Mudança de ossadas de Perus começa logo

A transferência das ossadas encontradas no Cemitério de Perus, em São Paulo, que estiveram sob a guarda da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no interior do Estado, nos últimos dez anos, terá início esta semana.Na próxima quinta-feira, por volta das 7 horas, a universidade enviará para o Cemitério do Araçá, na capital paulista, pelo menos 40 restos, catalogados e dispostos, individualmente, em caixas plásticas.A Unicamp informou nesta segunda-feira que o transporte será feito num carro fechado, ainda não definido. Ainda segundo a universidade, o cronograma para o transporte dos 1.050 despojos mortais está sendo definido em conjunto com o Cemitério do Araçá, para evitar sobrecarga aos funcionários do local. A transferência será coordenada pela Comissão de Perícias da Unicamp. "Não há data limite para o término da remoção das ossadas. Mas, quanto antes, melhor; assim, elas estarão num local digno", disse nesta segunda o presidente da comissão, Roberto Romano. Às 9h30 de quinta-feira, está previsto um ato público no columbário (edifício que recebe urnas funerárias) do cemitério paulistano, com participação de representantes da universidade, da Secretaria de Segurança Pública (SSP) do Estado, políticos, religiosos, entidades de defesa dos direitos humanos e parentes de desaparecidos políticos."A universidade fez tudo o que podia nesse caso", afirmou Romano. As ossadas foram encontradas em setembro de 1990, numa vala comum do Cemitério D. Bosco, em Perus. Nos anos seguintes, restos mortais de outras regiões do Brasil foram encaminhados à Unicamp.Durante sete anos, especialistas da universidade debruçaram-se sobre o material e conseguiram identificar sete restos mortais de desaparecidos políticos. A pesquisa consumiu cerca de R$ 550 mil.A Secretaria de Segurança do Estado repassou à universidade apenas R$ 16 mil. Foram identificadas os despojos dos desaparecidos políticos Frederico Eduardo Mayr, Dênis Casemiro (os dois encontrados na vala comum em Perus), Sônia Maria de Moraes Angel Jones, Antônio Carlos Bicalho Lana, Helber José Gomes Goulart (os três também do Cemitério D. Bosco, mas fora da vala comum), Emanuel Bezerra dos Santos (encontrado no Cemitério do Campo Grande, em São Paulo) e Maria Lúcia Petit da Silva (Cemitério de Xambioá, no Tocantins). Questões políticas começaram a despontar, afastando os especialistas do trabalho de identificação, conforme relatou o médico legista José Eduardo Bueno Zappa.Em 1997, sozinho na equipe de perícia, ele elaborou um documento, explicando que a universidade não tinha mais condições técnicas de continuar as investigações.Em 1998, os restos mortais foram postos à disposição da Secretaria de Segurança Pública. Em dezembro, a universidade enviou oito ossadas ao Instituto Médico-Legal (IML) de São Paulo, onde as investigações deveriam ser reiniciadas, sob coordenação do perito Daniel Munõz da Universidade de São Paulo (USP).Elas poderiam pertencer aos desaparecidos Hiroaki Torigoi, Flávio Carvalho Molina, Luiz José da Cunha e Francisco Manoel Chaves. Porém, nada de conclusivo foi descoberto.Zappa explicou que o trabalho de identificação será muito difícil, mesmo com a aplicação de técnicas recentes. "Os dados de confronto são muito exíguos, e as condições das ossadas dificultam o trabalho", avisou.O restante das ossadas será levado para o Cemitério do Araçá. Segundo o perito Fortunato Badan Palhares, que participou das investigações na Unicamp durante cinco anos e meio, a maior parte dos restos pertence a indigentes da Grande São Paulo, enterrados no Cemitério D. Bosco, e a identificação não poderia ser feita com segurança.Para o reitor na época, Carlos Alberto Vogt, no entanto, seria possível levar o processo adiante, desde que houvesse cooperação de técnicos de outras universidades e instituições. Romano discordou de Vogt e alegou que o relatório de Zappa é bastante conclusivo nesse aspecto. "Não há como identificar as outras ossadas com 100% de segurança", disse, reforçando a afirmação de Palhares de que boa parte delas não pertence a desaparecidos políticos, mas a indigentes."O grande escândalo que tem de ser considerado é como o País permite que existam pessoas enterradas clandestinamente", alegou.

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