MST expulsa até ex-militantes de fazenda da Cutrale

Invasores ocuparam a casa-sede, os escritórios e todas as instalações existentes no local

José Maria Tomazela , de O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2008 | 18h47

Integrantes do Movimento dos Sem-Terra (MST) expulsaram na segunda-feira as seis famílias de trabalhadores rurais que moravam na Fazenda Turvinho, da empresa Cutrale, em Iaras, no sudoeste paulista. Entre os expulsos, estão assentados e filhos de antigos integrantes do próprio MST. A propriedade de 800 hectares foi invadida no último dia 18 por cerca de 600 militantes, como parte da jornada nacional de luta do movimento - o chamado "abril vermelho". A fazenda faz parte de uma área maior, de 2,7 mil hectares, cultivados com laranja. Os invasores ocuparam a casa-sede, os escritórios e todas as instalações existentes no local. Os empregados da Cutrale que ocupavam as casas da fazenda receberam um ultimato para deixar a propriedade.   "Eles fizeram uma reunião lá e decidiram que a gente tinha que sair", contou o vigilante José Mariano de Oliveira, de 27 anos. Um dos líderes transmitiu o recado ontem cedo. A esposa e a filha de três anos do vigilante já tinham ido para a casa da sogra, no Acampamento Zumbi dos Palmares, que fica na mesma região. A mulher e seu marido são assentados e o casal já foi militante do MST, mas isso não impediu a expulsão da filha e do genro com a netinha. Segundo Mariano, outras duas famílias moram no assentamento. "Muitos assentados trabalham na fazenda." Ele disse que não tinha como resistir à ordem para ir embora. "Eles eram muitos e meu chefe tinha nos orientado para evitar qualquer problema." Os sem-terra não permitiram a retirada de 35 tratores, 4 caminhões-pipas, dezenas de máquinas e implementos da empresa que estão em seu poder. Mariano saiu com uma "mão na frente e outra atrás", como disse. Móveis e objetos pessoais ficaram na casa.   O assentado Adriano Feliciano, de 28 anos, também trabalhava na empresa como tratorista. Ele voltou para o seu lote, no Zumbi dos Palmares, e agora não sabe como vai ser o futuro da família. Sua mulher, Olga Lourenço dos Santos, de 32 anos, também trabalhava nos laranjais. "A empresa é muito boa, dá ônibus, cesta básica e manda presentes para as crianças." Adriano voltou a trabalhar no lote na esperança de que a situação seja resolvida logo. Ele recebe cerca de R$ 600 por mês, dinheiro que mantém a casa e sustenta as crianças - as filhas Silvana, 15, Micaela, 10 e Michele, 7 anos. Com o salário, o tratorista comprou uma motocicleta em prestações. "Ainda falta pagar 20 parcelas de R$ 330." Segundo o trabalhador, em nenhum outro lugar da região ele vai conseguir o mesmo salário. "Emprego por aqui está difícil." O lote no assentamento pertence à sua mãe, que já foi acampada e militante do MST, assim como seu sogro. "Nós somos agregados", disse, referindo-se à mulher e os filhos. A produção do lote não é suficiente para sustentar toda a família. Por essa razão, muitos assentados foram trabalhar na Cutrale.   "O ônibus passa no acampamento recolhendo o pessoal." Ou melhor, passava: desde a invasão, os trabalhadores estão em casa, com medo de perder o emprego. "Está todo mundo na expectativa do que vai acontecer." O pior, segundo ele, é que chegou a época da colheita e as frutas estão amadurecendo nos pés e caindo. Se depender do MST, a Cutrale não volta a colher laranjas na fazenda. De acordo com a líder Claudete Pereira de Souza, da direção estadual do movimento, os sem-terra pretendem lutar "até o fim" pela posse da área. "As terras aqui pertencem à União e a empresa usa indevidamente", disse. Ela contou que cerca de 300 militantes permanecem no local e estão usando a estrutura da fazenda para acomodar principalmente mulheres e crianças. "Montaram uma bela estrutura em terras públicas." Claudete disse que a saída dos funcionários foi decidida pelo grupo.   "Não tem sentido eles ficarem aqui." De acordo com a líder, os acampados pretendem usar os tratores para arar a terra e plantar alimentos. "Não vamos cortar nenhum pé de laranja, pois o plantio será feito entre as linhas do pomar." A reintegração de posse da área já foi dada em favor da Cutrale no dia seguinte ao da invasão pela juíza Luciane Cristina Rodrigues Pereira, da comarca de Cerqueira César, mas o mandado ainda não foi cumprido. Os oficiais de justiça não conseguiram intimar pessoalmente os líderes do movimento e reportaram a situação à juíza, que reiterou a ordem de despejo. A ação operação para a retirada dos invasores está sendo preparada pela Polícia Militar de Bauru. A líder disse que os sem-terra não querem o confronto. "Estamos tentando reverter a liminar na instância superior."

Tudo o que sabemos sobre:
MSTCutrale

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.