MST queria invadir fórum e cartório na cidade de Renan

Grupo fez churrasco com bois de irmão do senador

Ricardo Rodrigues, MACEIÓ, O Estadao de S.Paulo

07 de julho de 2026 | 00h00

Cerca de 2.500 trabalhadores rurais de quatro siglas - Movimento dos Sem-Terra (MST), Comissão Pastoral da Terra (CPT), Movimento de Libertação dos Sem-Terra (MLST) e Movimento Terra Trabalho Liberdade (MTL) - promoveram ontem uma manifestação em defesa da reforma agrária e contra a grilagem de terras em Alagoas. O ato, seguido de passeata, foi em Murici (AL) - cidade natal do clã Calheiros -, a cerca de 60 quilômetros de Maceió.Os manifestantes ameaçaram invadir a fábrica de refrigerantes Schincariol, o cartório, o fórum e a prefeitura da cidade, governada por Renan Calheiros Filho (PMDB). Seu pai, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), é alvo de processo no Conselho de Ética e suas transações com gado em Murici estão sendo alvo de perícia da Polícia Federal.Anteontem, 400 famílias já haviam invadido a Fazenda Boa Vista, do deputado Olavo Calheiros (PMDB-AL), irmão de Renan. Olavo foi dono da fábrica de refrigerantes Conny, vendida depois para o Grupo Schincariol, em operação que vem sendo colocada sob suspeita.As lideranças dos movimentos acusaram a família Calheiros de grilagem e vão entrar na Justiça exigindo intervenção no Cartório de Murici. Eles dizem que a dona do estabelecimento, Maria de Lourdes Ferreira Moura, falsificou escrituras e certidões para "legalizar" terras supostamente griladas pela família do senador. "Em 2005, ocupamos esse cartório para perguntar onde estão as escrituras de terras das usinas falidas, que devem ao INSS e ao Banco do Brasil, mas tomamos conhecimento de que a documentação tinha sido desviada", afirmou Carlos Lima, coordenador da Comissão Pastoral da Terra.MARCHAA manifestação começou na frente da fábrica da Schincariol, na entrada da cidade. Os manifestantes chegaram a forçar o portão de entrada, protegido por apenas três policiais militares e alguns vigias. Os funcionários tiveram de oferecer refrigerantes para controlar os ânimos dos manifestantes, que levavam foices e outros instrumentos de trabalho. "Vamos embora minha gente, da próxima vez a gente entra", disse um dos líderes, do carro de som.Durante o ato público, os sem-terra lembraram a denúncia de venda superfaturada da fábrica. Segundo os manifestantes, Olavo gastou R$ 10 milhões na montagem da fábrica de tubaína Conny, usando dinheiro emprestado do Banco do Nordeste, depois vendeu o empreendimento para o grupo paulista por R$ 17 milhões, em troca do perdão de uma dívida, estimada em R$ 100 milhões, que o Grupo Schincariol tinha com a Previdência Social. "Essa fábrica sempre foi uma grande lavanderia para o dinheiro sujo da família Calheiros", disse Carlos Lima, coordenador da CPT. A família Calheiros e a Schincariol negam irregularidades.O grupo seguiu rumo à entrada principal da cidade. Com receio de saque, os comerciantes fecharam as portas. Depois de passarem pelo cartório e pelo fórum, os manifestantes se dirigiram à prefeitura, onde queriam um encontro com Renan Filho, mas ele estava em Maceió.Depois do ato público, os manifestantes seguiram em passeata até a entrada da cidade, onde vários ônibus e caminhões os esperavam. Um desses ônibus tinha o adesivo do Grupo João Lyra, do ex-deputado João Lyra, presidente do PTB de Alagoas e adversário de Renan.A invasão na Fazenda Boa Vista foi mantida ontem. Os sem-terra confirmaram que na terça-feira mataram pelo menos cinco bois de Olavo e fizeram churrasco. FRASECarlos LimaCoordenador da Comissão Pastoral da Terra em Alagoas"Essa fábrica nunca foi de refrigerante, sempre foi uma grandelavanderia para o dinheiro sujo da família Calheiros"

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