Mujica diz que Cristina Kirchner 'é velha pior que o caolho'

O presidente do Uruguai também ironizou a recente viagem de Cristina Kirchner à Roma

Ariel Palacios, Correspondente em Buenos Aires

04 Abril 2013 | 17h49

BUENOS AIRES - "Esta velha é pior que o caolho". A insólita frase foi dita nesta quinta-feira, 4, pelo presidente do Uruguai, José Mujica, em alusão à presidente argentina, Cristina Kirchner, e seu marido, morto em 2010, o ex-presidente Néstor Kirchner, que tinha o estrabismo como uma de suas mais famosas marcas físicas. Mujica, conhecido por seus comentários sinceros - geralmente fora de protocolo - fez estas declarações durante uma reunião com o prefeito da cidade uruguaia de Florida e outros políticos sem perceber que os microfones estavam ligados e que a imprensa ouvia suas observações sobre a dificuldade nas relações do Uruguai com a Argentina.

"O caolho era mais político...esta velha é mais teimosa", acrescentou Mujica em relação ao casal Kirchner. O presidente uruguaio também indicou que sempre que precisa resolver algo com a Argentina precisa pedir ajuda ao Brasil. "Não vou dar bola nem percorrer o mundo esclarecendo coisa alguma", disse Mujica aos jornalistas minutos depois, quando soube que sua frase havia sido ouvida. Até o final desta tarde, o governo argentino mantinha silêncio sobre as frases do uruguaio.

Mujica também ironizou a recente viagem de Cristina Kirchner à Roma, onde reuniu-se com o cardeal Jorge Bergoglio, entronizado como papa Francisco, a quem entregou de presente uma cuia de chimarrão com uma bomba. Na ocasião, Cristina explicou detalhes sobre como beber chimarrão a Bergoglio, que sempre tomou esta infusão clássica dos Pampas. "Para um papa argentino, com 77 anos de idade, ela (Cristina), vai explicar o que é uma cuia e uma garrafa térmica?"

Logo após os comentários, Mujica tornou-se um virtual herói nas redes sociais, onde sua frase era celebrada no Facebook. No Twitter, virou hashtag, "#EstaViejaEsPeorQueElTuerto" (#EstaVelhaEPiorQueOCaolho).

Ao longo dos últimos anos, o Uruguai sofreu uma saraivada de medidas protecionistas comerciais por parte do governo da presidente Cristina. O antecessor de Mujica, Tabaré Vázquez (2005-2010), enfrentou um virtual bloqueio na fronteira argentina por parte de manifestantes estimulados pelo governo Kirchner que protestavam contra uma hipotética poluição de uma fábrica de celulose instalada no rio Uruguai, que divide os dois países.

Em 2002, com a pequena economia uruguaia afetada pelo colapso financeiro argentino, o presidente Jorge Batlle causou polêmica ao declarar que "os argentinos, do primeiro ao último, são ladrões". Batlle teve que viajar à Buenos Aires, convocado pelo então presidente Eduardo Duhalde (2002-2003), para pedir desculpas. No entanto, Batlle conseguiu esquivar o pedido, chorando em público enquanto rememorava os tempos nos quais havia residido na capital argentina.

Relação bilateral. Há poucas semanas, a primeira-dama do Uruguai, a senadora Lucia Toplansky - famosa por não ter papas na língua, tal como seu marido - declarou que a relação com a Argentina "era muito complicada" e criticou as barreiras que o governo Kirchner coloca à integração regional.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao visitar o Uruguai nesta quinta-feira, defendeu a integração do Mercosul e declarou que "nunca viu ninguém como Mujica".

Perfis. Os analistas destacam que os dois presidentes, embora conjunturais aliados no Mercosul, possuem perfis de vida extremamente diferentes. Mujica esteve preso durante 13 anos, entre 1972 e 1985 em diversos cárceres da ditadura uruguaia, onde foi brutalmente torturado. No mesmo período a presidente Cristina Kirchner enriqueceu como advogada na Patagônia executando hipotecas de pessoas falidas pela política econômica do regime militar argentino.

Enquanto Cristina tem apreço pelas grifes de luxo (é a segunda presidente mais rica da América do Sul, segundo dados da declaração oficial de bens), Mujica mora em um casebre em sua chácara. Há poucos anos trocou sua lambreta por um Volkswagen modelo 1982.

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