MST vê agronegócio como alvo aos 25 anos

Líderes do movimento dizem que invasões aceleram reforma agrária

Roldão Arruda, O Estadao de S.Paulo

20 de janeiro de 2009 | 00h00

A reforma agrária no Brasil nunca se fez nem se fará em mesas de negociações, mas sim por meio invasões de terras. Essa é uma das principais conclusões dos líderes do Movimento dos Sem-Terra (MST) nas avaliações que estão fazendo sobre os 25 anos de fundação da entidade, comemorados nesta semana."Só a luta salva", disse ontem em São Paulo, em entrevista coletiva, Marina dos Santos, integrante da coordenação nacional e porta-voz do movimento. "Mais de 70% dos assentamentos existentes no País surgiram da ocupações de propriedades. Não teríamos tido esse resultado em mesas de negociações."A líder dos sem-terra também disse que 1% dos proprietários rurais detêm 46% do total de terras agricultáveis. "Em termos de concentração de terras, somos o segundo pior país do mundo", continuou. O primeiro seria o Paraguai.Outra conclusão do MST, no balanço dos 25 anos, é a impossibilidade de convivência entre agronegócio e pequena propriedade - que inclui tanto a agricultura familiar tradicional, quanto assentamentos da reforma agrária. Isso equivale a dizer que um deve destruir o outro."Vamos intensificar o combate ao agronegócio", anunciou João Paulo Rodrigues, que também integra o quadro de dirigentes nacionais do MST. De acordo com sua exposição, o agronegócio favorece a concentração de terras, o desmatamento e o uso intensivo de agrotóxicos, além de ampliar as áreas de monoculturas - como a cana, a soja e o eucalipto. A reforma agrária, por sua vez, aumentaria o número de pequenos proprietários, estimularia a produção de alimentos e criaria mais chances de emprego.Para Rodrigues, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se contradiz quando afirma que é amigo dos sem-terra e elogia os grandes produtores rurais: "Ele chama os usineiros de heróis. Mas os usineiros são nossos inimigos, assim como as transnacionais, os ruralistas."Outro participante da coletiva, o geógrafo Ariovaldo Umbelino, professor aposentado da USP e assessor do MST, afirmou que existem vastidões de terras públicas, em sua maior parte ocupadas ilegalmente, que poderiam ser destinadas à reforma agrária. "Isso não acontece porque as elites não querem", disse. "Mas não é só: o núcleo duro desse governo já não acredita, tanto do ponto de vista teórico quanto político, na reforma como alternativa de desenvolvimento econômico."A direção nacional do MST reúne-se a partir de hoje em Sarandi, no Rio Grande do Sul, para definir suas ações para este ano. A reunião será a portas fechadas. No sábado, eles se encontrarão com convidados do Brasil e do exterior para a festa dos 25 anos.

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