MST programou 50 invasões até o final de abril

A invasão da Fazenda Córrego da Ponte, da família do presidente Fernando Henrique Cardoso, foi anunciada publicamente há três semanas por José Rainha, um dos líderes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), em duas assembléias, realizadas dia 4 em Campinas e na noite do dia 5 em Jundiaí. Rainha falou para os 1.200 participantes da marcha dos agricultores contra a violência no campo e revelou que o MST programou 50 invasões em vários Estados até o fim do mês de abril. "Todos os coordenadores já receberam os planos e sabem o que fazer", disse. No ato público de Jundiaí, Rainha destacou que uma das operações aprovadas causaria grande repercussão. Na ocasião, ele admitiu que o movimento pretende realizar ocupações simultâneas usando os mesmos métodos do clandestino Primeiro Comando da Capital (PCC), que age nos presídios de São Paulo. Para Rainha, "o propósito da ação do PCC é errado, mas a tática é um instrumento impecável, devia ser seguida por todos os movimentos de massa".Falta de prevençãoA falta de uma ação preventiva da segurança presidencial e da intervenção do governo mesmo depois desse episódio, "evidencia a precariedade da estrutura de inteligência do Estado", analisa um ex-chefe da agência de São Paulo do extinto Serviço Nacional de Informações (SNI), fechado pelo ex-presidente Fernando Collor de Mello em 1990. "Não há acompanhamento sistemático, que é um tipo de atividade considerada legítima em qualquer parte do mundo, de grupos radicais como o dos sem-terra", pondera. Atualmente, a coleta de dados estratégicos para uso do governo é feita de forma institucional pela Polícia Federal (PF) e pela Abin, a Agência Brasileira de Inteligência. "O pessoal da PF é bom, mas treinado para fazer levantamentos e cenários de acordo com o seu trabalho de repressão ao crime comum", analisa o ex-agente. Trabalhando como analista de informações de uma grande multinacional, o especialista diz que sua equipe sabia há mais de um mês que o pessoal do Centro de Treinamento de Hortolândia, na região de Campinas, havia terminado dia 20 de fevereiro o mapeamento de todas as glebas a serem tomadas por invasores. Nesse cadastro, "há um considerável número de áreas urbanas, o que caracteriza formalmente a ligação com o MSTT, dos Sem-Teto" afirma. A prioridade na lista de terrenos rurais a serem tomados é uma fazenda de 6,7 mil hectares, propriedade do governo de São Paulo no norte do Estado. Teria sido utilizada como estação experimental de zootecnia da Secretaria da Agricultura, muito ativa nos anos 80. Depois disso, parte da fazenda passou para o inventário das terras públicas a serem negociadas. O estabelecimento das linhas de suprimentos, parte do transporte, das comunicações e as análises de situação do MST, têm o apoio da igreja. "Temos oferecido alimentação, abrigo e reflexão em todas as comunidades de base", afirma a irmã Helena, religiosa ligada ao movimento em São Paulo e em Minas Gerais há 20 anos. A freira integra a equipe de monitores do MST responsável pela formação, a cada ano, de 50 ativistas, jovens e necessariamente radicados no interior. O curso dura seis meses. São aulas teóricas, debates quinzenais em assentamentos, visitas semanais a acampamentos e treinamento tático. Concluído o ciclo de instrução, os novos integrantes recebem sua primeira missão individual: atrair mais 20 militantes.

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