao local e esperou a chegada de dois agentes doIbama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), que apreenderam e multaram o carregamento de madeira ilegal. Lideres comunitários acompanharam a Policia Militar, num barcodo Greenpeace, que apreendeu rio acima uma segunda balsa transportando 90 toras de madeira sem documentação. O Ibama constatou que a balsa e a madeira também pertenciam a familia Campos. O irmão do prefeito dePorto de Moz, André Campos, foi multado em um total de R$ 196.291,00 e o equipamento foi apreendido.

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