MST sai da fazenda do amigo de FHC e invade gleba de ex-sem-terra

Os 300 sem-terra que ocupavam a fazenda Santa Maria, em Teodoro Sampaio, no interior paulista, deixaram hoje a propriedade, cumprindo determinação da Justiça, mas invadiram, em seguida, uma gleba do assentado José Tenório, de 53 anos, a 800 metros do local. A Polícia Militar assistiu impassível à nova invasão.A fazenda desocupada, de 5.500 hectares, pertence a Jovelino Carvalho Mineiro, sócio dos filhos do presidente Fernando Henrique Cardoso em outra propriedade, a fazenda Córrego da Ponte, em Buritis (MG). Da nova gleba invadida, de 22 hectares, Tenório tira o sustento da família criando vacas de leite e plantando feijão. "Eu também fui sem-terra, vocês não podem fazer isso comigo", implorava, enquanto os invasores cortavam a cerca de arame.O grupo entrou e começou a montar barracas, alheio aos protestos do assentado. Denilton Henrique, o "Musgão", um dos líderes dos acampados, disse que a parte invadida pertence ao Estado, embora seja usada por Tenório. "É área de reserva administrada pelo Itesp (Instituto de Terras do Estado de São Paulo)"."Não sou do MST"Tenório disse que obteve a gleba em 1985, em um projeto de assentamento do governo paulista. O terreno fica na margem do Ribeirão Agoniado, no assentamento Água Sumida. A parte invadida pelos sem-terra tem pasto para o gado e vem sendo reflorestada. "Não sou do MST e não concordo com essa invasão", protestava. "Vou recorrer ao Itesp."Ele contou que sua gleba já foi invadida pelos mesmos sem-terra no ano passado. "Destruíram 900 pés de café e deixaram o gado sem água, dando um prejuízo de R$ 4 mil", disse. O mediador de conflitos do Itesp, Élcio Oliveira Cruz, informou que a direção executiva do órgão em São Paulo está analisando o caso.O despejo dos sem-terra foi cercado de muita expectativa e algum mistério. O juiz Atis de Araujo Oliveira, que concedera a liminar de manutenção de posse na noite de terça-feira, decretou sigilo sobre a operação. Seu despacho dava a entender que os líderes da invasão poderiam sem presos, pois dizia: "cabe aos órgãos de segurança do Estado cumprirem com seu dever e prenderem aqueles que estão cometendo crimes".Rainha saiO coordenador do MST no Pontal, José Rainha Júnior, alertado por um telefonema, deixou a cidade na terça-feira. Outro líder, Sérgio Pantaleão, saiu do acampamento de madrugada. O risco de prisões deixou o clima tenso. "Havia expectativa de um conflito se ocorressem prisões", disse Cruz, o mediador do Itesp. Segundo ele, a decretação do sigilo pelo juiz agravou a tensão. "Havia temor de que se repetisse o que ocorreu em Minas."O comandante da PM local, Francisco Batista Leopoldo, recebeu a ordem de despejo às 9 horas e começou a reunir a tropa. Foram colocados de prontidão cerca de 100 homens, incluindo os efetivos de Presidente Wenceslau, Rosana, Euclides da Cunha e Mirante do Paranapanema.Duas horas depois, escoltado por 20 policiais sob o comando do major Pedro Gomes, do Batalhão de Presidente Prudente, o escrivão de justiça Paulo de Faria Lourenço interrompia o almoço dos sem-terra e comunicava a ordem de saída imediata da fazenda, "sob pena de prisão em caso de descumprimento".Palavras de ordemA mulher de Rainha, Diolinda da Silva, chegou no acampamento para participar de uma rápida assembléia. Diolinda comunicou que fora tomada a decisão de transferir o grupo para um assentamento de Marabá Paulista, município da região. Gritando palavras de ordem, os sem-terra começaram a desmontar as barracas de lona.Alguns, como Luzia Macedo Silva, de 22 anos, estavam resignados. "Nossa vida é isso." Desde que aderiu ao MST, há três anos, passou por vários acampamentos. "Um dia, vou ter meu chão como meu pai e minha mãe, que já estão assentados." Os pais conseguiram um lote no assentamento Marco 2.O sem-terra Harabe Marcelino, de 55 anos, conhecido como "Bin Laden" por causa do turbante e da barba, contou que luta pela terra há quase 45. "Ainda não chegou minha vez." Cerca de 100 troncos de eucaliptos cortados na região foram colocados sobre um caminhão fretado. A viagem durou poucos minutos e terminou com a invasão da gleba de Tenório.O major Gomes considerou que o despejo tinha sido cumprido. "O juiz deu ordem para que deixassem a fazenda, e isso ocorreu." Segundo ele, um novo despejo terá de ser requerido à justiça, se o assentado se julgar prejudicado.

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