Antonio Cruz/Agência Brasil (04/07/2019)
Antonio Cruz/Agência Brasil (04/07/2019)

Mudança ministerial dá mais poder a Luiz Eduardo Ramos no Planalto

Amigo do presidente há décadas, general operou junto com Braga Netto para definir a troca de comando das Forças Armadas e o reforço da aliança com o Centrão

Roberto Godoy e Andreza Matais, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2021 | 14h00
Atualizado 05 de abril de 2021 | 10h07

As mudanças no ministério do governo de Jair Bolsonaro trouxeram à tona a influência de um amigo do presidente desde o tempo da Escola de Cadetes do Exército. O general da reserva Luiz Eduardo Ramos operou, em parceria com o também general Walter Braga Netto, a missão dada por Bolsonaro de demitir a cúpula das Forças Armadas e consolidar a aliança com o bloco dos partidos do  Centrão.

Foi num encontro no último domingo de março, 28, na casa de Braga Netto, em Brasília, que Bolsonaro decidiu substituir o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, e o comandante do Exército, Edson Pujol. Ramos estava presente à conversa. A troca abalou a caserna e alterou as posições de poder no governo. Braga Netto foi nomeado para a pasta militar e Ramos herdou a cadeira do amigo na chefia da Casa Civil.

Na prática, a dupla resolveu a crise no Ministério da Defesa por meio de conceitos e procedimentos militares, de Estado Maior. Para conter o descontentamento com a saída de Azevedo e Silva, de Pujol e dos então comandantes da Marinha, Ilques Barbosa, e da Aeronáutica, Antônio Carlos Bermudez, Braga Netto e Ramos trataram de fazer uma gestão de redução de danos: montaram a sucessão em menos de 24 horas com nomes respeitados tanto pelas tropas quanto pelo Altos Comandos.

Interlocutores do Palácio do Planalto observam que a dupla formada pelo bonachão Ramos e pelo reservado Braga Netto demonstrou, nos últimos meses, entrosamento nas “missões” ordenadas por Bolsonaro. Como consequência da operação discutida naquele domingo, os dois generais ficaram com ministérios estratégicos.

A Casa Civil coordena as atividades das demais pastas. O ministro-chefe sempre atua como braço direito do presidente. Tem poder no controle das nomeações de cargos e na distribuição de verbas. Ao mesmo tempo em que travou duelo com colegas militares, entrosado com o presidente, Ramos selou sua ligação com Bolsonaro ao construir a aliança com o Centrão.

Ofensiva. Em fevereiro, o general coordenou uma ofensiva que despejou R$ 3 bilhões em emendas parlamentares para obras, atropelando articulações no Congresso, como revelou o Estadão. Com a estratégia, garantiu as vitórias de Arthur Lira (Progressistas-AL), líder do Centrão, para o comando da Câmara e de Rodrigo Pacheco (DEM-MG) à presidência do  Senado. Ouviu elogios de Bolsonaro, que chegou a dizer que ele ficaria com a “jaca” da articulação política, como mostrou o Estadão.

Pressionado pelo Centrão, no entanto, Bolsonaro decidiu nomear a deputada Flávia Arruda (PL-DF) para a Secretaria de Governo, pasta antes chefiada por Ramos. Flávia era um nome ao gosto do general e, principalmente, de Lira, que já tinha indicado a deputada para presidir a Comissão Mista de Orçamento. Assim, o Centrão agora passava a ter sala oficial dentro do Planalto. A troca também foi discutida na casa de Braga Netto, no domingo passado.

Amizade. Braga Netto chegou ao Planalto em fevereiro de 2020 para ocupar a Casa Civil, após atuar como interventor federal na segurança pública do Rio, em 2018, no governo Michel Temer. De forma pragmática, ele e Ramos passaram a trabalhar em dobradinha. Mas o novo chefe da Casa Civil, amigo de longa data de Bolsonaro, ganhou fama de exagerar na adulação ao presidente.

Ramos deixou a caserna em julho de 2019 para assumir o primeiro cargo no Planalto, a Secretaria de Governo. Nessa época, ele já demonstrava disposição para o jogo político. “Quem controla o Estado-Maior controla qualquer coisa”, dizia o general, sempre que amigos lhe perguntavam se iria se adaptar às turbulências do Planalto.

Aos 64 anos, Ramos tem um currículo extenso nos quartéis e gabinetes da burocracia militar. Mas, ao contrário do que sugere a frase dita sobre o poder, no entanto, ele não chegou oficialmente ao comando do Estado-Maior do Exército, o influente órgão que planeja a política de uso das tropas e define diretrizes militares. Ramos foi vice do general Luiz Fernando Azevedo e Silva, comandante oficial em 2018 e 2019.

Militares que o conhecem há tempos, ouvidos pelo Estadão, dizem que ele não perde a chance de reivindicar o controle de espaços e superdimensionar suas posições políticas. É inegável, porém, que Ramos desfruta da intimidade do presidente. Atualmente, por exemplo, é um dos únicos ministros que o tratam por “Jair”, embora nunca em público.

Paraquedista como Bolsonaro, Ramos se formou em 1979 pela Academia das Agulhas Negras, foi chefe da 1ª Divisão do Exército no Rio e da 11ª Região Militar de Brasília. De 2011 a 2012, ele também comandou a Missão de Paz da ONU no Haiti, uma estratégia da política externa dos governos petistas que empoderou a geração de generais do período democrático. Em Porto Príncipe, a habilidade de  negociação de Ramos foi decisiva para  acelerar o processo de pacificação de Cité Soleil, núcleo rebelde onde a força da ONU tinha muita dificuldade para entrar.

Na campanha do amigo Bolsonaro, em 2018, Ramos estava à frente do Comando do Sudeste, em São Paulo, função considerada estratégica pela proximidade do poder econômico. Trata-se de um cargo que exige menos aptidão de tiro e mais concentração em política do Exército.

Deputados e senadores da base aliada do  Planalto e mesmo colegas de governo reclamam que o general “planta” informações e alardeia notícias sem fundamento. Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, chegou a escrever no Twitter que Ramos tem postura de “#mariafofoca”. Depois, pediu desculpas pelo “excesso”. Ramos nunca responde aos ataques em público, preferindo o silêncio, sob o argumento de que não age para  prolongar “crises artificiais”.

Influência. A Casa Civil, hoje comandada por Ramos, tem na tradição e  na proximidade com o presidente pilares de influência única. No passado, a pasta foi chefiada por nomes fortes, como Lourival Fontes no governo democrático de Getúlio Vargas, Leitão de Abreu no tempo do ditador Emílio Garrastazu Médici, o general Golbery do Couto e Silva nas gestões de Ernesto Geisel e João Figueiredo, Clóvis Carvalho e Pedro Parente na era Fernando Henrique Cardoso e José Dirceu e Dilma Rousseff na administração de Luiz Inácio Lula da Silva.

Foi a partir de Golbery que a Casa Civil se tornou o ministério das “eminências pardas”. Ramos, por sua vez, sempre teve como característica o trabalho de bastidor do poder. Mas, ao contrário do homem forte da ditadura, não tem a discrição como uma característica, na avaliação de aliados.

Esses mesmos interlocutores do Planalto destacam que, pelas características de Bolsonaro – um presidente sem paciência para ler processos e documentos –, o general se tornou figura-chave no aconselhamento do uso da “caneta Bic” do governo. É na Casa Civil que projetos e programas elaborados nos ministérios e, mesmo em negociações no Congresso, são revisados e chancelados antes da aprovação presidencial.

Em dois anos de governo, militares que estiveram com Bolsonaro na campanha perderam seus cargos, tiveram sua influência reduzida ou enfrentaram afastamento do gabinete presidencial. É o caso de Augusto Heleno, atual ministro do Gabinete de Segurança Institucional, e mesmo do vice-presidente Hamilton Mourão, com quem Bolsonaro mantém relação distante.

Colegas de Bolsonaro e Ramos nos tempos de quartel apostam que, pela amizade entre os dois, desde a Escola Preparatória de Cadetes, o general somente entrará na lista dos defenestrados pelo presidente se houver um terremoto político.

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