José Leomar/Agência Diário
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MST realiza protestos em 15 Estados para pressionar por reforma agrária

'Abril Vermelho' também cobra punição dos culpados pelas mortes em Eldorado dos Carajás

estadão.com.br - Texto ampliado às 18 horas,

16 de abril de 2012 | 17h01

SÃO PAULO - O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) realiza nesta segunda-feira, 16, uma série de protestos pela Jornada Nacional de Lutas pela Reforma Agrária, também conhecida por "Abril Vermelho", para cobrar o assentamento de mais famílias sem terra e a punição dos responsáveis pela morte de 21 trabalhadores rurais assassinados em Eldorado dos Carajás, no Pará, em 1996.

Integrantes do movimento organizaram ações em 15 Estados, que somam 38 ocupações de terra, cinco ocupações de sedes do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e quatro protestos em prédios públicos, além da ocupação de estradas e criação de acampamentos nas cidades, segundo o MST. Confira abaixo um resumo dos protestos.

Ceará. Cerca de 1,5 mil integrantes ocuparam o Palácio da Abolição, em Fortaleza, sede do governo estadual. Crianças e jovens que participaram da ação aproveitaram para tomar banho em uma piscina localizada na área externa do prédio, no bairro Meireles.  O ato reivindica ações do governo para amenizar os efeitos da seca que atinge vários municípios, além do assentamento imediato das 2.000 famílias acampadas no Estado.

Bahia. Cerca de 3 mil integrantes de quatro associações de sem-terra também montaram acampamento na manhã desta segunda-feira na frente da sede do Incra, no Centro Administrativo da Bahia, em Salvador. Manifestantes do MST, da Pastoral Rural, do Movimento dos Trabalhadores Assentados e Acampados da Bahia e do Movimento dos Trabalhadores Desempregados chegaram em ônibus e montaram barracas, com grande quantidade de mantimentos, no local. Os grupos sem-terra prometem, ainda, interditar parte das rodovias baianas na terça-feira, 17, por 21 minutos, para lembrar a passagem dos 16 anos do episódio em Eldorado dos Carajás. No Estado, os sem-terra cobram aceleração dos projetos de reforma agrária e  medidas contra a estiagem que atinge o semiárido baiano. De acordo com o governo baiano, 200 municípios decretaram situação de emergência por causa da seca, a pior dos últimos 30 anos.

Pernambuco. Integrantes do MST ocuparam mais cinco propriedades, totalizando seis no Estado neste Abril Vermelho. De acordo com a coordenação regional, além da fazenda Serra Grande, no município de Gravatá, no agreste, ocorrida no sábado, 14, as ocupações ocorreram, até a madrugada desta segunda-feira, em fazendas do sertão e do agreste - Garrote Bravo, em Ibimirim, Fruit Vita, em Petrolina, Cedro, em Ipubi e Amargoso, em Bom Conselho, e Condado, em São Bento do Uma. O movimento alega que as áreas são improdutivas. De acordo com um dos seus dirigentes, Florisvaldo Alves, dos 1,3 mil hectares da fazenda Fruit Vita, a fazenda ocupa apenas 200 hectares para produção de manga irrigada para exportação.

Paraná. Pelo menos 500 integrantes do MST ocuparam parte das ruas de Curitiba na manhã desta segunda-feira, em marcha de aproximadamente três quilômetros ao prédio da Superintendência do Incra, onde entregaram uma pauta de reivindicações. Os militantes pretendem ficar na capital paranaense até sexta-feira, período em que terão reuniões com várias entidades e secretarias estaduais. Os principais pedidos ainda são por terras e melhorias nos assentamentos. As reivindicações não são novas e têm sido apresentadas todos os anos durante a Jornada de Lutas e Negociações que os sem-terra realizam no mês de abril. "Não houve muito avanço", lamentou a porta-voz do movimento no Paraná, Salete Mariani. Os sem-terra pedem mais agilidade do Incra para o assentamento de seis mil famílias acampadas no Estado, além de assistência técnica e investimentos nos setores de educação, cultura, saúde e habitação.

"A ideia é mobilizar o nosso povo para fazer as cobranças", reforçou Salete. "A reforma agrária tem que avançar." Entre os pedidos a serem apresentados ao governo estadual e ao Ministério da Educação está o de construção de 16 colégios de ensino médio. "A demanda que temos fundamenta o pedido", disse um dos líderes do movimento Roberto Baggio. Atualmente, há 14 colégios atendendo os sem-terra. "São mais de 30 mil jovens", acentuou Baggio. Durante a semana, os sem-terra ficarão abrigados no Ginásio do Tarumã, cedido pelo governo do Estado. Eles devem fazer novas manifestações pelas ruas da cidade. Para a manhã de terça-feira, está previsto o fechamento de algumas rodovias.

Mato Grosso. Cerca de 700 integrantes do MST bloquearam a Rodovia federal BR-163, em Sorriso, Mato Grosso, na manhã desta segunda-feira, segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF). Os manifestantes interditaram a rodovia na altura do km 761 para reivindicar promessas não cumpridas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), segundo a PRF. Apenas veículos de emergência, como ambulâncias, estão sendo liberados e passando pelo bloqueio, informa a PRF.

Brasília. Cerca de 10 ônibus saídos de vários Estados são esperados em Brasília para reforçar a ocupação que o MST realiza no Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), e outras áreas da Esplanada dos Ministérios, como parte das ações do "Abril Vermelho". A intenção do movimento é colocar na Esplanada cerca de 2 mil manifestantes de 11 Estados. Cerca de 1.500 pessoas já estão nesta segunda-feira em Brasília. Eles ocupam oito dos nove andares no Ministério do Desenvolvimento Agrário, onde uma bandeira do MST pode ser vista. Segundo a coordenação do movimento, não há previsão de término da ocupação. No prédio funcionam também a Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom) e o Ministério do Esporte. O prédio está interditado pelo MST e não há expediente. O MDA ainda não se manifestou e está formando uma comissão negociadora para a desocupação do prédio de forma pacífica. Mas o movimento disse que não vai se retirar enquanto o governo não der uma resposta concreta às reivindicações.

"Daqui só saímos quando o governo sinalizar o atendimento da nossa pauta. Diálogo e promessas nós já temos. Queremos ações concretas", disse José Ricardo Basílio da Silva, da coordenação nacional do MST. Ele informou que o governo Dilma está sendo "um desastre" na área de reforma agrária e disse que o programa Brasil sem Miséria é "uma falácia". "Não se combate a miséria sem resolver a questão fundiária" afirmou o dirigente, acrescentando que o desempenho do governo em 2011 foi o pior dos últimos 16 anos em termos de assentamento. Segundo Silva, 180 mil famílias estão acampadas em todo o País, aguardando terras para trabalhar. Algumas há mais de 10 anos. O MST reclama principalmente do contigenciamento de 70% dos recursos de custeio do Incra, o que teria prejudicado substancialmente as metas de assentamento de 2012.

(Com Tiago Décimo, Ângela Lacerda, Evandro Fadel e Vanildo Mendes)

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