Mulheres já são metade dos infectados pela aids

As mulheres são metade dos 38 milhões de casos de adultos infectados pelo HIV, o vírus precursor da doença, segundo o relatório Aids Epidemic Update, divulgado nesta terça-feira.O documento é elaborado a cada dois anos pela Organização das Nações Unidas para o Combate à Aids (Unaids), outros organismos da ONU e pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Vinte anos depois que foi descoberta como uma doença de homossexuais masculinos "se poderia dizer que houve uma feminização" da síndrome, afirmou nesta terça-feira em Londres o diretor-executivo da Unaids, Peter Piot."É a primeira vez na história da epidemia que o número de mulheres que vivem com o HIV chega a 50% do total de casos", ressaltou. Já o diretor para Américas e Europa da Unaids, Luiz Loures, disse no Rio que, se nada for feito para alterar as atuais tendências da epidemia, 68 milhões de pessoas morrerão nos próximos 20 anos em decorrência da aids - cinco vezes mais do que o registrado desde o primeiro caso - e 29 milhões serão contaminadas pelo HIV até 2010.Há dez anos, a OMS fazia prognósticos de 30 a 40 milhões de portadores do vírus para o fim do século 20. Em 1992, foram notificadas 446.681 pessoas infectadas no mundo. No entanto, o organismo calculava que mais de 1 milhão já tinha o vírus. No Brasil, há dez anos, existiam 30.510 casos notificados, 57% em São Paulo.Atualmente as regiões mais ameaçadas são África, Caribe e Leste Europeu. Mas a Unaids também está preocupada com alguns países muito populosos, como Rússia, Índia, China, Nigéria e Etiópia, onde a aids só chegou com força na década de 90, mas agora se espalha com rapidez.Nessas regiões, disse Loures, a doença deixou de ser só um problema de saúde pública e representa uma ameaça para a estabilidade política e social.Para o diretor da Unaids, não há motivos para otimismo em relação à epidemia. "Temos todas as razões para estar pessimistas, mas é preciso lembrar que as condições para mudar essas tendências existem. Basta vontade", declarou Loures.A primeira medida a tomar, segundo ele, é aumentar o investimento mundial no combate à doença. Em 2002, o mundo gastou - incluindo os recursos dos governos nacionais - US$ 3 bilhões na sua prevenção e no seu tratamento, mas seriam necessários pelo menos US$ 10,5 bilhões para conseguir reverter a situação atual.O aumento é grande, mas Loures observa que os US$ 3 bilhões gastos neste ano representam um valor seis vezes maior do que o investido em 1998.A segunda providência é tentar elevar o número de países com programas de distribuição gratuita de medicamentos anti-retrovirais - o coquetel que controla a ação do HIV.Hoje, 90% dos casos de aids se concentram no mundo em desenvolvimento. Mas nestes países apenas 230 mil pessoas estão recebendo tratamento com o coquetel. O Brasil concentra a maioria dos tratados (170 mil), mas toda a África tem só 30 mil recebendo algum remédio contra a aids - apesar de este continente ter registrado 2 milhões de mortes decorrentes da doença em 2001.A África continua a ser o lugar mais afetado pela epidemia: dos 42 milhões de casos no mundo, tem quase 30 milhões. Dos 5 milhões de novas infecções estimadas para 2002, os africanos deverão ter mais de 3,5 milhões. E dos 3,1 milhões de mortes, mais de 2,4 milhões deverão acontecer no continente.Cotado para ser um porta-voz da luta mundial contra a aids a partir do ano que vem, após deixar o governo, o presidente Fernando Henrique Cardoso lançou nesta terça-feira a campanha brasileira de prevenção para o Dia Mundial de Luta contra a Aids, marcado para o próximo domingo.O tema é preconceito e discriminação e foi definido pela Organização das Nações Unidas (ONU)."Confio na generosidade dos brasileiros para encarar com naturalidade esta epidemia. E confio porque o Brasil já mostrou capacidade pioneira para mudar de comportamento em função de se prevenir contra o HIV", disse Fernando Henrique nesta terça.

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