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Mudar para não mudar

Onyx Lorenzoni no MEC seria aprofundar a crise interminável na Educação

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2020 | 03h00

Depois de Vélez Rodriguez e de Abraham Weintraub, só faltava o presidente Jair Bolsonaro nomear Onyx Lorenzoni para o pobre (mas muito rico) Ministério da Educação. O MEC, professores, alunos, funcionários e o futuro não merecem isso. Por sorte, ou por enquanto, a cúpula do governo diz que a chance de isso acontecer é “nenhuma, zero, esquece”.

Apesar de tudo, e de todos, o que está no horizonte é o esvaziado Onyx manter a sua esvaziada Casa Civil e o atrapalhado Weintraub manter o seu atrapalhado MEC. Com um detalhe: Onyx é o amigão de 20 anos, o aliado de primeira hora de Bolsonaro, mas, hoje, Weintraub está mais forte do que ele no governo. Incrível? Pois é. Há muitas coisas incríveis acontecendo. 

Se Weintraub tropeça no português mais elementar, e Onyx? Como se diz na cúpula do governo, ele é muito leal a Bolsonaro e contrariou o DEM para apoiar sua candidatura em 2018, mas não é nenhum gênio e não tem o menor vínculo com Educação. Nunca foi sequer professor e, gaúcho, tem uma fala carregada de regionalismos que desconsideram as conjugações verbais e a letra S. O que, evidentemente, não combina com um ministro da Educação. Seria estender a interminável crise do MEC no governo Bolsonaro. 

Ok, Weintraub vai carregar para o resto da vida aquele “imprecionante”, entre outros erros ardidos de português, mas quem dá uma olhada nos discursos e entrevistas do então deputado e agora ministro Onyx diz que a ida dele para o MEC – justamente o MEC – iria anistiar Weintraub. “Ficaria parecendo um letrado, perto do sucessor”, ironiza quem acompanha a ciranda. 

Então, o que fazer com o chefe da Casa Civil? Aparentemente, mantê-lo onde está, com um título, mesa e cadeira no Planalto, secretária e telefone, mas praticamente sem função nenhuma. Coisa de amigo para amigo, tipo pagamento de dívida de gratidão. No máximo, transferi-lo para um outro cargo, mas é complicado, porque qualquer coisa soaria a “cair para cima”. 

E o que fazer com Weintraub? Nada também. Gregos, troianos e, principalmente, especialistas em Educação acham que é o homem errado, na hora errada, no lugar errado. Mas quem são eles? Para Bolsonaro, não são ninguém. Ou não passam de esquerdistas porque, afinal, a Educação, essa “balbúrdia”, é infestada de comunistas e petistas... 

Na avaliação do Planalto, Weintraub vem fazendo “muita coisa boa”. O que, exatamente? Não se sabe. Mas ele é considerado “corajoso”, “audacioso”, capaz de enfrentar o que o Planalto considera esquerdismo de primeiro, segundo e terceiro graus. E é da “turma”, ou seja, da turma ideológica do governo. 

Quanto ao desastre do Enem-Sisu: o presidente e seu entorno reconhecem que é chato, desagradável, que tantos alunos tenham estudado feito loucos e sido prejudicados por erros técnicos. Sim, tudo é resumido a isso, erros técnicos, de uma gráfica. Na verdade, “um azar danado”, porque estava tudo perfeito, irretocável, até que... 

Enfim, o Bolsonaro, que demitiu ou avalizou a demissão do presidente do INSS, do secretário de Cultura e do segundo escalão da Casa Civil, não parece disposto a dar um upgrade nas demissões. Quando se trata de ministros, eles vão ficando. Inclusive, aliás, o denunciado Marcelo Álvaro Antonio, do Turismo. 

As crises na Casa Civil e no MEC produziram uma boa chance para Bolsonaro parar de dizer que manda e passar a mandar de fato numa área fundamental para o governo e numa outra fundamental para o País. Ele já vinha no embalo das demissões de 2020 e era só aprofundar o ritmo, mas, ao que tudo indica, não é o que vai acontecer. Gustavo Bebianno e Santos Cruz caíram por “deslealdade”. Onyx e Weintraub vão ficando por lealdade. Para Bolsonaro, é o que basta.

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