Mulher argentina aguarda extradição de seqüestrador

A descoberta de um carrasco da ditadura argentina, de mais uma operação de seqüestro no Brasil e da existência de um campo de concentração ainda desconhecido nos arredores de Buenos Aires, nas investigações que apuraram o desaparecimento dos militantes montoneros ? peronistas radicais ? Lorenzo Ismael Viñas e padre Jorge Oscar Adur ? indicam que muitas mortes do período militar no Cone Sul ainda não estão esclarecidas.A esposa de Viñas, Claudia Allegrini, que esteve em Porto Alegre nesta quarta-feira para contatos com entidades de defesa dos direitos humanos, refere-se à sua longa história de buscas, agora próxima do fim, para acreditar que Argentina, Brasil, Uruguai, Paraguai e Chile ainda precisam esclarecer as circunstâncias de muitos desaparecimentos.Seqüência de dramasA visita de Claudia ao Brasil no dia 26 de junho não foi mera coincidência. Nessa mesma data, há 22 anos, seu marido e o padre Adur desapareceram em Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, quando viajavam, em dois ônibus diferentes, para participar de recepções ao papa João Paulo II no Brasil. Começava então uma seqüência de dramas, mortes, despistes e até do casamento de um algoz com a vítima que caberia melhor num roteiro cinematográfico.Um dos participantes da operação que capturou Viñas e Adur foi preso em Barcelona, na Espanha, pouco depois de voltar a usar seu nome verdadeiro, Claudio Scagliuzzi, em 26 de agosto do ano passado. Descobriu-se então que ele estava casado com Silvia Torchinsky, uma ex-militante montonera que ele havia ajudado a sair da prisão ao mesmo tempo em que participava do assassinato dos demais detidos.Órgão de inteligênciaO juiz Juan Del Olmos Galvez decide até 26 de agosto deste ano se concede a extradição pedida pelo juiz argentino Claudio Bonadio. ?Não queremos vingança, mas justiça?, afirma Claudia. Scagliuzzi trabalhava no Batalhão 601, um órgão de inteligência argentina, como agente civil. Nessa condição, ele não teve direito aos indultos concedidos aos militares que agiram como torturadores sob ordens superiores.Jogados de aviõesClaudia, que hoje trabalha na Secretaria de Direitos Humanos do Ministério da Justiça da Argentina investigando assassinatos ocorridos entre 1970 e 1983, descobriu que Viñas e Adur ficaram presos num sítio próximo ao Campo de Mayo que ainda não havia aparecido como local de detenções políticas e torturas. De lá eles foram levados, em dias diferentes, para serem jogados de aviões nas águas do Rio da Prata, segundo Silvia confidenciou a Claudia em cartas que trocaram nos últimos anos.Nome falsoNa correspondência, Silvia jamais revelou sua condição de esposa de um agente dos órgãos de repressão que havia participado diretamente do desaparecimento de Viñas. Enquanto Claudia empreendia sua busca pelo paradeiro do marido, Scagliuzzi passou a viver com um nome falso na Espanha, infiltrando-se inclusive em organizações de defesa dos direitos humanos e trabalhando como um discreto agente comercial.Ele costumava, conforme relato de Claudia, acompanhar os três filhos de Silvia às atividades da organização Hijos, de ajuda a filhos de perseguidos políticos, e só retomou seu nome depois da morte do pai, a quem passou a atribuir os crimes políticos que cometeu. Foi nessa situação que a investigação conseguiu montar o quebra-cabeças que levou à prisão de Scagliuzzi.

Agencia Estado,

26 de junho de 2002 | 21h07

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