Muitos nem sabem de onde vem o dinheiro

Mas benefício vira parte essencial da renda de famílias

Moacir Assunção e Paulo Darcie, SÃO PAULO, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2022 | 00h00

A paraibana Conceição Soares da Silva, de 43 anos - 28 dos quais em São Paulo - enquadra-se à perfeição no perfil dos atendidos pelo Bolsa-Família, programa que integra há um ano, junto com o Renda Mínima, da Prefeitura de São Paulo. Conceição, uma mulher pequena, precocemente envelhecida, que ainda mantém muito do sotaque nordestino de Tacima, distrito de João Pessoa, sustenta a família de cinco crianças com os R$ 75 que recebe do programa federal e os R$ 180 do municipal.O marido, o pedreiro Boaventura, no máximo consegue fazer alguns serviços eventuais. Vítima de um acidente de trabalho, ele não pode pegar peso - o que, aliado aos seus 55 anos de idade, torna quase impossível conseguir um emprego formal. "Se não fosse esse dinheirinho, a gente passaria fome", afirmou.Conceição, o marido e os filhos, com idades entre 2 e 20 anos, vivem em uma casa simples, com paredes sem reboco, em um morro invadido no Jardim Elisa Maria, extremo norte da cidade. Em volta só há casinhas com tijolos vermelhos à vista, típicas da periferia, em outros morros que um dia foram verdes, praticamente nas franjas da Serra da Cantareira. Para chegar ao local, os moradores precisam subir uma escada encravada no morro, com pelo menos 40 degraus. Não há rede de esgoto nem coleta de lixo. A água nem sempre chega e a energia funciona na gambiarra.DESCONHECIMENTOOs R$ 50 do Bolsa-Família são, por enquanto, a única fonte de renda de Meire Hellen Fernandes, de 26 anos, e de sua filha Kellen, de 1 ano e meio, mas ela teme que, a qualquer momento, possa deixar de receber o benefício, já que ele é concedido a pais de crianças de até 1 ano ou de filhos que freqüentam a escola. "Fui na lotérica pegar o dinheiro e a moça falou que estão cortando o dinheiro de quem tem filho com mais de 1 ano. Ainda não cortaram o meu, mas pode ser que da próxima vez não tenha nada para mim."Os vizinhos, da favela Parque São Jorge, nem sabem de onde vem o dinheiro, segundo o líder comunitário Cláudio Freitas. Meire conta que se cadastrou quando estava grávida de 7 meses, e só passou a receber o dinheiro quando sua filha estava com 6 meses . Ela procurou o berçário para poder deixar a filha e ter condições de trabalhar, mas não teve sucesso.

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