Mulheres não têm de pedir licença aos homens, diz Lula

Ao participar hoje de um café da manhã com cerca de 400 funcionárias do Palácio do Planalto, em comemoração do Dia Internacional da Mulher, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em discurso de improviso, mas repetindo em parte o que dissera no rádio no programa ?Café com o Presidente?, falou sobre os novos espaços conquistados pelas mulheres nos últimos anos, principalmente no Brasil. Segundo o presidente, muitos desses avanços se devem à participação da mulher na política, mas ele lembrou que ainda precisa haver muita mudança na cultura para resolver problemas como, por exemplo, violência contra a mulher, pagamento de salários diferenciados e divisão de tarefas domésticas. "A consciência política faz a espécie humana evoluir", disse o presidente, ao comentar que, quando a Constituinte foi instalada, em 1988, o Congresso não estava preparado para receber as mulheres e o cafezinho da Câmara não tinha nem banheiro para mulher."Eu comecei no tempo em que sindicato era coisa de homem", lembrou ele, constatando que, hoje, elas dirigem muitos sindicatos. "As mulheres estão em partidos políticos, estão no Poder Judiciário, estão governando prefeituras, estão governando Estados", afirmou, emendando com uma brincandeira, que provocou muitos risos na platéia: "E espero que pare por aí". Mudança culturalLula disse que as mulheres precisam entender que suas conquistas não serão dadas por leis, por um presidente da República ou por políticos, mas que dependem de consciência e mudança cultural. Lula afirmou, também, que as mulheres não têm de pedir licença aos homens, citando o exemplo da atleta Daiane dos Santos, que no fim de semana ganhou mais uma medalha de ouro. No discurso, Lula defendeu a "independência econômica" da mulher, observou que ela se submete a dupla e até tripla jornada, e foi muito aplaudido ao sugerir que as tarefas domésticas sejam divididas entre homens e mulheres. "É preciso consciência para que o companheiro reparta dentro de casa as tarefas que não são obrigação apenas de uma pessoa, e eu acho que isso vem com o tempo, vem na hora que a gente começar a dar a educação correta para a criança na escola", comentou. "Certamente estaremos dando passos importantes para criarmos uma geração muito melhor civilizada do que temos hoje e muito melhor relacionada do ponto de vista do entendimento entre homens e mulheres", afirmou. Diferença salarialAinda no café da manhã com as funcionárias do Palácio do Planalto, o presidente insistiu na necessidade de mudança cultural, lembrando que existe uma lei que proíbe que haja diferença salarial entre homens e mulheres, mas a realidade é outra. "Não é de hoje que é proibido à mulher ganhar menos que o homem. Há muitos anos a lei diz que não pode haver separação dentro do mesmo ambiente de trabalho. Entretanto, isso continua a existir, mesmo a lei existindo", lamentou.Violência e mortandadeLula aproveitou seu discurso para incentivar as mulheres a denunciarem a violência de que são vítimas. "Eu sou filho de uma mulher que nasceu analfabeta, teve 12 filhos, quatro morreram antes de completar 30 dias de vida e que morreu analfabeta", contou o presidente, ao comentar que, apesar disso, "na primeira tentativa de violência feita contra ela pelo seu marido, ela simplesmente rompeu com ele e foi viver sozinha com oito filhos e provou que, quando a mulher tem garra, determinação, ela não tem de ficar dependendo de uma pessoa que, às vezes, ao invés de ajudar, atrapalha". Também presente ao café da manhã, o ministro da Saúde, Humberto Costa, disse que, em 20 anos, não houve melhora nos índices de mortalidade materna e anunciou a meta de reduzir em 75%, até 2015, o número de mulheres que morrem durante o parto. Costa disse que é preciso fazer um pacto contra a mortalidade materna e reforçou a necessidade de a mulher fazer o planejamento familiar. O ministro quer reduzir em 15%, até o fim de 2006, os atuais índices de mortalidade materna e neonatal. Em seu discurso, Humberto Costa falou também da importância de dar assistência humanizada a mulheres que sofreram abortamento. Na solenidade comemorativa do Dia Internacional da Mulher, o presidente Lula estava acompanhado da primeira dama, Marisa Letícia. Entre os presentes estavam a secretária Especial de Políticas para as Mulheres, Nilcéa Freire, a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), e, além do ministro da Saúde, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Luiz Dulci.

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