MST invade fazenda do presidente da UDR em São Paulo

No penúltimo dia do "abril vermelho", cerca de 120 integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) fizeram uma ação ousada: invadiram, na manhã deste domingo, 29, a fazenda Ipezal, do presidente da União Democrática Ruralista (UDR), Luiz Antonio Nabhan Garcia, em Sandovalina, no Pontal do Paranapanema, oeste de São Paulo. O líder dos fazendeiros acusou os sem-terra de dispararem vários tiros contra dois funcionários da fazenda, mas ninguém ficou ferido. Nabhan é considerado inimigo ferrenho do MST e sua fazenda foi a quarta invadida pelo movimento durante este mês na região - a 19ª no Estado durante a jornada de lutas do MST. Os invasores saíram da fazenda Santa Cruz, em Mirante do Paranapanema, invadida na última quinta-feira, e foram direto para a nova invasão. Na área anterior, eles tiveram o despejo decretado pela Justiça. Na Ipezal, chegaram com um comboio de ônibus, carros e dois caminhões, cortaram a cerca e começaram a montar os barracos. Houve um princípio de conflito logo após a invasão. De acordo com Nabhan, os sem-terra abriram fogo contra dois peões que foram até o local para recolher o gado. "Foram vários tiros e meu pessoal teve que deixar o gado para trás." Os campeiros Antonio de Moraes e José Aparecida da Silva confirmaram os tiros. "Atiraram com revólveres e espingarda", disse Moraes. O advogado da UDR, Joaquim Botti, registrou a ameaça na Delegacia de Polícia do município. Outra versãoO coordenador estadual do MST, Valmir Rodrigues Chaves, deu outra versão. Segundo ele, foram os dois campeiros da fazenda que dispararam contra os sem-terra que montavam os barracos. "Nosso pessoal teve de se refugiar na mata que existe perto do acampamento. Depois, um grupo correu atrás dos atiradores, mas eles fugiram."A Polícia Militar mandou duas viaturas para o local. Os veículos permaneciam do lado de fora da cerca, onde os sem-terra montavam guarda para impedir a entrada de estranhos. A invasão ocorreu um dia depois de Nabhan ter anunciado que a entidade está fazendo um "cerco jurídico" aos invasores do MST. A propriedade tem 366 hectares e é "totalmente produtiva", segundo o dono. "É uma provocação, pois são terras particulares, que pertencem à minha família faz mais de 70 anos", disse Nabhan. Ele entra na segunda-feira, 30, com o pedido de reintegração de posse. O líder dos sem-terra disse que a fazenda é objeto de ação discriminatória na Justiça, pois fica num perímetro de terras devolutas. "A UDR é contra a reforma agrária e apóia os grileiros. A fazenda dele (Nabhan) tem ação discriminatória, o que significa que é terra grilada. Se não foi ele (que grilou), foi o pai ou o avô." Segundo Chaves, os governos estadual e federal "perderam a hora" de fazer a reforma agrária na região. "Cruzaram os braços e deixaram os acampamentos brotarem na beira das estradas. Será que eles não vêem quanta gente está embaixo da lona?" ProtestoAlém de chamar a atenção para a "paralisação" da reforma agrária, ele disse que as ocupações são um protesto contra o avanço do agronegócio e da cana sobre terras públicas. "Se tem de ter cana, que tenha um lugar certo para plantar." Ele reafirmou que as ações não terminam com o mês de abril. "Podemos dar uns dias de descanso, mas não vamos parar." Nabhan culpou o governo do presidente Lula pela onda de invasões. "Enquanto o governo continuar fazendo de conta que é um movimento social e cedendo às pressões, isso não terá fim. A sociedade é contra essas invasões, mas o governo segue para o lado errado e intensifica as desapropriações. Isso mostra um governo conivente com o MST."

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